Por Lígia Menezes e Renan Pereira
Aos 43 anos, Karine Alves vive um dos momentos mais importantes da carreira. Depois de anos atuando como repórter e apresentadora esportiva, ela assumiu em 2025 o comando do Esporte Espetacular, tornando-se uma das principais referências do jornalismo esportivo brasileiro. Embarcou também para mais uma cobertura de Copa do Mundo, desafio que encara com entusiasmo e preparação.
Filha única e nascida em Porto Alegre, Karine costuma revisitar suas origens antes de grandes eventos profissionais. Sempre que possível, retorna à casa dos pais, onde ainda encontra preservado o quarto da adolescência.
O caminho até aqui exigiu persistência. Em uma área tradicionalmente masculina, ela reconhece que as mulheres ainda precisam enfrentar desafios constantes. “Nós, mulheres, em um ambiente ainda muito masculino, acabamos tendo que nos provar todos os dias. Provar a nossa capacidade, a nossa competência”, afirma. Ao mesmo tempo, acredita que a presença feminina no esporte já conquistou seu espaço por mérito e competência. “Hoje, ocupamos esse espaço pelo que somos. Estamos aqui porque merecemos e porque conquistamos isso”, diz.
Apesar da agenda intensa, ela faz questão de preservar momentos de reflexão – a espiritualidade ocupa um lugar importante em sua vida e está ligada à busca por equilíbrio e boas energias. “Eu acho que a gente não vai a lugar nenhum sem fé”, afirma. Leituras, trechos da Bíblia e momentos de introspecção fazem parte desse processo.
Você trabalha em um ambiente historicamente masculino, que é o jornalismo esportivo. Em algum momento você precisou se provar? Como conquistou essa relevância e autoridade?
Eu acho que nós, mulheres, em um ambiente ainda muito masculino, acabamos tendo que nos provar todos os dias. Provar a nossa capacidade, a nossa competência. Hoje, ocupamos esse espaço pelo que somos. Estamos aqui porque merecemos e porque conquistamos isso.
Desde o início da minha carreira, obviamente, passei por muitas provações. Não necessariamente vindas de colegas, mas da própria cultura. A gente enfrenta diariamente uma cultura machista.
Só que também aprendemos que o nosso pé está cravado ali. E não vamos abrir mão desse espaço. Quando eu falo de merecimento, é pelo trabalho desenvolvido mesmo.
Acho que nós, mulheres, já mostramos a que viemos. Na prática, não precisamos mais provar nada para ninguém. Mas precisamos continuar construindo essa história e aumentar cada vez mais o número de mulheres nesses espaços. Hoje, eu trabalho para que outras mulheres também possam ocupá-los no futuro. Ainda queremos que esse número seja maior.

Em relação à representatividade racial, qual é o feedback que você recebe de outras meninas negras? Por você ser uma pessoa tão relevante e de tanta credibilidade, como é esse diálogo com elas?
Primeiro, eu acho que é uma responsabilidade. Querendo ou não, quando apareço na TV, sei que não estou sozinha. Estou representando todas essas meninas. E eu recebo muitas mensagens. Mensagens muito legais e carinhosas sobre o meu trabalho, sobre como elas se enxergam em mim. Como se sentem mais encorajadas ao me ver naquele lugar de destaque e credibilidade.
Não é fácil. Acho que ainda estamos em caminhada. Principalmente no esporte, vemos mulheres, mas quando fazemos essa interseccionalidade e cruzamos essas experiências pensando em raça, a diversidade ainda deixa a desejar.
Precisamos de mais mulheres negras nesse espaço. Precisamos dar voz a elas. E, muitas vezes, elas também precisam se sentir mais confiantes de que isso é possível. Quando enxergam alguém ali, pensam: ‘Bom, se ela chegou lá, eu também posso sonhar. Posso tentar pelo menos’.
Antigamente, a gente não via isso. Eu mesma, quando comecei no esporte, olhava para o lado e não via referências de mulheres negras no jornalismo esportivo. Sempre senti essa ausência.
Existiu esse caminho de solidão, mas hoje, ainda bem, já temos muitas caminhando juntas. Na reportagem, na produção, nos bastidores, na redação. Ainda acho que falta representatividade nos lugares de decisão, porque é ali que acontece a mudança real.
Como surgiu o seu interesse pelo esporte?
