Entre todas as Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT), a Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS), mais conhecida como “pressão alta”, destaca-se por sua elevada prevalência e pelo grande impacto na saúde da população.
Por não causar sintomas, na maioria das vezes, muitos hipertensos convivem com a doença por anos sem saber. As manifestações, quando presentes, costumam aparecer em situações em que os níveis pressóricos já estão bem elevados, provocando sintomas inespecíficos, como dor de cabeça, tontura e palpitações que dificultam sua identificação precoce.
O número de casos tem crescido à medida que a população envelhece, associado também com o aumento dos índices de sedentarismo, obesidade e alimentação inadequada. Outros fatores como a predisposição genética e tabagismo, também são bem conhecidos. Contudo, estudos recentes apontam o envolvimento de outros mecanismos como hiperatividade do sistema nervoso simpático, retenção de sódio, inflamação crônica, resistência insulínica e alterações vasculares em sua etiologia.
Embora sejam raras, a hipertensão arterial pode ter origens secundárias. Entre as principais estão doença renal, apneia do sono e distúrbios endócrinos, como feocromocitoma, hiperaldosteronismo primário, síndrome de Cushing e doenças tireoidianas, além do uso de alguns medicamentos, como corticoides e estimulantes do sistema nervoso central.
Diagnóstico
Os valores da pressão arterial resultam da interação entre o débito cardíaco — o volume de sangue bombeado pelo coração em um minuto — e a resistência dos vasos à passagem do sangue. A medida constatada durante a contração do coração é chamada de pressão arterial sistólica (PAS), enquanto a aferida durante o relaxamento cardíaco recebe o nome de pressão arterial diastólica (PAD).
O diagnóstico deve ser feito com a realização de aferições adequadas durante o atendimento. Quando necessário, deve ser confirmado por métodos complementares, como a Monitorização Ambulatorial da Pressão Arterial (MAPA) e a Medida Residencial da Pressão Arterial (MRPA). Esses recursos ajudam no estadiamento da doença e na identificação de situações como a hipertensão do jaleco branco, em que os pacientes apresentam pressão elevada devido à ansiedade diante do ambiente médico.
Recentemente, a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) divulgou a diretriz brasileira de HAS atualizada, com revisão da classificação dos estágios da doença. A antiga faixa chamada de pré-hipertensão, antes definida por níveis de pressão arterial sistólica entre 130 e 139 mmHg e/ou pressão arterial diastólica entre 85 e 89 mmHg, passou a incluir valores de pressão sistólica entre 120 e 139 mmHg e/ou diastólica entre 80 e 89 mmHg.
Na prática, isso reforça a necessidade de atenção a níveis antes considerados menos preocupantes. O conhecido “12 por 8”, muitas vezes visto como sinônimo de normalidade, hoje pode representar um sinal de alerta para uma fase inicial da doença.
Lesões de órgãos-alvo
A persistência da pressão elevada ao longo do tempo pode provocar lesões em órgãos importantes, como coração, olhos e rins. Quando presentes, essas alterações indicam pior prognóstico. Para rastreá-las, exames como eletrocardiograma e ecocardiograma (avaliam sobrecarga e alterações estruturais cardíacas), fundoscopia (identifica lesões na retina) e exames laboratoriais, como creatinina, urina de 24 horas e microalbuminúria (ajudam a estimar a função renal e possíveis sinais de lesão), devem ser realizados.
Tratamentos
Mudança de hábitos
A mudança do estilo e hábitos é recomendada em todos os estágios. Diretrizes brasileiras e internacionais são unânimes e reforçam que medidas como redução do consumo de sal, perda de peso, prática regular de atividade física, consumo moderado de álcool, cessação do tabagismo e alimentação saudável têm eficácia comprovada na redução da pressão arterial e do risco cardiovascular.
Medicamentoso
Há diversas classes de anti-hipertensivos disponíveis. Entre as principais estão os diuréticos, os bloqueadores dos canais de cálcio, os inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECAs), os bloqueadores dos receptores de angiotensina II (BRAs) e os betabloqueadores.
A escolha das medicações deve ser individualizada, de acordo com o perfil clínico do paciente, risco cardiovascular e a presença de comorbidades, como diabetes, dislipidemia e disfunção renal. Nessas situações, o risco de aterosclerose e complicações é maior, exigindo um controle e acompanhamento mais rigorosos.
Desafios
Mesmo com a doença sendo muito estudada e seus fatores de risco conhecidos, a pouca presença de sintomas, somada à negligência com o rastreio e o controle, desafiam médicos e sistemas de saúde. O cenário torna-se perigoso por ser um dos principais fatores de risco para as doenças cardiovasculares como acidente vascular cerebral (AVC) e infarto, consideradas as maiores causas de morte no Brasil.
No Brasil, existem esforços para ampliar a capacidade de diagnóstico, estratificação de risco e continuidade do cuidado. Ainda assim, um dos maiores desafios permanece sendo a detecção precoce, com redução dos casos subdiagnosticados.
Estima-se que mais da metade dos hipertensos não trate a doença adequadamente e desconheça os riscos da sua evolução crônica. Embora o Sistema Único de Saúde (SUS) ofereça gratuitamente medicamentos à população, seja nas unidades de saúde, seja por meio do Programa Farmácia Popular, o tratamento adequado também representa um grande problema.
O acompanhamento da hipertensão e de outras doenças crônicas deve ocorrer tanto nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) quanto em consultórios e ambulatórios especializados. Hoje, com a ampliação do acesso a aparelhos automáticos e dispositivos eletrônicos, monitorar a pressão tornou-se mais simples do que no passado, quando a aferição dependia diretamente de pessoas treinadas para o uso do esfigmomanômetro.
Controlar as doenças crônicas é também uma questão de sustentabilidade do setor de saúde. Quando a população adere ao autocuidado e toma os medicamentos certos, evitam-se as complicações, reduzem-se as internações, melhora-se o uso dos recursos disponíveis, contribuindo para diminuir as desigualdades e ampliar a capacidade de acesso aos serviços de saúde.
