Nem sempre é fácil entender o que está por trás de um comportamento adolescente. A porta batendo, a resposta atravessada, o esquecimento de tarefas podem parecer parte do pacote. Mas, quando essas situações começam a afetar a rotina da família, surge a dúvida: até onde é só fase?
A adolescência é, por natureza, um período de mudanças profundas. Emoções à flor da pele, busca por autonomia e necessidade de pertencimento fazem parte desse momento. Ainda assim, alguns sinais podem indicar que há algo além do esperado, como no caso do TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) e do Transtorno Opositivo-Desafiador (TOD).
Quando não é só “coisa da idade”
Questionar regras, oscilar emocionalmente e testar limites faz parte do desenvolvimento. O que muda o sinal de alerta é o padrão e a frequência dessas atitudes.
O TOD aparece em forma de irritabilidade persistente, comportamento opositor e conflitos constantes com figuras de autoridade, como pais e professores. A pessoa com TOD pode apresentar explosões de raiva, argumentação excessiva, recusa em seguir regras e até agressividade.
Já no TDAH, os sinais costumam se manifestar na desorganização, dificuldade de manter o foco, impulsividade e problemas na autorregulação emocional, impactando tarefas simples do dia a dia.
“O comportamento típico é flexível e não impede o jovem de manter vínculos saudáveis. Já nos transtornos, o padrão é rígido e persistente”, explica a psiquiatra Fabricia Signorelli em entrevista à AnaMaria.
O impacto no dia a dia (e nas relações)
Quando esses quadros entram em cena, o efeito aparece em diferentes áreas da vida. Na escola, o adolescente pode ter dificuldade de acompanhar conteúdos, organizar estudos e cumprir prazos. Em casa, a convivência tende a ficar mais desgastante, com discussões frequentes e sensação constante de tensão.
“A adolescência já é, por si só, uma fase de maior intensidade emocional. Quando há TDAH e/ou TOD, essa intensidade tende a ser ainda maior”, diz a psicóloga e neuropsicóloga Thaís Barbisa. Frustrações simples podem gerar reações desproporcionais, e a impulsividade pode levar a atitudes que o próprio adolescente não consegue explicar depois.
Nas relações sociais, o impacto é silencioso, mas significativo. Dificuldades em perceber limites, respeitar turnos de conversa ou interpretar sinais sociais podem afastar amigos e gerar isolamento progressivo.

Quando os dois quadros aparecem juntos
Fabricia explica que a associação entre TDAH e TOD é comum e, quando acontece, tende a intensificar os desafios. Revisões sistemáticas e metanálises recentes publicadas no Journal of Attention Disorders indicam uma alta comorbidade: 30% a 50% dos jovens com TDAH também atendem aos critérios para TOD.
“Essa coexistência não é apenas uma coincidência estatística, mas uma relação de intensificação mútua, em que os sintomas de um transtorno intensificam e agravam os do outro, criando um ciclo vicioso de desregulação”, detalha Fabricia.
Isso também torna mais difícil identificar a origem de cada comportamento. Nem sempre uma atitude desafiadora é intencional, em muitos casos, ela está ligada a uma dificuldade biológica de autocontrole e organização. Ou seja, o adolescente pode querer fazer diferente, mas não consegue sustentar mudanças no comportamento, o que gera frustração tanto para ele quanto para a família.
Lidando com o conflito
Diante de comportamentos desafiadores, é comum que a resposta seja o confronto direto. Mas, na prática, isso costuma aumentar a tensão e dificultar o diálogo. “O primeiro passo é conhecer o filho e entender como ele funciona no dia a dia. Antes de reagir, é importante observar os padrões de comportamento e tentar compreender o que está por trás das atitudes”, orienta Thaís. Algumas abordagens podem ajudar nesse processo:
- Estabelecer regras claras e previsíveis, com consequências já combinadas;
- Valorizar comportamentos adequados com elogios e reconhecimento imediato;
- Evitar reagir a provocações menores, preservando energia para situações mais importantes;
- Manter uma rotina estruturada, que facilite organização e previsibilidade;
- Praticar a escuta ativa, validando sentimentos mesmo quando há discordância;
- Alinhar estratégias com a escola, quando necessário;
- Colocar a pessoa em terapia especializada e não desistir diante de dificuldades no tratamento.
Entender antes de rotular
Nem todo comportamento difícil indica um transtorno. O diagnóstico envolve uma análise cuidadosa, que considera diferentes contextos da vida do adolescente, como casa, escola e convivência social. É esse olhar mais amplo que permite diferenciar o que é parte do desenvolvimento e o que precisa de intervenção.
Quando surge a dúvida sobre a necessidade de avaliação, saber por onde começar é o primeiro passo. O ideal é buscar uma equipe formada por psicólogo e psiquiatra, que atuam de forma complementar tanto no diagnóstico quanto no acompanhamento.
A matéria acima foi produzida para a revista AnaMaria Digital (edição 1517, de 17 de abril de 2026). Se interessou? Baixe agora mesmo seu exemplar da Revista AnaMaria nas bancas digitais: Bancah, Bebanca, Bookplay, Claro Banca, Clube de Revistas, GoRead, Hube, Oi Revistas, Revistarias, Ubook, UOL Leia+, além da Loja Kindle, da Amazon. Estamos também em bancas internacionais, como Magzter e PressReader.
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