Eu sempre brinco que primeiro escolhi o jornalismo porque falava demais. Sempre fui muito comunicativa. A mãe de uma amiga falou: ‘Pelo amor de Deus, Karine, já que você fala tanto, vai fazer jornalismo’. E eu escolhi primeiro a comunicação.
O esporte era lazer na minha vida. Então eu sempre digo que o esporte me escolheu, me acolheu e me deu tudo o que tenho hoje. Foi um match muito claro, muito fácil. Quando comecei a trabalhar na RBS TV, afiliada da Globo, em 2006, virei repórter e comecei no esporte olímpico. Fazia futebol aos finais de semana.
Lembro que fiquei muito impressionada com a força que o esporte trazia, não só em termos de competição, mas de humanidade. E aí criei essa conexão com o ato de contar histórias. Me encontrei nisso e nunca mais quis sair.
Hoje posso dizer que foi uma escolha que me realiza e me deixa muito feliz, justamente por ocupar um lugar que sei que é importante. Estou falando de algo que o brasileiro ama, que é o esporte, e podendo também, de certa forma, mudar a vida de alguém, mesmo que indiretamente.
Porque o esporte faz isso. O esporte traz coragem, esperança, inspiração, superação e realidade. Ele fala muito sobre o povo brasileiro. Então, como brasileira e apaixonada pelo nosso país, hoje tenho certeza de que foi a melhor escolha.
Você pratica algum esporte?
Hoje eu vou para a academia. Sendo muito honesta, quero voltar a jogar futebol, porque fiquei alguns meses praticando. É difícil, mas queima bastante caloria e o resultado é bom.
Primeiro a gente fica ali treinando os fundamentos. Não é um esporte fácil, mas é um esporte de que eu gosto. Já tentei jogar futebol quando era muito novinha, mas era aquela coisa de campeonato de igreja, de bairro… E eu era muito ruim. Zero à esquerda jogando. Sério, muito ruim. Então desisti. Melhor falar de esporte do que praticar futebol.
Um esporte que eu gostaria de ter experimentado, mas não tive a possibilidade, foi a ginástica artística. Quando eu era criança, apareceu uma oportunidade em um projeto social, mas na época meus pais trabalhavam muito e não tinham tempo para me levar.
Você é competitiva?
Sabe que depende? Acho que, no trabalho, não sou competitiva. Sou agregadora. Sou muito mais de equipe, de time. Gosto de trabalhar com pessoas. Sou apaixonada por gente.
Sou aquela pessoa que gosta de conversar com todo mundo que faz parte do trabalho: desde o motorista, o produtor, a pessoa que prepara o nosso lanche, até o executivo e a editora. Gosto de acompanhar todo o processo. Então sou muito mais de juntar as pessoas. Gosto que todo mundo converse de igual para igual. Prefiro mil vezes esse estilo de trabalho à competitividade.
Agora, pensando em futebol, aí eu tenho que torcer para o meu time, né? Não fico falando qual é, mas aí sou competitiva. Fico provocando meu pai, porque ele torce para um time e eu para outro, então sempre brincamos com isso.
Como você se prepara para a rotina intensa de uma Copa e para o dia a dia do Esporte Espetacular?
Nessa cobertura, vamos ter um fuso menor perto do que foi em Paris ou no Catar. No Catar eu trabalhei madrugada adentro. Em Paris também. Dessa vez vou estar no horário oposto, trabalhando pela manhã.
Então já comecei a adaptar meu corpo ao horário que vou precisar acordar nos Estados Unidos. Vou precisar levantar às 5h da manhã, então já estou tentando acordar às 6h ou 7h para acostumar o organismo.
No Esporte Espetacular, trabalhamos muito tarde. Nossa rotina normalmente vai das 14h às 22h. Em dias de fechamento, especialmente sexta e sábado, vai ainda mais longe.
Na Copa, além do Esporte Espetacular, também vou participar de flashes da programação da TV Globo e do SporTV. Então preparo muito a questão do sono.
Eu sou uma pessoa que gosta de dormir e não tenho dificuldade para isso. Na Copa do Catar foi engraçado, porque entre uma entrada e outra, quando tinha um tempinho, eu falava: ‘Gente, vou tirar um cochilo’. Sentava na cadeirinha, colocava a jaqueta e dormia 15 ou 30 minutos. Acordava renovada. O sono, para mim, é primordial. E também tem a preparação do corpo, porque é uma batida muito forte. Vamos trabalhar de 10 a 12 horas por dia, todos os dias, sem folga. A gente fica meio abduzido.
