Por Lígia Menezes e Renan Pereira
Há mais de uma década, Fábio Porchat ajudou a transformar o humor brasileiro ao criar o Porta dos Fundos ao lado de amigos que queriam produzir esquetes que não encontravam espaço na televisão. O projeto cresceu, conquistou milhões de espectadores e se tornou um marco da internet brasileira. Curiosamente, segundo ele, a ambição inicial era bem mais simples: fazer rir. “A gente estava querendo fazer umas piadas que ninguém deixava a gente fazer em lugar nenhum”, lembra.
Hoje, aos 43 anos, Porchat acumula diferentes funções. É ator, roteirista, apresentador, produtor e um dos principais nomes do entretenimento brasileiro. Mesmo com toda a experiência, ele admite que os desafios inéditos continuam provocando insegurança. “Sempre que é uma coisa nova, dá um medinho, porque você não tem ainda certeza de que aquilo vai funcionar”, revela.
Esse frio na barriga também acompanha sua participação na cobertura dessa Copa do Mundo de 2026. Apaixonado por futebol, ele integra a programação da Globo em projetos que misturam esporte, entretenimento e cultura. Mais do que análises técnicas, sua missão é observar os bastidores, os acontecimentos curiosos e engraçados.
Fora dos palcos e das câmeras, sua visão sobre espiritualidade está menos ligada à religião e mais às relações humanas. Ateu assumido há anos, ele acredita que a principal conexão entre as pessoas está na capacidade de amar, acolher e ajudar quem está ao redor. “Eu acho que as pessoas precisam se conectar entre si, e acho que a única coisa que conecta a gente é o amor”, conta.
Quando você criou o Porta dos Fundos, você imaginava que você iria mudar mesmo a forma de fazer humor no país, o humor na internet?
Quando a gente criou o Porta dos Fundos, a gente estava querendo fazer umas piadas que ninguém deixava a gente fazer em lugar nenhum. Que na TV falavam que não podia e a gente não tinha lugar para fazer. Então, nossa vontade com o Porta dos Fundos era ser engraçado. E aí por acaso a gente juntou um grupo de pessoas muito talentosas para escrever, para roteirizar, para dirigir. E isso acabou transformando uma geração e isso é demais.
Você acha que fazer humor ficou mais difícil nos últimos dez anos?
Eu não acho que está difícil. Um dia eu perguntei para o Chico Anísio, ‘está chato fazer humor?’ Ele falou, ‘meu filho, chato era na ditadura. Na ditadura você tinha que fazer por um censor’. Então eu só acho que hoje tem mais gente dando pitaco. E aí, portanto, quanto mais gente dando pitaco, tem mais gente concordando e mais gente discordando de tudo. Não só do humor, né? De vacina, de publicidade, de detergente. Cada um acha uma coisa diferente da outra. Então, quando tem mais gente falando, mais confuso é.

Então, você acha que há mais “censores” hoje em dia?
Não, ao contrário. Na ditadura é que a gente tinha censores.Hoje em dia a gente só tem opiniões, muitas opiniões. Quanto mais opinião, melhor. As pessoas precisam dar as opiniões delas e o bom de hoje em dia é que elas têm muito para onde ir. Antigamente, a gente tinha um lugar ou outro. Hoje a gente tem pulverizado, é democrático. Então, você tem pessoas que nunca apareceram na televisão que são famosas. Tem pessoas que só estão na televisão, tem gente que está só no cinema. É muito bom você ter tanta gente fazendo tanta coisa legal.
Tem algum medo ou alguma insegurança na hora de fazer um stand-up, apresentar um programa?
Sempre que é uma coisa nova, dá um medinho, porque você não tem ainda certeza de que aquilo vai funcionar, de que aquilo vai dar certo, que as pessoas vão gostar. Então tudo que é novo dá uma apreensão. Mas é claro, se você preparou tudo, se você tem uma base naquilo ali que você está tentando, pelo menos você parte de alguma segurança interna. Mas a gente só vai saber se uma piada é engraçada quando alguém rir. Eu preciso que aquilo ali funcione para quem eu não tenho controle nenhum.
Você está na cobertura da Copa 2026 em dois programas, Central da Copa e Copa&Cozinha, um especial de quatro episódios. Como você acredita que está sendo essa cobertura?
