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Quais são as principais diferenças entre alergia e intolerância alimentar?

Entenda a relação entre o que colocamos no prato e como nosso corpo reage

*Priscila Correia, do Aventuras Maternas, colunista de AnaMaria Digital Publicado em 20/10/2023, às 08h00

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Alergia e intolerância alimentar são frequentemente confundidas uma com a outra. - Unsplash
Alergia e intolerância alimentar são frequentemente confundidas uma com a outra. - Unsplash

No mundo da alimentação, alergias e intolerâncias são frequentemente confundidas, mas têm implicações muito distintas. E, quando se fala na saúde e bem-estar das crianças, é preciso ficar ainda mais atenta sobre o que podem ou não comer, já que, muitas vezes, o preparo das comidinhas ingeridas por elas não ficam apenas sob a responsabilidade de mães e pais.

Nesta matéria, vamos abordar, em tópicos, as principais diferenças entre alergias e intolerâncias alimentares, esclarecendo mitos comuns e destacando a importância de compreender a relação entre o que colocamos no prato e como nosso corpo reage a isso.

Para começar, é preciso dizer que a alergia e a intolerância alimentar, embora frequentemente confundidas por terem sintomas parecidos e surgirem após a ingestão de algum alimento, são distúrbios diferentes, com causas e tratamentos distintos. Segundo Fernanda Fragoso, pediatra do Grupo Prontobaby, a diferença fundamental entre alergia e intolerância alimentar é que a primeira é uma reação adversa a um determinado alimento, envolvendo um mecanismo imunológico com apresentação clínica muito variável, com sintomas que podem surgir na pele, no sistema gastrointestinal e respiratório.

“As reações podem ser leves, como simples coceira nos lábios, até reações graves que podem comprometer vários órgãos. A alergia alimentar resulta de uma resposta exagerada do organismo a uma determinada substância presente nos alimentos”, explica. Já a intolerância alimentar é qualquer reação- não tóxica indesejável que ocorre após ingestão de alimentos ou aditivos alimentares.

Alanna Vargas, nutricionista clínica da Sodexo On-site no segmento Escolas & Universidades, alerta, também, que há sinais que os pais devem estar atentos quando ainda não há o diagnóstico de uma suposta alergia ou intolerância. “Como reações cutâneas, que aparecem em forma de erupções cutâneas, urticária (inchaço e coceira na pele), eczema ou pele avermelhada podem ser sintomas de alergias alimentares", ressalta a especialista.

Além disso, problemas gastrointestinais, como diarreia crônica, prisão de ventre, dor abdominal, inchaço e vômitos frequentes podem ser indicativos de intolerâncias alimentares; problemas respiratórios, como tosse, chiado, falta de ar, espirros frequentes ou congestão nasal podem ocorrer como resultado de alergias alimentares, especialmente em casos de alergias respiratórias; problemas digestivos, como náusea, refluxo, regurgitação frequente, dificuldade na alimentação, cólicas ou gases excessivos podem estar relacionadas a intolerâncias alimentares; e reações alérgicas graves, como anafilaxia, que podem envolver sintomas sistêmicos, como dificuldade respiratória, inchaço da garganta, pressão arterial baixa, tontura e perda de consciência. "Esses últimos são sinais de emergência e requerem atendimento médico imediato”, exemplifica.

Além disso, é preciso ficar de olho nas mudanças no comportamento, como irritabilidade, hiperatividade ou dificuldades de concentração, que podem estar associados a alergias ou intolerâncias alimentares em algumas crianças; problemas de crescimento, já que crianças com alergias alimentares não tratadas ou intolerâncias alimentares mal gerenciadas podem apresentar problemas de crescimento, atrasos no desenvolvimento e deficiências nutricionais; sintomas após a ingestão de alimentos específicos, que podem ajudar a identificar o alérgeno ou intolerância alimentar em questão; histórico familiar de alergias alimentares, pois faz as crianças terem um risco aumentado de desenvolver alergias alimentares; e sintomas imediatos ou tardios.

“É importante observar se os sintomas ocorrem imediatamente após a ingestão do alimento problemático ou se eles podem surgir horas ou até dias depois, pois isso pode ajudar na diferenciação entre alergias e intolerâncias. Diante desses alertas, em caso de suspeita de intolerâncias alimentares ou alergias, os responsáveis devem buscar avaliação médica. O diagnóstico adequado é essencial para implementar medidas de tratamento e prevenção adequadas, incluindo a eliminação dos alimentos problemáticos da dieta, quando necessário, e o desenvolvimento de um plano de gerenciamento de alergias/intolerâncias alimentares em colaboração com um profissional de saúde”, complementa.

