A Copa do Mundo mobiliza milhões de torcedores ao redor do mundo e transforma estádios, bares, encontros entre amigos e até as salas de casa em verdadeiros centros de celebração. Entre gritos de comemoração, buzinas, apitos, fogos de artifício e transmissões em volume elevado, existe um fator que costuma receber pouca atenção durante esses momentos de entusiasmo: os impactos do excesso de ruído sobre a saúde auditiva.
Embora o barulho seja visto como parte natural da experiência esportiva, a exposição prolongada a sons intensos pode provocar alterações importantes na audição, especialmente quando ocorre de forma repetida ou sem medidas preventivas. O problema é que, na maioria das vezes, os sinais iniciais passam despercebidos e só ganham atenção quando já existe algum comprometimento.
Segundo a fonoaudióloga Ariane Bonucci, especialista em Audiologia Clínica, mestre em Ciências Médicas e sócia-fundadora do Espaço da Audição, o cuidado com a audição deve ser encarado como parte dos hábitos de prevenção em saúde, principalmente em períodos de maior exposição sonora.
Exposição sonora pode causar danos permanentes
“A exposição prolongada a sons intensos pode causar danos às células sensoriais da audição, localizadas no ouvido interno. Essas estruturas são extremamente delicadas e, uma vez lesionadas, não possuem capacidade de regeneração”, explica Bonucci.
De acordo com a especialista, o impacto depende da intensidade do som e do tempo de exposição. Em alguns casos, podem surgir alterações temporárias; em outros, o prejuízo auditivo pode se tornar permanente.
Entre os sintomas mais frequentes estão zumbido, sensação de ouvido tampado, desconforto auditivo e dificuldade para compreender conversas, especialmente em ambientes com várias pessoas falando ao mesmo tempo.
Eventos esportivos exigem atenção especial
Ariane destaca que grandes eventos esportivos merecem atenção especial porque costumam reunir diferentes fontes de ruído em um mesmo ambiente. Em estádios e locais de transmissão coletiva, o torcedor pode permanecer durante horas exposto a sons elevados provenientes da torcida, equipamentos de som, instrumentos, apitos e manifestações festivas.
“O grande desafio é que esse tipo de perda auditiva costuma ser silencioso. Muitas pessoas acreditam que o desconforto vai passar e acabam ignorando sinais que podem indicar uma sobrecarga importante para o sistema auditivo”, afirma.
Além dos eventos presenciais, um hábito cada vez mais comum também exige atenção: o uso frequente de fones de ouvido para acompanhar transmissões esportivas.
Uso inadequado de fones também preocupa especialistas
Segundo a especialista em Audiologia Clínica, atualmente o uso inadequado dos fones está entre os principais fatores associados ao aumento de queixas auditivas, especialmente entre pessoas mais jovens. O problema não está apenas no equipamento em si, mas principalmente no volume escolhido e no tempo de utilização.
Durante partidas emocionantes, é comum aumentar o volume para acompanhar a narração, ouvir comentários com mais clareza ou bloquear ruídos externos. No entanto, quando o som do fone é direcionado diretamente para o canal auditivo, a intensidade pode ser ainda mais intensa.
Para reduzir os riscos, Ariane orienta manter o volume em níveis moderados preferencialmente até metade da capacidade do dispositivo e realizar pausas regulares e longas, evitando períodos prolongados de escuta contínua. O uso de fones com cancelamento de ruído externo também pode ajudar, já que reduz a necessidade de aumentar excessivamente o volume.
Medidas simples ajudam a preservar a audição
Algumas medidas simples também contribuem para preservar a audição durante eventos esportivos e momentos de lazer. Entre elas estão evitar permanecer próximo às caixas de som, fazer pausas em ambientes mais silenciosos, limitar o tempo de exposição e utilizar protetores auditivos em situações de ruído intenso.
Determinados grupos exigem atenção ainda maior. Crianças, por exemplo, possuem estruturas auditivas em desenvolvimento e podem ser mais sensíveis aos efeitos do excesso de som. Já os idosos frequentemente apresentam alterações auditivas relacionadas ao envelhecimento, o que pode tornar os impactos do ruído ainda mais perceptíveis.
Pessoas que convivem com zumbido, hiperacusia ou outras condições auditivas também devem redobrar os cuidados para evitar desconfortos e agravamento dos sintomas.
Diagnóstico precoce é aliado da saúde auditiva
Outro ponto reforçado pela especialista é a importância dos exames preventivos e do acompanhamento profissional. Assim como avaliações clínicas fazem parte da rotina de cuidados com a saúde, a avaliação auditiva periódica permite identificar alterações ainda em estágios iniciais, muitas vezes antes que os sintomas sejam percebidos no dia a dia.
“A perda auditiva costuma ser progressiva e muitas pessoas demoram para procurar ajuda porque acreditam que ouvir menos faz parte da idade. O diagnóstico precoce permite monitoramento, orientação e intervenções adequadas para preservar a comunicação e a qualidade de vida”, explica a especialista.
Para Ariane Bonucci, cuidar da audição vai além de ouvir bem: significa preservar conexões sociais, autonomia e bem-estar ao longo da vida.
