Com quase 60 anos de carreira, Nívea Maria segue em plena atividade nos palcos e na televisão. Atualmente, a atriz está em cartaz com a peça Querida Mamãe, espetáculo que aborda os conflitos, afetos e desafios da relação entre mães e filhas. A trama despertou reflexões pessoais sobre maternidade, diálogo e diferenças entre gerações. Para Nívea, o espetáculo reforça a importância da escuta e da compreensão dentro das relações familiares. “O mais importante em qualquer relação é o amor, o entendimento e o afeto”, afirma.
Ao longo da carreira, a atriz construiu uma trajetória marcada por personagens muito diferentes entre si. Depois de ficar conhecida por papéis mais delicados e românticos, buscou personagens complexas e desafiadoras. Entre os trabalhos mais marcantes, destaca Dona Xepa e A Casa das Sete Mulheres, produções que ampliaram seu repertório artístico.
Mesmo sendo um dos rostos mais conhecidos da televisão brasileira, Nívea mantém uma relação simples com a fama. “Não quero me deixar levar apenas pela ilusão do sucesso, porque ele passa”, diz. Para ela, o mais importante sempre foi construir uma carreira sólida e permanecer próxima do público.
Mãe, avó e apaixonada pela profissão, Nívea afirma viver uma fase de plenitude. Depois de muitos amores, viagens e experiências, hoje dedica boa parte do seu tempo à família. “Namorei, casei três vezes, tive meus filhos, viajei muito. Hoje, vivo muito para os meus netos”, revela.
Você aceitou o convite para protagonizar a peça Querida Mamãe quase dez anos depois da estreia do espetáculo. O que a motivou a fazer esse trabalho?
Eu tenho feito menos televisão e o teatro tem me encantado muito. Receber um convite do Pedro, que é um diretor com quem eu nunca havia trabalhado, um diretor jovem e maravilhoso, também foi muito importante. Além disso, a peça é da Maria Adelaide Amaral, autora com quem já tive um trabalho muito marcante na minha carreira, que foi A Casa das Sete Mulheres, um papel extremamente importante para mim. E ainda tem a Regiane Alves, trabalhar com uma atriz de uma geração mais nova, cheia de energia e de um talento maravilhoso.
Também havia a certeza de que o conteúdo da peça atrairia o público, como está acontecendo. O espetáculo fala sobre questões muito atuais, como as relações humanas, a relação entre mãe e filha e as diferenças entre gerações. Tudo isso é tratado de uma forma que emociona e mexe com o público, mas que também se diverte em muitos momentos.
Então, reunir tudo isso e ainda poder estar tão próxima do público é muito importante para mim. Depois de tantos anos de carreira, fazer um trabalho tão bonito e significativo dentro da cultura do teatro é algo muito especial.
A peça fala bastante sobre maternidade e sobre a relação entre mães e filhas. O que essa história ressoou na sua vida pessoal?
Na verdade, a coisa mais importante é o diálogo que precisa existir entre mães e filhos. Não é apenas a mãe que se coloca ali com suas ideias e sua percepção de vida. Existe também aquilo que ela aprende por meio do diálogo com a filha, que também tem seus defeitos, como todos nós temos, mas que é uma mulher de personalidade muito forte e que mexe profundamente com as emoções da mãe.
A peça também alerta para alguns preconceitos que a geração mais velha, às vezes, tem em relação ao comportamento da geração mais nova. E fica muito claro que o mais importante em qualquer relação é o amor, o entendimento e o afeto. Acho que é isso que faz o espetáculo chegar tão forte ao público.
E você já se pegou tendo algum preconceito que depois percebeu que não fazia sentido?
Vou te dizer uma coisa: com 60 anos de carreira, meus personagens sempre foram muito diferentes de mim. Eu sempre tentei levar coisas diferentes para o público e para mim mesma, porque a atriz precisa ser um leque aberto. Eu sempre fui uma mãe muito liberal, de uma geração liberal, mas sofri, como filha, os preconceitos da época em que eu era jovem. Então, essa compreensão e essas lembranças dos momentos que vivi acabam indo comigo para a peça e para os meus personagens, especialmente porque fiz muitos trabalhos de época. Acho até que ainda está faltando eu fazer uma mãezona moderna, muito maluca, dentro da minha carreira.
Você tem décadas de carreira na televisão e no teatro. Olhando para trás, quais momentos considera decisivos para a construção da atriz que é hoje?
No começo da carreira, minha imagem estava muito ligada à delicadeza, à mulher amorosa, amiga, educada. Foram personagens que marcaram muito o público, mas em determinado momento senti necessidade de buscar papéis diferentes. Então comecei a conversar com autores e diretores para trazer outros tipos de personagens. Em Dona Xepa, por exemplo, fiz uma personagem bastante negativa, viciosa, que tinha vergonha da mãe. Era uma mulher com mais defeitos do que qualidades, e isso acabou sendo um grande sucesso também.