PODE COMER, DEVE EVITAR OU JAMAIS INGERIR?

criança comendo
Crédito: Unsplash

Quando os filhos pedem para comer algo que normalmente não faz parte da alimentação da família, a gente sabe, é difícil dizer não. Mas há uma diferença entre abrir uma exceção pontual para oferecer aquele docinho cheio de açúcar ou um biscoito super processado e “deixar” comer algo que sabemos que fará mal.

Na sequência, nutricionistas e pediatras falam um pouco mais sobre mitos e verdade sobre intolerância e alergia alimentar.

AVENTURAS MATERNAS - Quais são os sintomas típicos associados à intolerância alimentar e à alergia alimentar?

Fernanda Fragoso, pediatra do Grupo Prontobaby - Na alergia alimentar são mais comuns as reações que envolvem a pele (urticária, inchaço, coceira, eczema) e o aparelho gastrintestinal (diarreia, dor abdominal, vômitos). Manifestações mais intensas, acometendo vários órgãos simultaneamente como pele e trato respiratório (anafilaxia), também podem ocorrer. Nas crianças pequenas, pode ocorrer perda de sangue nas fezes, o que pode ocasionar anemia e retardo no crescimento.

Sintomas respiratórios (tosse, sibilância e rinite) isolados são extremamente incomuns. Na intolerância, entre os principais sintomas, incluem-se: problemas digestivos, como refluxo gástrico, cólicas, diarreia, sensação de estufamento, dor de estômago, inchaço abdominal, vômito, gases e constipação; tontura, fadiga, fraqueza e apatia; dores na barriga e nas costas; dores de cabeça; vertigem; erupções cutâneas, urticária, coceira, eczema, entre outros. Os sintomas sempre variam de pessoa para pessoa e dependem do tipo da intolerância. 

AVENTURAS MATERNAS - Como são diagnosticadas a intolerância alimentar e a alergia alimentar em crianças?

Érika Caneira Avanço, pediatra especialista em Nutrição do Eludicar - Em ambos os casos é fundamental a história clínica, incluindo um recordatório alimentar, associado ao exame físico. Na alergia alimentar o diagnóstico é feito com a dieta de exclusão do alimento suspeito, que deve ser rigorosamente seguida por um período de 2 a 12 semanas a depender do mecanismo da alergia, seguida da re-exposição, chamado de teste de provocação oral.

Em alguns casos, exames complementares podem ser solicitados, tais como teste cutâneo (prick-teste) e exames de sangue (dosagem de IgE). No caso de intolerância alimentar, o diagnóstico é feito principalmente com a história clínica e exclusão do alimento, porém, a depender da suspeita é possível realizar exames complementares. É fundamental o acompanhamento nutricional dessas famílias para identificação de quais alimentos devem ou não ser excluídos, além do acompanhamento em conjunto com o pediatra .

AVENTURAS MATERNAS - Quais são os alimentos mais comuns que desencadeiam intolerâncias alimentares e alergias em crianças?

Fernanda Fragoso, pediatra do Grupo Prontobaby -Existe uma lista de 8 alimentos principais: leite, ovo, soja, trigo, amendoim, castanhas, peixes e frutos do mar. No entanto, vários outros alimentos vêm paulatinamente ocupando espaço na lista dos alérgenos, caso das sementes (destaque para o gergelim) e algumas frutas. O número de casos de crianças com alergia a amendoim e/ou castanhas quintuplicou em menos de uma década em crianças brasileiras.

AVENTURAS MATERNAS - Quais são as opções de tratamento ou gestão para crianças com intolerâncias alimentares e alergias alimentares?

Érika Caneira Avanço, pediatra especialista em Nutrição do Eludicar - Na alergia alimentar é necessária a exclusão total do alimento que causa a alergia. Principalmente nos casos mais graves, é necessária avaliação médica precoce para tratamento adequado do quadro alérgico. Já no caso de intolerância, é possível observar o quanto cada paciente é capaz de tolerar e adequar a dieta conforme a aceitação e sintomas apresentados pela criança. Nos casos de intolerância à lactose, deve-se discutir tratamento com o uso da enzima lactase.

