O final de Fortunato na nova versão de Dona Beja, da HBO, deixou o público profundamente abalado. E não foi para menos. Em uma das cenas mais impactantes do final da trama, Fortunato e Belgard são perseguidos após o relacionamento vir à tona e, sem saída, fogem até um penhasco, onde tomam uma decisão extrema para escapar da violência ao redor.
Mas a escolha de um desfecho marcante e doloroso fez parte de uma decisão consciente do autor, Daniel Berlinsky, que apostou na emoção como caminho para provocar reflexão. Em entrevista à AnaMaria, o autor falou sobre a construção do personagem e explicou por que não quis suavizar o destino dos personagens.
“A gente chorou quando decidiu esse final”
Desde o início, a ideia era fazer o público se conectar com Fortunato antes de compreender totalmente sua trajetória. Segundo Daniel, essa construção emocional foi essencial — e, quando chegou a hora de definir o desfecho, não houve dúvidas, mesmo sabendo que a reação do público seria intensa. “A gente chorou quando teve essa ideia. Eu não podia trair essa história e fazer um final diferente”, contou.
A decisão, no entanto, vai além do impacto dramático. Para o autor, era importante retratar uma realidade que ainda faz parte da vivência de muitas pessoas.
“Não dá para eu mostrar só finais felizes, porque a gente ainda não fez a sociedade sentir o drama que é ser LGBT na sociedade”, explicou.
Um dos pontos centrais da construção de Fortunato foi justamente aproximar o público da dor do personagem, independentemente de identificação direta com sua história. “A história não é contada só para o público gay, é para todo mundo. Me interessa trazer quem nunca viveu isso para dentro da emoção”, disse.
A estratégia parece ter funcionado. Nas redes sociais, muitos espectadores relataram como se sentiram tocados pela trajetória do personagem — algo que Daniel já esperava. “Se você entende que pessoas gays são iguais a você, têm amor, ódio, autorejeição, talvez se incomode menos com a existência do outro”, refletiu.
A escola de Aguinaldo e Walcyr
Muito dessa construção emocional vem da trajetória de Daniel como colaborador de grandes nomes da teledramaturgia. Ele começou com Aguinaldo Silva, de quem guarda uma profunda gratidão. Depois, foi com Walcyr Carrasco que consolidou seu olhar sobre personagens e emoção — especialmente ao acompanhar de perto a criação de figuras marcantes. “Walcyr é visionário”, relembrou.

O impacto desse aprendizado ficou claro em Amor à Vida, com um personagem que também dividiu opiniões, mas conquistou o público ao longo da trama. “O Félix foi um personagem que me desafiou, aprendi muito com ele. As pessoas foram conquistadas pelo coração, não pela cabeça”, resumiu. Foi justamente essa experiência que ele levou para Dona Beja.
Da ficção à vida real e vice-versa
Se em Dona Beja Daniel apostou em uma história forte e provocadora, seu próximo projeto promete ter profundidade íntima. O autor desenvolve a série Entre Oceanos, inspirada na luta judicial de sua irmã pela guarda dos filhos, um caso que atravessou fronteiras e acabou envolvendo dois países.
Segundo ele, a ideia surgiu a partir de uma reflexão sobre a própria trajetória. Na trama, uma separação se transforma em um impasse internacional, mas o foco da narrativa não está apenas no conflito entre os adultos — e sim nas marcas deixadas nas crianças.
“A criança deixa de se sentir filha de um amor e passa a se sentir filha de uma briga”, explicou Daniel, ao destacar o impacto emocional de casos como o vivido pela família.
Transformar essa vivência em ficção, no entanto, não foi simples. Daniel admite que o processo de escrita exigiu tempo e distanciamento emocional. Ainda em desenvolvimento, Entre Oceanos já desperta interesse e, se depender do que Daniel Berlinsky mostrou em Dona Beja, o público pode esperar uma história intensa, sem medo de incomodar.
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