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Como a violência doméstica afeta a vida dos filhos? Entenda o caso de Letícia Birkheuer

Crianças que presenciam episódios de violência doméstica têm seu desenvolvimento emocional, psicológico e até físico afetado; entenda

Marina Borges

por Marina Borges

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Publicado em 05/06/2024, às 09h00

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Letícia Birkheuer e o filho, João Guilherme - Reprodução/Instagram
Letícia Birkheuer e o filho, João Guilherme - Reprodução/Instagram

Recentemente, a atriz e ex-modelo Letícia Birkheuer revelou ter sofrido uma agressão do ex-marido, o empresário Alexandre Furmanovich, em um restaurante, na frente do filho, João Guilherme, de 12 anos. O caso de violência doméstica gerou grande repercussão e levantou discussões sobre os impactos desse tipo de abuso na vida dos filhos.

Veja o depoimento da atriz na íntegra:

Leticia Birkheuer denuncia marido por violência doméstica: "Quebraria minha cara"

Para entender melhor como episódios de violência doméstica podem afetar o desenvolvimento e o bem-estar das crianças e dos adolescentes, AnaMaria conversou com o psicólogo William Lima, especialista em Direitos Fundamentais da Família, Criança e Adolescente, que atuou em grupos reflexivos para homens e mulheres envolvidos em violência doméstica. A seguir, abordamos as consequências emocionais e psicológicas que essas situações podem causar nos filhos.

Como a violência doméstica impacta os filhos?

violência doméstica
Foto: Freepik

A violência doméstica pode se tornar uma experiência profundamente traumática para as crianças que a presenciam.  A curto prazo, William destaca que as mesmas podem desenvolver um estado constante de alerta e medo, preocupadas com a possibilidade de novos episódios de violência. Pesadelos, insônia e outros distúrbios do sono podem se manifestar, devido ao estado de tensão e preocupação.

"A exposição à violência pode afetar também a capacidade de concentração e desempenho escolar,  algumas crianças podem imitar comportamentos violentos, tornando-se agressivas com colegas e familiares. Além disso, podem manifestar sintomas psicossomáticos (sintomas físicos que têm fatores de origem psicológica), como dores de cabeça e dores de estômago", explica o psicólogo.

A longo prazo, William aponta que os impactos podem ser ainda mais profundos e duradouros. "Crianças que crescem em ambientes violentos frequentemente desenvolvem uma autoimagem negativa e têm maior probabilidade de desenvolver transtornos de saúde mental, como transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), depressão crônica e ansiedade. A violência doméstica pode afetar a capacidade de formar e manter relacionamentos saudáveis na vida adulta e há um risco aumentado de abuso de álcool e drogas como forma de lidar com o trauma", diz o especialista.

Além disso, ele ressalta que há uma correlação significativa entre a exposição à violência doméstica na infância e a perpetuação de ciclos de violência na vida adulta, seja como vítimas ou perpetradores. Estudos de autores contemporâneos reforçam que a exposição contínua à violência pode afetar negativamente o desenvolvimento emocional e social das crianças, comprometendo suas habilidades de relacionamento e ajustamento social.

"Além das evidências teóricas, percebo em minha prática profissional o impacto psicológico da exposição de crianças e adolescentes à violência doméstica. Por meio das minhas experiências trabalhando com os envolvidos nessas situações, verifiquei que uma grande parte das pessoas que sofreram com a violência doméstica quando crianças apresentaram ao menos um dos sintomas citados anteriormente, que as afetaram ao longo de suas vidas", conta William Lima.

Como ajudar filhos que vivem em lares onde há violência doméstica?

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Foto: Freepik

A criança que presenciou uma violência doméstica, tendo apresentado algum dos sintomas citados anteriormente, precisará de um cuidado especializado, para que esta possa expressar livremente suas emoções, elaborar e ressignificar a experiência vivida, a fim de cessar os sintomas apresentados a curto prazo e evitar prejuízos psicológicos de longo prazo. "Este cuidado, oferecido por profissional da psicologia, é chamado de Ludoterapia. Para um bom resultado, este serviço pode necessitar da participação dos pais", explica o psicólogo.

De acordo com ele, crianças precisam de adultos saudáveis emocionalmente, sendo muito importante que os pais busquem um espaço individualizado de cuidado. "É necessário transpor o contexto de culpabilização e reconhecer que ambos precisam de ajuda. Diante disso, a psicoterapia se demonstra uma técnica eficaz, ao passo que proporciona um espaço livre de julgamentos, empático, com um profissional capaz de realizar uma escuta qualificada", explica William.

"Este espaço irá  proporcionar aos pais, individualmente, a possibilidade de olhar para a própria história, expressar e compreender emoções, ressignificar experiências traumáticas que possam estar perpetuando a violência em suas vidas. Desta forma, através do autoconhecimento poderão encontrar atitudes mais assertivas e saudáveis com si mesmas e com os filhos", acrescenta.

Além dos cuidados individualizados, o especialista aponta três estratégias que tem se demonstrado eficazes nesse cenário. Confira: 

  • Grupos reflexivos: através do sistema de justiça e/ou outros órgãos públicos, os pais podem ser encaminhados para participarem de grupos de apoio e reflexão, que reúnem separadamente, homens e mulheres envolvidos em processos de violência doméstica. No Brasil, esta é uma estratégia  já regulamentada mas que ainda não é oferecida em todas as localidades;

  • Programas de intervenção escolar: as escolas podem desempenhar um papel crucial  para prevenir, identificar e minimizar os impactos de violências domésticas. Isso porque trata-se de um espaço onde as crianças convivem diariamente, fora do contexto familiar, no qual os sintomas da violência poderão aparecer. Logo, faz sentido que as escolas recebam incentivos para promover a capacitação dos educadores, a fim de que possam identificar sintomas da violência, oferecer apoio imediato e saber quais os encaminhamentos são necessários;

  • Redes de suporte comunitário: além da família e do poder público, é nosso dever, enquanto comunidade e sociedade em geral assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos da criança e do adolescente, conforme previsto no Art. 4º do Estatuto que os respalda (ECA). Você pode denunciar situações de violência através do canal de denúncia (DISQUE 100) ou à Delegacia de Proteção à Criança, ao Adolescente, à Mulher e ao Idoso (DPCAMI) mais próxima. Se possível, ofereça também ajuda à família, com empatia e cuidado, podendo sugerir a procura por ajuda especializada.
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Foto: Freepik

Os impactos da violência doméstica na vida dos filhos são profundos e duradouros, afetando seu desenvolvimento emocional, psicológico e até físico. Por isso, é essencial que pais, cuidadores e a sociedade em geral estejam cientes desses efeitos e trabalhem para criar um ambiente seguro e amoroso para todas as crianças. Intervenções precoces, apoio psicológico e um sistema de proteção são fundamentais para ajudar essas crianças a superar o trauma e construir um futuro mais saudável.

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