AVENTURAS MATERNAS - Como a dieta de uma criança pode ser ajustada para acomodar intolerâncias alimentares ou alergias?

Alanna Vargas, nutricionista clínica da Sodexo On-site no segmento Escolas & Universidades - A alimentação adequada é fundamental para o crescimento e desenvolvimento saudável de uma criança. No entanto, quando surgem intolerâncias alimentares ou alergias, é essencial fazer ajustes na dieta para garantir que ela obtenha todos os nutrientes necessários enquanto evita alimentos problemáticos. Para compensar os alimentos excluídos da dieta, é importante garantir que a criança obtenha todos os nutrientes essenciais. Isso pode ser alcançado por meio de várias estratégias, como substituições adequadas (encontrar substitutos seguros para os alimentos problemáticos é crucial.

Por exemplo, para crianças com alergia ao leite, existem muitas alternativas de leite à base de plantas disponíveis, como leite de soja, amêndoa, aveia e coco), consulta a um nutricionista especializado no assunto (trabalhar com um nutricionista especializado em alergias alimentares pode ser extremamente útil. Ele pode desenvolver um plano alimentar personalizado que atenda às necessidades nutricionais da criança, garantindo que ela obtenha proteínas, vitaminas e minerais adequados), suplementação, quando necessário (em alguns casos, pode ser necessário suplementar a dieta com vitaminas ou minerais específicos.

Isso deve ser feito sob a orientação de um profissional de saúde), leitura de rótulos (os pais devem aprender a ler rótulos cuidadosamente para identificar ingredientes potencialmente problemáticos nos alimentos processados. Muitas alergias alimentares comuns são listadas em rótulos, devido às regulamentações de rotulagem), refeições caseiras (cozinhar em casa permite um controle total sobre os ingredientes e ajuda a evitar a contaminação cruzada de alimentos alergênicos. Preparar refeições caseiras também é uma maneira eficaz de garantir que a dieta seja segura).

Fernanda Fragoso, pediatra do Grupo Prontobaby - A retirada dos alimentos alergênicos da alimentação da criança é ainda a única forma disponível comprovadamente eficaz no tratamento da alergia alimentar. Tal conduta deve contemplar a total exclusão do alimento reconhecido ou supostamente envolvido, inclusive os produtos dele derivados e de preparações que o contenham. É importante a identificação do alérgeno, a fim de se manter a oferta alimentar qualitativa e quantitativamente adequada, evitando, portanto, o uso de dietas desnecessárias e muito restritivas. A avaliação adequada do estado nutricional com o objetivo de planejar e adequar a ingestão às necessidades nutricionais da criança de acordo com os tipos de alimentos permitidos é prioritária. Todo empenho deve ser feito no intuito de realizar as substituições alimentares visando garantir a oferta nutricional adequada, alcançando-se as suas necessidades que devem atender as atuais recomendações nutricionais.

AVENTURAS MATERNAS - Quais são os potenciais riscos associados quando não há cuidado adequado de intolerâncias alimentares ou alergias alimentares em crianças?

Juliana Menezes, nutricionista materno-infantil do Eludicar e tutora da Estratégia Amamenta e Alimenta Brasil do Ministério da Saúde - Nos casos de alergia alimentar, pode acontecer anafilaxia com risco de morte da criança em caso de ingestão do alimento. Intolerâncias podem causar uma dificuldade de absorção de nutrientes comprometendo a saúde da criança. Dessa forma, é importante lembrar que não devemos oferecer qualquer tipo de alimento para uma criança sem a autorização dos pais.

Alanna Vargas, nutricionista clínica da Sodexo On-site no segmento Escolas & Universidades - É fundamental que os responsáveis, seja em casa ou na escola, conheçam e estejam atentos às alergias e intolerâncias alimentares das crianças, sigam planos de dieta apropriados, estejam preparados para tratar reações alérgicas e garantam que tenham uma dieta equilibrada e segura. A educação e a conscientização também desempenham um papel crucial na prevenção de riscos associados a alergias e intolerâncias alimentares em crianças. A exposição não controlada a alimentos aos quais a criança é alérgica pode desencadear reações adversas graves, como anafilaxia, que é uma reação alérgica potencialmente fatal.

