Durante muito tempo, a incidência de câncer esteve associada ao envelhecimento e à predisposição genética. Embora essa correlação ainda seja pertinente, o aumento de casos constatados em indivíduos jovens denota um novo cenário.
De acordo com um estudo publicado em 2022, houve um aumento global de cerca de 80% dos casos de câncer em pacientes com menos de 50 anos entre 1990 e 2019. No Brasil, dados do INCA (Instituto Nacional do Câncer) destacam que os cânceres colorretal, de mama, testículo, tireóide e neoplasias hematológicas (linfomas e leucemias) estão mais frequentes em jovens.
Diferentemente do que muitos podem pensar, o câncer de início precoce não está associado apenas ao risco genético e ao aumento da capacidade de diagnósticos. Pesquisas indicam que o principal motivo seja o aumento do perfil de risco em decorrência de exposições ambientais e comportamentais.
De fato, isso faz sentido. A geração atual nessa faixa etária nasceu e cresceu imersa em um ambiente repleto de riscos sem precedentes. Assim, as alterações no microbiota intestinal, a inflamação crônica e os efeitos cumulativos de substâncias que causam danos celulares são consideradas determinantes nessa nova realidade.
O câncer colorretal (CCR) em adultos jovens talvez seja o exemplo mais emblemático dos casos de câncer de início precoce. Nos EUA, atualmente, o CCR é proporcionalmente mais frequente em jovens do que em idosos. A doença tem causas intrínsecas conhecidas, como a síndrome de Lynch (mutação celular), polipose adenomatosa familiar e doença inflamatória intestinal (Crohn/retocolite ulcerativa).
Contudo, o aumento de casos em jovens de 20 a 49 anos ocorre devido aos elevados índices de sedentarismo, obesidade e à dieta ocidental (carnes vermelhas, ultraprocessados e baixa ingestão de fibras). O consumo de alimentos industrializados com conservantes, corantes e aditivos altera o microbiota intestinal, interferindo na permeabilidade da barreira protetora intestinal e favorecendo a inflamação crônica.
Na obesidade, o tecido adiposo visceral secreta proteínas pró-inflamatórias, interferindo em mecanismos de regulação celular ao estimular a proliferação celular desordenada e interferir no processo de morte celular programada (apoptose). Outros fatores, como a exposição crônica a poluentes atmosféricos, agrotóxicos e o consumo de álcool e tabaco, são amplamente reconhecidos na carcinogênese.
Além disso, algumas infecções, como a hepatite B e o HPV, são precursoras de câncer no fígado e colo do útero, respectivamente. A vacinação contra os vírus oncogênicos também é uma estratégia eficaz e necessária para a saúde da população.
Além do perfil de risco aumentado, o impacto do câncer de início precoce consiste no diagnóstico tardio. Por ser considerada uma condição relacionada à população maior de 50 anos, o rastreio antes dessa faixa etária ainda é infrequente e deve ser feito com base no risco individual e na sintomatologia, não apenas na idade. O objetivo é detectar os tumores ainda em estágios curáveis. Os atrasos no diagnóstico e tratamento impedem o tratamento oportuno, impactando na mortalidade, hoje estimada em 28%.
Diante desse cenário, tanto os pacientes quanto os profissionais de saúde devem se conscientizar e atentar-se para a realização do rastreio ao constatarem a presença dos seguintes sinais e sintomas:
– Alteração persistente do hábito intestinal;
– Sangramento retal;
– Nódulo mamário ou testicular;
– Gânglios na região do pescoço;
– Sangramento uterino anormal;
– Urina com sangue;
– Emagrecimento não intencional.
Prevenção
A prevenção consiste na adoção de bons hábitos, estilo de vida saudável e redução das exposições ambientais desde a infância, sendo considerada a melhor maneira de evitar o câncer de início precoce e de forma geral.
– Alimentação: Dieta rica em fibras, frutas, vegetais, leguminosas e grãos integrais. Redução de alimentos ultraprocessados, carnes vermelhas e processadas.
– Atividade física: Recomenda-se 150–300 minutos/semana de atividade aeróbica.
– Peso adequado: IMC entre 18,5 e 24,9.
– Abandono do fumo:Incluindo cigarro eletrônico, cachimbo, charuto etc.
– Redução do álcool: A OMS orienta que não existe nível seguro de consumo de álcool em relação ao risco de câncer.
– Evitar radiação solar: Evitar exposição ao sol entre 10h e 16h e usar protetor solar.
– Vacinação HPV e HBV: A vacinação na infância/adolescência tem eficácia comprovada.
– Sono: Manter uma rotina circadiana regular com 6–8 horas de sono por noite.
– Aconselhamento genético:Indicado para jovens com histórico familiar (mais de 2 parentes de 1º grau com o mesmo câncer, diagnóstico antes dos 50 anos, ou tipos raros).