Então, mesmo na força do ódio, preciso ir para a academia pelo menos três vezes por semana para fazer musculação. Tem que fazer.
Além disso, alimentação é fundamental. Porque, na correria, nem sempre dá para manter uma alimentação saudável. Então já preciso ir preparada para o improviso.
Talvez eu consiga jantar bem, mas no almoço vou estar entrando ao vivo e acabar comprando um sanduíche. E nos Estados Unidos tem muita coisa gostosa. Eu adoro doce, adoro comida americana, então vou precisar me segurar.
Qual é o papel da sua família e da sua rede de apoio para que você consiga se manter bem?
Minha rede de apoio é fundamental. Sou filha única. Então, por exemplo, voltei ontem de Porto Alegre porque gosto, antes de grandes eventos, de ver minha família, saber que está todo mundo bem, deixar a casinha arrumada lá no Rio Grande do Sul.
Ainda tenho meu quarto da adolescência. Minha mãe manteve tudo igual: a mesma escrivaninha, a mesma cama, as mesmas coisas de quando eu tinha 16 anos. Está tudo lá. Gosto desse encontro com o meu passado. Toda grande cobertura eu vou para lá, converso com meus pais, entro naquele quarto e penso de onde vim e para onde estou indo agora.
Para mim, é muito importante esse ritual de reencontrar a Karine, aquela menina que sonhava com o futuro e que agora está vivendo e realizando esses sonhos.
O que você diria para a Karine do passado?
Nossa, que difícil… Acho que diria: ‘Olha, se prepara, porque o teu futuro vai ser brilhante. Tenha resiliência, acredite em você, se mantenha leve e não perca a espontaneidade’. Isso é muito importante na comunicação. Gosto muito do improviso, mas não de um improviso leviano. Para mim, o improviso mostra humanidade. Ninguém é robô.
Hoje temos inteligência artificial para tudo, então sempre fiz questão de trazer espontaneidade para as minhas entradas ao vivo. Mostrar verdade e sentimento.
Acho que as pessoas querem saber como você está se sentindo, o que está vendo. E, para passar isso, é preciso espontaneidade. Claro, junto com preparação e apuração. Eu gosto de ter meu caderninho. Depois da lista de informações final, gosto de sentar e escrever tudo. Todo mundo fala para eu passar para o computador, e eu até passo para o celular, porque na cobertura usamos muito o celular.
Mas eu ainda gosto do papelzinho. Na Copa do Catar comecei a usar mais o celular, mas em Tóquio adorava entrar ao vivo com meu caderninho. Sou old school.
Para finalizar, qual é a importância da espiritualidade e da fé na sua vida?
Eu acho que a gente não vai a lugar nenhum sem fé. Todos os dias de manhã penso nisso. E espiritualidade não é apenas religião. Cada pessoa escolhe o seu caminho e a sua forma de viver isso. Para mim, espiritualidade tem muito a ver com energia.
Preciso sempre cuidar da minha energia. Ter um momento do dia para olhar para dentro. Gosto de fazer leituras, escolher um livro para deixar na cabeceira da cama. Também gosto de ler um trecho da Bíblia. Acho importante fazermos reflexões diárias. Dos 13 aos 21 anos, tive uma vivência muito forte na igreja católica, fazendo trabalho social todos os finais de semana.
Depois veio a vida adulta, o trabalho, e não consegui mais me dedicar da mesma forma. Mas é algo que quero retomar. Desenvolver alguma ação social, uma ONG, algum trabalho solidário. Talvez até ligado à comunicação.
Então, voltando à espiritualidade, ela conversa muito com energia. E, para fazer uma cobertura grande como essa, é preciso estar com a energia alinhada e com a cabeça focada. Mas focada, para mim, não significa séria. Pelo contrário. Antes de entrar ao vivo, não sou aquela pessoa tensa que não quer falar com ninguém. Eu gosto de conversar, de cantar um sambinha, de pensar nas pessoas que me inspiram. Tudo isso me ajuda a entrar no ar e fazer o meu melhor trabalho.
A matéria acima foi produzida para a revista AnaMaria Digital (edição 1525, de 12 de junho de 2026). Se interessou? Baixe agora mesmo seu exemplar da Revista AnaMaria nas bancas digitais: Bancah, Bebanca, Bookplay, Claro Banca, Clube de Revistas, GoRead, Hube, Oi Revistas, Revistarias, Ubook, UOL Leia+, além da Loja Kindle, da Amazon. Estamos também em bancas internacionais, como Magzter e PressReader.