Os sintomas podem incluir dificuldade respiratória, inchaço da garganta, pressão arterial baixa e perda de consciência. Além disso, intolerâncias alimentares não tratadas podem causar desconforto gastrointestinal crônico, dor abdominal, diarreia ou constipação, afetando a qualidade de vida da criança; má nutrição, já que a evitação de certos alimentos devido a alergias ou intolerâncias pode resultar em deficiências nutricionais se não houver um acompanhamento adequado. Isso pode afetar o crescimento e desenvolvimento da criança. Há, ainda, os impactos emocionais, pois crianças com alergias alimentares podem sentir-se excluídas ou diferentes de seus colegas, o que pode afetar seu desenvolvimento emocional e social. A criança pode desenvolver ansiedade e estresse relacionados à preocupação constante com a possibilidade de ingerir alimentos que desencadeiem reações alérgicas.

É preciso ficar de olho ainda nos eventos sociais que a criança frequenta, como festas de aniversário ou refeições em restaurantes, pois a falta de cuidado adequado pode expor a criança a alimentos aos quais ela é alérgica, aumentando o risco de reações adversas. E, por último, mas não menos importante, é preciso dizer que se as alergias ou intolerâncias alimentares não forem gerenciadas adequadamente, elas podem levar a problemas de saúde a longo prazo, como problemas gastrointestinais crônicos, deficiências nutricionais e doenças autoimunes.

AVENTURAS MATERNAS - Quais são os sinais de alerta que os pais devem estar atentos em relação a intolerâncias alimentares ou alergias em seus filhos?

Érika Caneira Avanço, pediatra especialista em Nutrição do Eludicar - O primeiro passo é avaliar se estamos diante de uma alergia ou intolerância, considerando o quadro clínico e sua gravidade. Os casos de alergia são mais graves e requerem um reconhecimento dos sinais de alerta: em caso de falta de ar ou desconforto para respirar, inchaço nos lábios, nos olhos ou nas extremidades, urticária, vômitos, dor abdominal, diarréia, sangue nas fezes, procure atendimento médico. Nestes casos, é fundamental a avaliação médica para identificar se o paciente apresenta diagnóstico de anafilaxia ou se o quadro é devido a uma reação alérgica mais leve. O tratamento varia de acordo com os sintomas e a sua gravidade.

AVENTURAS MATERNAS - Como os pais podem garantir que seus filhos recebam uma nutrição adequada, mesmo com restrições alimentares devido a intolerâncias ou alergias?

Alanna Vargas, nutricionista clínica da Sodexo On-site no segmento Escolas & Universidades -  Os pais de crianças com alergias ou intolerâncias alimentares enfrentam desafios únicos ao garantir que seus filhos recebam uma nutrição adequada. No entanto, com educação, planejamento e apoio adequado, é possível proporcionar uma dieta equilibrada e saudável, mesmo com restrições alimentares. Em primeiro lugar, é crucial obter um diagnóstico preciso e entender as necessidades nutricionais específicas do seu filho. Isso geralmente envolve consultar um médico especializado em alergias e posteriormente um nutricionista especializado, que possa ajudar a identificar os alimentos a serem evitados e fornecer orientações sobre substituições adequadas.

Além disso, os pais podem se dedicar a cozinhar refeições em casa, o que oferece controle total sobre os ingredientes e ajuda a evitar a contaminação cruzada de alimentos. Ler atentamente os rótulos dos produtos e ser diligente ao escolher alimentos processados também é essencial. Além disso, a educação e a conscientização são ferramentas poderosas. Ensinar a criança sobre sua condição e envolvê-la na escolha de alimentos seguros pode ajudá-la a desenvolver uma compreensão saudável de suas restrições alimentares. Com a orientação adequada e o apoio da equipe de profissionais especializados, os pais podem garantir que seus filhos com alergias ou intolerâncias alimentares recebam uma nutrição adequada e cresçam de forma saudável e feliz.

Juliana Menezes, nutricionista materno-infantil do Eludicar e tutora da Estratégia Amamenta e Alimenta Brasil do Ministério da Saúde - É importantíssimo que os pais busquem acompanhamento nutricional para adequação da dieta da criança tanto em termos nutricionais como pensando no comportamento alimentar e em como essas restrições podem afetar a relação que essa criança está construindo com os alimentos.

