A prática de dividir a cama ou o quarto com os filhos, conhecida como cama compartilhada, ganhou visibilidade nos últimos anos, impulsionada por debates sobre maternidade, criação respeitosa e vínculo afetivo. Para algumas famílias, a escolha surge como forma de conforto e proximidade. Para outras, aparece como solução para noites mal dormidas. A dúvida costuma ser a mesma: dormir com os pais faz bem para a criança ou pode gerar problemas no desenvolvimento?
A resposta passa menos por regras fixas e mais pela análise do contexto familiar, da idade da criança e da forma como essa prática acontece no dia a dia.
Quando a cama compartilhada pode funcionar
Segundo André Ceballos, neurocirurgião e especialista em desenvolvimento infantil, a decisão de dividir a cama precisa considerar dois pontos centrais: segurança física e qualidade do sono de todos os envolvidos. “A cama compartilhada pode ser uma ferramenta de acolhimento e segurança emocional. No entanto, ela se torna um problema quando deixa de ser uma escolha consciente e passa a ser a única forma da criança dormir por falta de autonomia. Um desenvolvimento infantil saudável ajuda a criança a aprender, gradualmente, a se autorregular”, afirma.
Em determinadas fases, especialmente após períodos de mudança ou insegurança, dormir próximo aos pais pode oferecer sensação de proteção e previsibilidade. O ponto de atenção surge quando essa proximidade se transforma em dependência permanente.
Bebês exigem cuidados específicos
No caso dos recém-nascidos, o alerta é mais direto. André explica que bebês não devem dormir na mesma cama que os pais devido ao risco da Síndrome de Morte Súbita do Lactente. “No caso de bebês, o mais indicado é que eles durmam em seus próprios berços ao lado dos pais”, orienta.
Dormir no mesmo ambiente, mas em superfícies separadas, é a alternativa considerada mais segura nessa fase inicial da vida, pois mantém a proximidade sem aumentar riscos.

Autonomia no sono ao longo da infância
Com crianças maiores, a atenção se volta para a capacidade de dormir sozinhas. Quando a criança não consegue adormecer ou permanecer dormindo sem a presença constante dos pais, isso pode indicar dificuldade no desenvolvimento da autonomia emocional. “Quando o sono depende exclusivamente da presença dos pais, isso pode indicar dificuldade na construção da autonomia emocional. O ideal é que a transição para o próprio quarto ou cama aconteça de forma gradual, com previsibilidade e segurança, sem rupturas bruscas”, explica Ceballos.
Essa transição não precisa ser associada a rompimentos abruptos ou sofrimento, mas a um processo construído com diálogo e rotina.
Conversa também faz parte do processo
Mesmo crianças pequenas se beneficiam de explicações claras sobre mudanças na rotina. Falar sobre o novo espaço de dormir ajuda a reduzir ansiedade e insegurança. Explicar que ter a própria cama faz parte do crescimento contribui para que a criança compreenda a mudança como algo positivo, e não como afastamento emocional.
Mudanças graduais ajudam a reduzir resistência
A adaptação costuma ser mais tranquila quando feita em etapas. Começar com a criança dormindo em um colchão no quarto dos pais ou passar alguns dias adormecendo junto no novo quarto são estratégias que ajudam a diminuir o estranhamento. Envolver a criança na escolha da roupa de cama, do pijama ou do brinquedo que vai acompanhá-la à noite também reforça o sentimento de pertencimento.
Paciência e constância são essenciais
Nos primeiros dias, é comum que surjam choro e resistência. Manter a calma e evitar punições é fundamental para que o sono não se torne um momento de tensão. A criança precisa sentir que está segura durante a mudança. Reações de impaciência podem reforçar o medo e dificultar o processo.
“O sono é um aprendizado. Para pais que fazem cama compartilhada, é natural chegar um momento em que a criança vai precisar entender que o seu quartinho também é um lugar seguro. Se os pais estão exaustos ou se o casal não tem mais o seu momento de intimidade, também é um sinal de que ela deixou de ser uma aliada e virou um obstáculo para a harmonia da casa. O recomendado é fazer uma transição segura. Preservar a independência de uma criança ao dormir sozinha é também proporcionar um desenvolvimento infantil saudável”, finaliza André.
Resumo:
A cama compartilhada pode oferecer acolhimento emocional, mas exige atenção à segurança e à autonomia da criança. Em bebês, a recomendação é dormir no berço, no mesmo quarto dos pais. Já para crianças maiores, a dificuldade em dormir sozinhas pode indicar necessidade de uma transição gradual e respeitosa para o sono independente.







