Os carboidratos são muito importantes na gravidez. Durante a gestação, eles funcionam como combustível para a mãe e o bebê. Mas, não podemos esquecer que carboidrato não é tudo igual (arroz integral é diferente de pizza congelada!). Então, será que a qualidade do carboidrato influencia na saúde da egstante e do bebê? E mais:será que a carga glicêmica da alimentação durante a gestação pode influenciar o desenvolvimento do bebê?
Essa foi a pergunta que norteou um estudo que acompanhou 420 gestantes e seus filhos, desde os primeiros 40 dias de vida até os 4 anos de idade. Nenhuma das mulheres participantes tinha diabetes. O objetivo foi entender se, mesmo em gestantes consideradas metabolicamente saudáveis, a qualidade do carboidrato consumido poderia impactar no desenvolvimento infantil.
Esse tipo de pesquisa ajuda a responder uma dúvida comum no consultório: “meus exames de glicose estão normais, então posso comer o que quiser?”. A ciência mostra que a resposta é mais complexa do que parece.
Índice glicêmico e carga glicêmica: qual é a diferença?
Para entender os resultados do estudo, é importante diferenciar dois conceitos frequentemente confundidos: índice glicêmico (IG) e carga glicêmica (CG).
O índice glicêmico mede a velocidade com que um alimento contendo carboidratos eleva a glicose no sangue. Alimentos como pão branco, arroz branco e açúcar refinado têm IG elevado, enquanto aveia, feijão, lentilha e frutas inteiras apresentam IG mais baixo.
Já a carga glicêmica vai além. Ela considera não apenas a velocidade com que a glicose sobe, mas também a quantidade total de carboidrato consumida na refeição. Por isso, a CG reflete de forma mais fiel o impacto real da alimentação no metabolismo.
Uma refeição pode conter um alimento de IG alto, mas ainda assim ter uma CG moderada se a porção for pequena ou se estiver combinada com fibras, proteínas e gorduras boas. Esse equilíbrio reduz picos glicêmicos e minimiza efeitos metabólicos negativos.
O que o estudo encontrou?
As gestantes foram divididas em três grupos de acordo com a carga glicêmica total da dieta. O primeiro grupo apresentava menor CG, o segundo consumo intermediário e o terceiro reunia as mulheres com maior carga glicêmica, caracterizada por alto consumo de pães refinados, massas, doces e bebidas açucaradas.
Os resultados chamam atenção: filhos de gestantes com dietas de maior carga glicêmica apresentaram pior desenvolvimento motor e de linguagem aos 40 dias de vida e menor desempenho cognitivo aos 4 anos de idade. Esses achados se mantiveram mesmo após o ajuste para fatores como idade materna, escolaridade e alimentação da criança ao longo dos anos.
Ou seja, não se trata apenas do que a criança come depois de nascer, mas do ambiente metabólico ao qual ela foi exposta ainda no útero.
Carboidratos são importantes, mas a qualidade importa
É fundamental deixar claro: gestantes precisam consumir carboidratos. Eles são uma fonte importante de energia tanto para a mãe quanto para o bebê em desenvolvimento. O problema não está no carboidrato em si, mas na qualidade, na frequência e no contexto em que ele é consumido.
Uma alimentação baseada em ultraprocessados, doces, bebidas açucaradas e farinhas refinadas tende a gerar picos frequentes de glicose e insulina, mesmo em mulheres sem diabetes. Esse cenário pode alterar o ambiente intrauterino, influenciando processos inflamatórios, hormonais e metabólicos que afetam o desenvolvimento fetal.
Por outro lado, dietas que priorizam carboidratos de melhor qualidade favorecem um ambiente metabólico mais estável e saudável durante a gestação.
Como melhorar a qualidade do carboidrato na gestação
Na prática, melhorar a qualidade do carboidrato não significa cortar alimentos ou seguir dietas restritivas, mas fazer escolhas mais conscientes no dia a dia.
Dar preferência a grãos integrais, como arroz integral, aveia, quinoa e batata, ajuda a fornecer energia de liberação mais lenta e maior aporte de fibras. As leguminosas, como feijão, lentilha, grão-de-bico e ervilha, são excelentes opções por combinarem carboidratos, proteínas e fibras.
As frutas inteiras, consumidas com a casca sempre que possível, também contribuem para uma carga glicêmica mais equilibrada, especialmente quando associadas a fontes de proteína ou gordura boa, como iogurte natural, castanhas ou sementes.
Outro ponto essencial é evitar que o carboidrato apareça isolado na refeição. Combinar carboidratos com proteínas de boa qualidade e gorduras naturais ajuda a reduzir picos glicêmicos e promove maior saciedade.
Alimentação materna e programação metabólica do bebê
Cada vez mais estudos reforçam o conceito de que a alimentação da gestante exerce influência duradoura sobre a saúde do filho, um fenômeno conhecido como programação metabólica. O que a mãe come durante a gravidez pode impactar não apenas o peso ao nascer, mas também o desenvolvimento neurológico, metabólico e cognitivo da criança ao longo da vida.
Esse estudo reforça que exames normais não significam, necessariamente, ausência de impacto da alimentação. A qualidade do padrão alimentar diário importa.
Meu recado para as gestantes
A gestação não é o momento de dietas da moda, restrições extremas ou excesso de permissividade alimentar. É uma fase que pede equilíbrio, consciência e qualidade nutricional.
Carboidratos devem fazer parte da alimentação da gestante, mas a escolha por versões menos processadas, associadas a fibras, proteínas e gorduras boas, contribui para um ambiente intrauterino mais saudável. Cuidar da qualidade do carboidrato é cuidar da saúde da mãe hoje e da saúde do bebê ao longo de toda a vida.