AVENTURAS MATERNAS: Quais recursos ou organizações você recomenda para os pais que desejam obter mais informações ou apoio relacionado a intolerâncias alimentares e alergias em crianças?

Alanna Vargas, nutricionista clínica da Sodexo On-site no segmento Escolas & Universidades - Primeiramente e mais importante é sempre consultar um profissional de saúde para obter um diagnóstico adequado e um plano de tratamento personalizado para a situação da criança, pois cada caso pode ser único. Além disso, devemos evitar fazer mudanças na dieta da criança sem orientação de um nutricionista especializado no assunto, pois isso pode levar a deficiências nutricionais. Procure por um médico especializado em alergias ou um gastroenterologista pediátrico para obter orientações e tratamento específicos para as crianças. Se necessário, eles podem encaminhar para nutricionistas especializados em alergias e intolerâncias alimentares.

Grupos de apoio locais ou comunidades online são espaços onde os pais podem compartilhar experiências, obter informações e apoio emocional de outros pais que enfrentam desafios semelhantes. A  Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI) é uma importante fonte de informações sobre alergias alimentares e outras condições alérgicas. Seu site pode fornecer informações atualizadas e diretrizes de tratamento. A Associação Brasileira de Pessoas com Alergia e Intolerância Alimentar (AAPAIA) é uma organização dedicada a apoiar pessoas com alergias e intolerâncias alimentares, e seus familiares. Eles podem fornecer recursos e orientações valiosas. Além das organizações mencionadas, existem sites especializados em alergias e intolerâncias alimentares, como o Food Allergy Research & Education (FARE) nos Estados Unidos, que oferecem recursos e informações valiosas.

Juliana Menezes, nutricionista materno-infantil do Eludicar e tutora da Estratégia Amamenta e Alimenta Brasil do Ministério da Saúde - É de extrema importância que as famílias tenham apoio dos profissionais de saúde para que essas restrições possam ser vividas de uma maneira mais leve. Importante ter ao lado profissionais acolhedores, que escutam e informam essas famílias. Por exemplo, falando na parte nutricional, dietas de eliminação excessivamente restritivas na primeira infância podem limitar a exposição e aumentar as dificuldades de alimentação da criança. Ter um profissional nutricionista junto nesse processo vai fazer toda a diferença na qualidade de vida dessa criança.

Fernanda Fragoso, pediatra do Grupo Prontobaby - Existem alguns sites interessantes, como o Poe no rótulo e o Proteste.

AVENTURAS MATERNAS - Quais são as reações, na pele, que diferenciam a intolerancia e alergia na criança?

Juliana Menezes, nutricionista materno-infantil do Eludicar e tutora da Estratégia Amamenta e Alimenta Brasil do Ministério da Saúde - O diagnóstico não pode ser feito apenas pela manifestação na pele. Analisamos o conjunto de sintomas, a história clínica, a exposição, e o tempo após o surgimento de sintomas. Quadros cutâneos mais graves, como inchaço nos olhos, nos lábios, geralmente indicam quadro de alergia alimentar.

AVENTURAS MATERNAS - A alergia sempre se manifesta pela pele e a intolerância com problemas intestinais?

Fernanda Fragoso, pediatra do Grupo Prontobaby - As alergias alimentares se manifestam de com sintomas bem variados e podem se manifestar de vermelhidões locais isoladas a um colapso cardiovascular. Entre as manifestações possíveis, destacam-se:

  • Cutâneas: placas vermelhas localizadas ou difusas por todo corpo (urticária), inchaço de olhos, bocas e orelhas (angioedema), coceira. A dermatite atópica, lesão de pele extremamente pruriginosa (muita coceira), está associada a alimentos apenas nas formas mais graves (dermatite ou eczema disseminados pelo corpo e não apenas em dobras de cotovelos e joelhos).
  • Gastrointestinais: diarreia e vômitos imediatos; um mecanismo imunológico conhecido por “não mediado por IgE” pode acarretar sintomas gastrintestinais mais tardios, horas ou dias após a ingestão (leite e soja são os alimentos mais comumente relacionados) e incluem um ou mais dos sintomas: diarreia com ou sem sangue, refluxo exacerbado, perda de peso, vômitos prolongados.
  • Respiratório: falta de ar e chiado no peito (broncoespasmo) pode ocorrer de forma imediata após a ingestão do alimento. Pacientes com asma não controlada são mais predispostos a este sintoma. Mas é importante ressaltar que sintomas crônicos do sistema respiratório, como asma e rinite, dificilmente são manifestações de alergia alimentar quando não houver alterações cutâneas e/ou gastrintestinais.
  • Cardiovasculares: a queda da pressão arterial, levando a desmaio, tontura, arroxeamento dos lábios (hipóxia) caracteriza o choque anafilático e representa a forma mais grave da doença.

