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Gaslighting no trabalho: quando a manipulação emocional veste crachá

Promessas que nunca existiram, conversas distorcidas e culpa invertida: o gaslighting no trabalho é mais comum do que parece.

Renata Seldin Por Renata Seldin
16/05/2026
Em Carreira, Notícias
Gaslighting no trabalho: quando a manipulação emocional veste crachá

Gaslighting no trabalho: quando a manipulação emocional veste crachá

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Gaslighting: o nome da manipulação que distorce a sua realidade

Eu mal sabia o que é gaslighting, quando descobri que gaslighting no trabalho existia. A palavra em inglês para definir uma forma de abuso psicológico e manipulação emocional, mais reconhecida em relacionamentos amorosos, onde o agressor faz a vítima duvidar da própria memória, percepção, sanidade ou realidade.

Por exemplo, você encontra mensagens comprometedoras no celular do parceiro. Ao questionar, ele diz: “Você está invadindo minha privacidade porque é paranóica. Essas mensagens não são nada, você vê problema em tudo”.

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Normalmente (mas nem sempre), usada por homens, é uma tática para obter poder e controle, frequentemente usando mentiras, negação de fatos e distorção da realidade para fragilizar a autoestima da vítima (a mulher). É como aquele combinado de jantar fora em que ele não aparece. Quando você reclama, ele afirma categoricamente: “Eu nunca disse que íamos hoje. Você deve ter sonhado com isso, está ficando esquecida”.

Minhas leitoras, apresento-lhes o gaslighting. Gaslighting, essas são as minhas leitoras.

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Quando a manipulação vem com crachá

Bem, agora que estamos na mesma página sobre o termo, vamos expandi-lo. Recentemente descobri que a prática vem aparecendo também em ambientes de trabalho (quer dizer, sempre esteve lá, eu é que não sabia o nome). Vejam se alguma dessas situações parece familiar:

Você está na empresa há 2 anos. Desde sua contratação, seu chefe lhe disse que a promoção seria rápida: bastava passar pelo primeiro ciclo de avaliação de desempenho (no qual você vai bem). No momento do feedback, quando você questiona sobre a promoção, ele explica que existiam outras pessoas “na fila” e que ele não prometeu que você seria a primeira.

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Vamos mais uma: sua equipe gosta muito de você como líder, mas tem medo do seu chefe direto. Na pesquisa de clima aparece um problema com a gestão, sem nominar o gestor problemático. Após ver os resultados, você se prepara para conversar com o seu chefe com um feedback honesto sobre o que a equipe acha que precisa melhorar. Assim que a reunião começa, seu chefe aponta o índice negativo e te pergunta o que você vai fazer para melhorar a sua reputação com a equipe, sem te dar espaço para falar.

Perceba que, nas situações acima, não existe uma mentira clara, mas sim uma distorção da situação. Aliás, o ponto não é uma eventual mentira isolada, mas todo o padrão. O gaslighting no ambiente de trabalho acontece quando o manipulador ataca a sua confiança na própria memória ou capacidade. Se você se pega registrando conversas, anotando datas e revendo interações para provar a si mesma que não está louca, isso é um sinal de alerta grave — e provavelmente já está atingindo a sua saúde mental.

Lidar com pessoas manipuladoras no trabalho não é algo simples. Ao contrário de relacionamentos amorosos, que podem ser desfeitos, no ambiente profissional essa decisão é muito mais complexa, passando inclusive pela sua situação financeira. Mas nem tudo está perdido.

O problema do gaslighting no trabalho não é o episódio. É o padrão.

Se você percebeu que está vivendo um padrão de relação tipo gaslighting, há algumas ações que podem ser feitas para preservar a sua saúde mental, seu ambiente de trabalho e seu emprego.

Comece coletando evidências. Faça atas de reunião, registre conversas por e-mail copiando seu interlocutor e, se o gaslighting acontecer por escrito, imprima as conversas. O objetivo não é ameaçá-lo, mas proteger a si mesma e ter um lugar para voltar e checar que o seu entendimento estava correto desde o começo.