Depois veio A Casa das Sete Mulheres, em que interpretei uma mãe amargurada, mal-amada, muito dura nas relações familiares. Foi um personagem muito marcante para mim. E recentemente também tive a oportunidade de viver uma mulher que se traveste de homem para conquistar espaço profissional, em Êta Mundo Melhor. Era a Margarida, dona de uma pensão que sonhava em ser autora de novelas e precisava se vestir de homem para conseguir trabalhar no rádio da época. Então, eu tive sorte de levar ao público mulheres muito diferentes entre si.

Recentemente, você comentou que não se preocupa em ser celebridade, mas em ser uma boa atriz. O que quis dizer com isso?
Quando digo isso, é porque não quero me deixar encantar apenas pelas luzes e pelos elogios. Se você pensa só no sucesso, acaba deixando de lado a responsabilidade que tem como atriz. E a nossa carreira também é feita de fracassos, de trabalhos que agradam menos ao público. Eu gosto de me colocar próxima das pessoas. Tenho uma profissão que me expõe como figura pública, mas sou igual a todo mundo. Gosto de conversar, andar na rua, fazer compras, encontrar amigos, jantar, viver normalmente. Não quero me deixar levar apenas pela ilusão do sucesso, porque ele passa. Às vezes um trabalho supera o outro, e tudo faz parte da profissão. As pessoas acabam colocando a gente num pedestal que não existe. Quanto mais próximo você estiver do público, melhor ele vai entender você como artista e como pessoa.
Essa visão mais pé no chão veio com o tempo?
Na verdade, eu sempre fui assim, porque sempre trabalhei muito. Emendei muitos trabalhos ao longo da vida, inclusive em São Paulo, onde comecei minha carreira. Trabalhei em praticamente todos os canais de televisão paulistas numa época em que ainda não existia essa integração nacional que existe hoje. Além disso, a própria profissão ensina isso. Se você não acerta e se comporta como estrela, acaba perdendo espaço. E vemos muitas colegas que, mesmo longe da televisão há anos, continuam guardadas no coração do público pelos trabalhos que fizeram.
Falando um pouco da sua vida pessoal, você já comentou que não procura mais um relacionamento amoroso. O amor já ficou em outra fase da vida?
Eu vivi muito o amor, e o público que me acompanha sabe disso. Namorei, casei três vezes, tive meus filhos, viajei muito. Hoje, vivo muito para os meus netos, que representam uma geração nova que me interessa muito, porque também me atualizam na vida. Eles me trazem coisas diferentes. Então, realmente, já faz algum tempo que não tenho interesse em ter um companheiro. Tenho minha família perto de mim, graças a Deus uma família estabilizada e unida, e me sinto muito bem acompanhada dessa maneira.
Como é sua relação com a espiritualidade?
Para ter tantos anos de coisas boas na minha vida, é sinal de que tenho uma fé muito grande. Sou muito grata a Deus. Vou à igreja quando posso para agradecer e respeito todas as religiões. Acho importante que as pessoas tenham uma oração, uma gratidão, principalmente quando algo dá certo. Porque nem tudo dá certo na vida. Em momentos de doença ou dificuldade, se você não tiver fé, uma energia boa, uma oração, fica muito difícil.
O ser humano precisa trocar, se abrir, abraçar, sorrir e desejar coisas boas. É esse tipo de fé que tenho no ser humano e na vida. Apesar de estarmos vivendo um momento muito difícil, em que as pessoas estão mais duras, mais agressivas e apontando muito o dedo sem conhecer o outro. Isso me assusta muito. Eu torço para que as pessoas fiquem mais leves e mais doces.
Depois de tantos anos de carreira, existe algum arrependimento?
Não. Sempre que aceito um papel, mesmo quando ele não está totalmente dentro daquilo que imaginei, é justamente esse desafio que mexe comigo. Às vezes o personagem é pequeno ou não está tão integrado à história principal, mas eu sempre digo: o meu personagem é protagonista da própria história dele. Não importa se ele é o primeiro nome da novela, da peça ou da série. Eu sou protagonista da história daquele personagem. E muitas vezes, com o nosso trabalho, conseguimos até ajudar o autor a enxergar novas possibilidades e ampliar aquele personagem.
Não é que eu seja uma santa ou uma pessoa boazinha, não. É que são muitos anos de batalha. Nunca foi fácil. Nossa profissão no Brasil não é fácil, porque a cultura ainda recebe pouco apoio. É preciso muita paciência e foco para conquistar espaço.
E você nunca imaginou seguir outra profissão?
Jamais. Nunca imaginei outra profissão para mim. Comecei no ballet, mas não tinha a técnica necessária para seguir no ballet clássico do Teatro Municipal de São Paulo. Foi aí que descobri meu lado atriz, de interpretar personagens. Se eu não podia me expressar pela coreografia, consegui fazer isso através da palavra.
A matéria acima foi produzida para a revista AnaMaria Digital (edição 1527, de 26 de junho de 2026). Se interessou? Baixe agora mesmo seu exemplar da Revista AnaMaria nas bancas digitais: Bancah, Bebanca, Bookplay, Claro Banca, Clube de Revistas, GoRead, Hube, Oi Revistas, Revistarias, Ubook, UOL Leia+, além da Loja Kindle, da Amazon. Estamos também em bancas internacionais, como Magzter e PressReader.