AVENTURAS MATERNAS - A alergia sempre tem um remédio para tratar e a criança pode continuar comendo (por parcimônia)? Já a intolerância é preciso retirar de vez o alimento do cardápio? 

Alanna Vargas, nutricionista clínica da Sodexo On-site no segmento Escolas & Universidades - Para intolerâncias alimentares, a abordagem é geralmente diferente. Embora seja importante evitar ou reduzir a ingestão do alimento problemático, muitas vezes não é necessário eliminá-lo completamente do cardápio, a menos que a intolerância seja extrema. Quem tem intolerância à lactose, por exemplo, quando estiver com muita vontade de comer um alimento que tenha lactose, ela poderá tomar a enzima (lactase) e comer este alimento, mas isso não deve ser uma rotina.

Vale ressaltar, que a tolerância individual aos alimentos varia, e algumas crianças podem tolerar pequenas quantidades do alimento intolerado sem problemas. Portanto, a parcimônia pode ser aplicada com base na capacidade de tolerância de cada criança. Um nutricionista ou médico especializado pode ajudar a determinar os limites toleráveis.

Enquanto a alergia alimentar geralmente requer a exclusão completa do alimento desencadeante e tratamento com medicamentos, a intolerância alimentar permite uma abordagem mais flexível, com base na capacidade individual de tolerância. Em ambos os casos, é essencial consultar um profissional de saúde, como um alergista e um nutricionista especializado, para obter orientação específica para a condição da criança e garantir que ela receba uma nutrição adequada.

Juliana Menezes, nutricionista materno-infantil do Eludicar e tutora da Estratégia Amamenta e Alimenta Brasil do Ministério da Saúde - Não, na alergia alimentar o alimento causador deve ser completamente excluído da dieta da criança e não há medicamento para tratamento. Na intolerância, o ideal é que se retire o alimento da dieta também, e em alguns casos é possível a prescrição de enzimas digestivas sempre com orientação do médico ou nutricionista. É importante avaliar qual o grau de tolerância da criança para determinado alimento. Há crianças com intolerância à lactose que toleram o consumo de iogurte natural, já que no iogurte a quantidade de lactose é bem menor do que no leite fluído, por isso é importante um acompanhamento para que o tratamento seja individualizado.

AVENTURAS MATERNAS - A criança que tem intolerância terá para sempre?

Fernanda Fragoso, pediatra do Grupo Prontobaby - O tratamento para a intolerância alimentar não garante a cura do paciente. No entanto, após a exclusão total do alimento causador da intolerância por, no mínimo, três meses, a sua reintrodução no cardápio pode ser testada. Muitos pacientes respondem bem, podendo voltar a consumir o alimento (com moderação) sem que os sintomas da intolerância recomecem. Por outro lado, se a tentativa não for positiva, é preciso manter o alimento fora da dieta, para sempre. Outro possível tratamento, para ser utilizado de modo complementar, é a utilização de remédios com enzimas que auxiliam na digestão dos alimentos que causam a intolerância.

Érika Caneira Avanço, pediatra especialista em Nutrição do Eludicar - Sim, uma criança intolerância será sempre intolerante. Porém, como dito anteriormente, o grau de intolerância é variável, sendo importante identificar os limites de cada paciente e realizar ajustes na medida do possível.

AVENTURAS MATERNAS - A criança que tem alergia a algum alimento terá para sempre?

Érika Caneira Avanço, pediatra especialista em Nutrição do Eludicar - Não necessariamente. É realizada a exclusão do alimento por um período, para que seja feita uma nova exposição com acompanhamento médico, assim avaliamos se a criança adquiriu tolerância com o tempo. Um exemplo é proctocolite, que de um modo geral, crianças entre 12 e 24 meses adquirem tolerância ao alimento alergênico. Nos casos mais graves, será feito um acompanhamento com o alergista, para avaliar possibilidade de dessensibilização, isto é, pequenas exposições em ambiente controlado, para auxiliar o organismo a adquirir tolerância.

