Nem sempre é fácil perceber quando algo foge do esperado no desenvolvimento de um bebê. Afinal, cada criança tem seu tempo, seu jeitinho, suas descobertas. Mas, em meio às primeiras risadas, balbucios e tentativas de interação, alguns sinais mais sutis podem indicar que vale olhar com mais atenção — e, principalmente, buscar orientação.
Hoje, o autismo faz parte da realidade de muitas famílias brasileiras. Dados do Censo Demográfico 2022 apontam que cerca de 2,4 milhões de pessoas no país têm diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA), com maior prevalência entre crianças. Isso torna ainda mais importante entender como esses comportamentos aparecem — e por que agir cedo pode fazer tanta diferença.
Olhar atento nos primeiros anos de vida
O autismo é um transtorno do neurodesenvolvimento que afeta principalmente a comunicação social e o comportamento. E, ao contrário do que muita gente imagina, os primeiros sinais podem surgir bem cedo.
“Na prática clínica, nós já conseguimos observar sinais precoces ainda no primeiro ano de vida, especialmente entre 6 e 12 meses, como a redução do contato visual, menor responsividade ao nome, ausência de sorriso social e dificuldade na atenção compartilhada”, diz Silvia Kelly Bosi, neuropsicopedagoga especialista em autismo, em entrevista à AnaMaria.
Segundo ela, esses indícios costumam ficar mais evidentes entre 12 e 24 meses, justamente quando a linguagem e a interação social deveriam estar mais presentes no dia a dia da criança. É importante lembrar que esses sinais devem ser observados em conjunto e avaliados por um profissional.
O que observar entre 1 e 3 anos
Com o crescimento, as diferenças podem aparecer de forma mais clara no comportamento e na comunicação. É uma fase em que a criança começa a explorar o mundo, interagir mais e desenvolver linguagem — e é justamente aí que alguns sinais chamam atenção.
“Entre 1 e 3 anos, observamos déficits na reciprocidade socioemocional, como dificuldade em iniciar ou responder a interações sociais, além de prejuízos na comunicação não verbal”, explica a especialista.
Silvia também destaca outros comportamentos importantes: atraso ou ausência de fala, repetição de palavras (ecolalia), perda de habilidades já adquiridas e movimentos repetitivos.
Como o autismo aparece na fase pré-escolar
Na fase pré-escolar, os desafios tendem a ficar mais visíveis, especialmente nas interações com outras crianças e nas brincadeiras.
“A criança pode apresentar dificuldades na reciprocidade social, como manter uma conversa, compreender emoções ou estabelecer vínculos com outras crianças”, diz Silvia.
Na prática, isso pode aparecer como uma criança que prefere brincar sozinha, tem dificuldade em compartilhar ou não consegue entrar em brincadeiras de faz de conta.

Entendendo o espectro
O autismo não é igual para todo mundo — e esse é um ponto essencial para as famílias. “Cada criança apresenta um perfil único de habilidades e desafios. Por isso, nós não falamos em ‘um tipo de autismo’, mas sim em múltiplas formas de manifestação dentro de um mesmo diagnóstico”, explica Silvia.
Na prática, isso significa que algumas crianças podem falar com fluência, mas ter barreiras sociais, enquanto outras precisam de mais suporte na comunicação e no dia a dia.
Nível 1 — necessita de suporte
- Tem fala funcional, mas pode ter dificuldade em interações sociais
- Pode apresentar rigidez com rotina e resistência a mudanças
- Precisa de apoio pontual para se comunicar melhor e se adaptar a situações sociais
Nível 2 — necessita de suporte substancial
- Comunicação mais limitada, com possível repetição de falas
- Dificuldade mais evidente em interações e na compreensão social
- Precisa de ajuda frequente para se organizar, se comunicar e participar de atividades
Nível 3 — necessita de suporte muito substancial
- Comunicação bastante reduzida ou ausente
- Interação social restrita e maior presença de comportamentos repetitivos
- Necessita de apoio constante para atividades do dia a dia e acompanhamento intensivo
Estes níveis ajudam a entender o tipo de apoio necessário, mas não são fixos — podem mudar ao longo do tempo, conforme a criança evolui.
Diante de qualquer sinal de alerta, o mais importante é não esperar. A avaliação especializada considera o comportamento da criança, seu histórico de desenvolvimento e instrumentos específicos que ajudam a entender melhor cada caso.
A força do diagnóstico precoce
O diagnóstico precoce, especialmente nos primeiros anos, aproveita a plasticidade neural, otimizando o desenvolvimento da comunicação, interação social e habilidades adaptativas. Além disso, ajuda a família a criar um ambiente mais estruturado e acolhedor.
Por fim, vale destacar que nem todo atraso é autismo, mas ignorar sinais persistentes não é o ideal. Observe, confie em sua percepção e procure ajuda se algo não parecer bem. O essencial é respeitar o tempo e o potencial de desenvolvimento de cada criança, com apoio e informação.
A matéria acima foi produzida para a revista AnaMaria Digital (edição 1516, de 10 de abril de 2026). Se interessou? Baixe agora mesmo seu exemplar da Revista AnaMaria nas bancas digitais: Bancah, Bebanca, Bookplay, Claro Banca, Clube de Revistas, GoRead, Hube, Oi Revistas, Revistarias, Ubook, UOL Leia+, além da Loja Kindle, da Amazon. Estamos também em bancas internacionais, como Magzter e PressReader.
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