Isso também significa parar de discutir sobre as diferentes versões de um mesmo fato. Se você tem certeza de que está correta, não alimente o manipulador: apenas encerre a conversa dizendo que vocês têm percepções diferentes sobre o que aconteceu. Aliás, o manipulador raramente admitirá o erro. Esperar por um pedido de desculpas, uma admissão de culpa ou qualquer validação é uma armadilha que te mantém presa nesse tipo de relação. Nesses casos, aceite que a “verdade” dele nunca será a sua e foque no seu bem-estar, não em “vencer” a discussão.

Quando discutir vira armadilha

Quando o gaslighting acontece em forma de ataque à sua sanidade ou aos seus sentimentos, o ideal é encerrar o diálogo imediatamente. Avise que o comportamento não é aceitável e encerre a conversa. Se ele continuar, retire-se de fato. É preciso colocar limites reais nesse tipo de situação.

Normalmente, o gaslighting acontece em situações em que apenas os dois envolvidos estão presentes, e ele prospera nessa situação de isolamento. Busque uma visão externa sobre os fatos (como um colega de trabalho ou até mesmo um terapeuta). Quando a manipulação acontecer, você pode contar com essas pessoas como termômetro da realidade, checando: “Eu te contei isso na semana passada? Eu pareço estar exagerando?”. Ter alguém de fora que diga “Não, você está certa” é um dos melhores antídotos contra a manipulação.

Quando o gaslighting é constante e o manipulador se recusa a mudar o comportamento após você impor limites, o ambiente se torna tóxico e perigoso para sua saúde mental. O dano à autoestima pode levar anos para ser curado. Além de priorizar interações por escrito, documentar todas as situações de desconforto e manter uma testemunha ou uma terceira pessoa a par da situação, essa é a hora de pensar em medidas relacionadas à empresa.

Quando o problema já não cabe só entre vocês

A reação que parece mais provável é a reclamação ao RH. Mas lembre-se de que o papel dessa área é, em primeiro lugar, com a empresa. Antes de acionar o RH, organize fatos, registros e exemplos concretos para que a situação não seja reduzida a um conflito interpessoal. Apresente os fatos como uma questão de produtividade e clareza, não apenas de sentimentos.

Uma opção parecida é levar a questão pelos canais de ética e compliance da empresa, que se dedicam a desvios de conduta. Sendo assim, use o nome correto: em muitos casos, esse tipo de conduta pode configurar assédio moral — e até gerar um processo trabalhista a seu favor. Mas, antes de abrir a denúncia, garanta que você tem o dossiê completo da situação, com provas, datas, horários e testemunhas. Em muitas empresas, esse tipo de denúncia pode ser feita de forma anônima — mas vale checar como o canal funciona antes de seguir.

Quando ficar custa mais do que sair

Por fim, o mais importante é se preservar em termos de danos psicossomáticos (crises de pânico antes de iniciar o expediente, insônia crônica, perda de apetite, problemas digestivos constantes, depressão). Se a situação beira esse ponto, avalie o custo-benefício entre a carreira e a saúde. No gaslighting, o dano é cumulativo e invisível, por isso a decisão precisa ser tomada antes do colapso.

Além dos danos físicos, vale pensar na sua saída quando sua reputação profissional é colocada em risco, quando o canal de ética e/ou RH demoram ou não atuam sobre a situação ou quando você mesma começa a se questionar sobre sua capacidade e sua identidade profissional.

Infelizmente, o gaslighting profissional não é uma situação simples, mesmo em tempos de maior atenção à saúde mental e à implantação da NR-01. Preocupe-se em não tomar decisões estritamente emocionais. Se a decisão for pedir demissão, reconheça isso, avise que vai sair, prepare-se financeiramente para tal (o dinheiro do não — porque, em casos assim, poder dizer não muda tudo) e comece a procurar outro emprego ainda empregada, pois isso te dá maior poder de negociação.

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Renata Seldin

Renata Seldin

Carioca e amante do sol, Renata Seldin (@renata_seldin) é mentora de carreiras com mais de 24 anos de experiência como executiva em consultoria de gestão. É doutora em Gestão da Inovação, mestre em Engenharia da Produção e autora do livro “As perdas no caminho: em busca de uma família”, dentre outros. Também ministra palestra sobre temas como carreira, igualdade de gênero no trabalho e planejamento familiar.

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