Fernanda Fragoso, pediatra do Grupo Prontobaby - Alimentos como leite, ovo, trigo e soja, tipicamente iniciados na infância, causam alergias mais efêmeras e grande maioria perde a alergia até a segunda década de vida. Amendoim, castanhas, peixes e frutos do mar, passíveis de iniciar em qualquer idade, são tipicamente persistentes por toda a vida do indivíduo. As características das respectivas proteínas parecem estar relacionadas com a história natural da doença.

AVENTURAS MATERNAS - O nível de alergia e intolerância varia de acordo com a idade?

Érika Caneira Avanço, pediatra especialista em Nutrição do Eludicar - Casos de alergia à proteína do leite de vaca, ovo ou soja geralmente se resolvem até a adolescência. Já a alergia a castanhas e frutos do mar raramente desaparece. Além do acompanhamento dos sintomas, podemos acompanhar os valores de IgE no sangue (que estão altos em casos de alergia). A diminuição desses níveis podem indicar que o indivíduo está adquirindo tolerância ao alimento. Dessa forma, é fundamental o seguimento em conjunto com pediatra, alergista e nutricionista, com uma avaliação completa e individualizada de cada paciente, proporcionando o melhor plano de cuidados para cada família.

AVENTURAS MATERNAS - Mais alguma informação que queira adicionar?

Fernanda Fragoso, pediatra do Grupo Prontobaby - A alergia alimentar muitas vezes não é valorizada como uma doença perigosa. No entanto, seus sintomas podem ser muito graves, assim como fatais. Em algumas situações, o mínimo contato com um alimento que contenha um alérgeno ou a ingestão acidental de ingredientes ocultos na alimentação podem colocar a vida da pessoa em risco, devido à anafilaxia. A exclusão de um determinado alimento não é tarefa fácil e a exposição acidental ocorre com certa frequência. Os indivíduos com alergia alimentar grave (reação anafilática) devem portar braceletes ou cartões que os identifiquem, para que cuidados médicos sejam imediatamente tomadas.

As reações leves desaparecem espontaneamente ou respondem aos anti-histamínicos (antialérgicos). Pacientes com história de reações graves devem ser orientados a portar medicamentos específicos (adrenalina), mas é obrigatório uma avaliação em serviço de emergência para tratamento adequado e observação, pois em alguns casos pode ocorrer uma segunda reação, tardia, horas após. As reações adversas aos conservantes, corantes e aditivos alimentares são extremante raras, difíceis de serem comprovadas. O corante artificial tartrazina, sulfitos e glutamato monossódico são relatados como causadores de reações. A tartrazina pode ser encontrada nos sucos artificiais, gelatinas e balas coloridas enquanto o glutamato monossódico pode estar presente nos alimentos salgados como temperos (caldos de carne ou galinha).

Os sulfitos são usados como preservativos em alimentos (frutas desidratadas, vinhos, sucos industrializados). O papel da prevenção primária da doença alérgica tem sido debatido nas últimas décadas, e não há dúvida que seja muito importante. No entanto, poucas são as evidências a respeito de intervenções que possam minimizar o aparecimento das doenças alérgica. A única medida que pode, de fato, diminuir esta chance é a amamentação exclusiva com leite materno até os seis meses. Restrições alimentares impostas à gestante devem ser desencorajadas.

A eliminação empírica de potenciais alérgenos alimentares foi associada à perda ponderal pelo feto, e não apresentou papel preventivo no aparecimento de dermatite atópica aos 18 meses, ou na sensibilizaçao a alérgenos alimentares no primeiro, segundo ou sétimo anos de vida. É consenso que o aleitamento materno exclusivo deva ser mantido até o sexto mês de vida. A exclusão de determinado alimento da dieta da nutriz deve ser considerada apenas se houver manifestação de sintomas pelo lactente em aleitamento natural.

O adiamento na introdução do leite de vaca e dos alimentos sólidos também não está relacionado à diminuição no risco de desenvolvimento de alergias alimentares. Crianças que evitaram leite de vaca até o primeiro ano de vida, ovo até os 2 anos e amendoim até os 3 anos não apresentaram menor índice de sensibilização a alimentos, em comparação com crianças sem restriçoes235. As fórmulas de soja não devem ser recomendadas para a prevenção de alergias.

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