Eu adoro a Copa do Mundo. Já fui a várias Copas do Mundo. Eu sou a pessoa que gosta de ficar assistindo Colômbia e Grécia. Eu sou aquela pessoa que gosta de ver o futebol acontecer durante a Copa do Mundo, que é um evento muito legal. Quando você gosta de uma coisa, já te ajuda bastante. E nesse sentido eu venho menos para dar explicações técnicas, pois isso eu não sei mesmo. Eu tenho mais uma função de contar um pouco para todo mundo o que aconteceu e pegar aqueles momentos diferentes, inusitados, engraçados, que rolaram durante o dia para passar isso para o espectador.
A Globo transforma o torneio em um grande acontecimento cultural, criando conexão, emoção e conversa. Quando a Copa vira cultura, amplia o público para além do esporte, atrai novos olhares. Assim, com um ecossistema integrado e multiplataforma, fazemos o Brasil viver a Copa em toda a sua intensidade. Uma jornada que começa antes do jogo, intensifica durante e continua depois, fazendo a Copa ser assunto o tempo todo.
Religião pode virar piada?
Em 2013, Fábio declarou em uma entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, que é ateu. Desde então, ele é muito criticado por fazer humor com temas religiosos – questionamos ele sobre sua própria espiritualidade, mesmo sem acreditar em Deus, e como ele aplica isso no dia a dia. Olha só:
“Eu acho que as pessoas precisam se conectar entre si, e acho que a única coisa que conecta a gente é o amor. É a gente amar o próximo, é a gente estar junto, é a gente olhar para quem precisa, saber dos nossos privilégios. Se a gente tem, é muito bom, mas tem muita gente que não tem – então, como podemos fazer a diferença? Porque a gente vive em comunidade, e a gente precisa que todos da nossa comunidade estejam bem, para que, inclusive, a gente esteja bem.
O meu olhar é sempre para o outro. O meu olhar é sempre como é que eu posso tentar dar suporte, dar apoio para pessoas que estão precisando disso. Quem são essas pessoas? Porque não são só aquelas pessoas que a gente vê lá longe, né? Muita gente fala assim: “ah, para resolver o problema do mundo eu preciso salvar as crianças na África”. Não, acho que para resolver os problemas do mundo você pode olhar para quem está ao seu lado, para o seu porteiro, para a sua diarista, para o entregador de comida, para o garçom. O que eles que estão no seu dia a dia precisam e que você pode dar?
5 personagens marcantes de Fábio Porchat
- Renan — “Meu Passado Me Condena”
Um dos personagens mais populares da carreira de Fábio Porchat, Renan é o marido atrapalhado e impulsivo que protagonizou o filme e a série “Meu Passado Me Condena”, ao lado de Miá Mello. O humor baseado em situações de casal conquistou o público e virou um dos maiores sucessos de sua trajetória. - Valdomiro Lacerda — “Vai Que Cola”
Na série humorística Vai Que Cola, Porchat viveu o irreverente Valdomiro, personagem conhecido pelo sarcasmo e pelas situações absurdas dentro da pensão do Méier. A produção se tornou um fenômeno da TV paga. - Tomás — “Beneath the Surface” / “Desce Pra Baixo”
Nos esquetes e projetos de humor do Porta dos Fundos, Porchat interpretou dezenas de personagens icônicos. Entre eles, tipos cotidianos exagerados, religiosos caricatos e figuras corporativas que ajudaram a consolidar o estilo ácido e crítico do grupo. - Hermes — “O Enfermeiro” (Porta dos Fundos)
Entre os personagens mais lembrados dos vídeos do Porta dos Fundos, estão os criados em sátiras sobre relações profissionais e familiares. O humor baseado em constrangimento e ironia virou marca registrada do ator e roteirista. - Ele mesmo — “Que História É Essa, Porchat?”
Embora não seja um personagem fictício, o lado espontâneo, rápido e carismático de Porchat como apresentador no Que História É Essa, Porchat? acabou se tornando uma “persona” reconhecida pelo público. O programa transformou histórias improváveis em um dos maiores sucessos recentes da TV brasileira.
A matéria acima foi produzida para a revista AnaMaria Digital (edição 1526, de 19 de junho de 2026). Se interessou? Baixe agora mesmo seu exemplar da Revista AnaMaria nas bancas digitais: Bancah, Bebanca, Bookplay, Claro Banca, Clube de Revistas, GoRead, Hube, Oi Revistas, Revistarias, Ubook, UOL Leia+, além da Loja Kindle, da Amazon. Estamos também em bancas internacionais, como Magzter e PressReader.
