Por Lígia Menezes e Renan Pereira
Depois de anos cobrindo grandes eventos esportivos e se consolidando como uma das principais jornalistas da área, Carol Barcellos inicia uma nova fase profissional ao assumir a cobertura da Copa do Mundo pelo SBT e pela N Sports. Acostumada ao improviso da televisão ao vivo, às viagens constantes e às coberturas intensas, ela encara esse momento como uma oportunidade de crescimento.
O convite para integrar a cobertura da Copa surgiu de forma inesperada. Inicialmente, Carol planejava realizar uma cobertura independente, investindo em projetos autorais desenvolvidos após sua saída da Globo. “Sentia falta do ao vivo, das câmeras, da troca com uma equipe”, lembra.
Depois de mais de 20 anos cobrindo esportes, Carol reconhece os desafios enfrentados pelas mulheres em um ambiente ainda muito masculino. “Acho que todas nós sofremos preconceito”, diz. Ela faz questão de reconhecer a importância de jornalistas que abriram caminhos antes dela, como Glenda Kozlowski e Mariana Becker.
Mãe de Júlia, hoje adolescente, Carol revela que as coberturas de grandes eventos sempre trazem um misto de realização profissional e saudade. Para enfrentar a intensidade da rotina durante a Copa, ela prefere ficar hospedada em casa de temporada para ter sensação de casa, leva objetos afetivos, livros de poesia, pedras, óleos essenciais e mantém os treinos físicos mesmo à distância.
Você fechou uma parceria com o SBT e a N Sports para a cobertura da Copa do Mundo. O que essa mudança representa para você como profissional?
Foi inesperado. Eu já tinha me planejado para fazer uma cobertura independente, como alguns projetos que investi no ano passado e que cresceram! Mas tenho sentido muita falta da TV. Do ao vivo, do improviso, das câmeras, de trocar com uma equipe. Por isso, quando chegou o convite do SBT e da N Sports, mudei tudo. Sei que será desafiador. Está muito perto da Copa. Muito pouco tempo e muito a ser feito. Fiz a escolha sabendo que ainda tenho a aprender e a crescer na TV aberta.
Você sentiu um “frio na barriga” ao aceitar este novo desafio? Ou sua experiência como apresentadora te deixou segura?
Senti. Estou sentindo. E acho que vou sentir até o fim da Copa (rs). Não tem jogo ganho. Preciso fazer tudo de novo: me preparar, criar, estar 100% ali e com a melhor energia! E em um lugar novo, com equipe nova. Quero viver intensamente essa experiência. E, a cada ao vivo, a cada programa, tudo muda. TV é especial pra mim. Não penso na câmera, penso nas pessoas com que me conecto quando estou ali. Estou com muita saudade.
Você ficará um tempo em São Paulo devido a este trabalho no SBT. Por isso, como você costuma organizar a rotina quando está em coberturas de grandes eventos esportivos? Quais são os “rituais” que você construiu para manter uma vida mais equilibrada?
Coberturas de grandes eventos são períodos de muito trabalho, de muita saudade da minha filha e de muito estímulo o tempo todo. Pedi para me hospedar em Airbnb, para ter aquele momento de chegar a “uma casa”, curtir o silêncio e manter minha alimentação mais equilibrada. E… ter espaço para fazer meus treinos online. Movimentar o corpo acalma minha mente. Gosto também de levar livros de poesia e minhas pedras e óleos essenciais. E sempre decoro a casa com objetos especiais. Desta vez, além da foto da Ju, vou levar um quadrinho que ela me deu neste Dia das Mães em que está escrito: ‘Coragem’. Para que nunca me falte.
Você já falou em público sobre momentos de crise e sobre a importância de acreditar. Como a espiritualidade, a fé ou algum tipo de prática interior entram na sua rotina e a ajudam a lidar com a pressão da carreira e da exposição?
Tenho fé. Rezo e acredito em energia e na espiritualidade. Banho de mar e de cachoeira lavam a alma e me recarregam. Tem muito “barulho” lá fora, muito se fala do que pouco se sabe. Tento estar próxima do que tem valor pra mim. Do meu mundo. Leitura e estudo também curam. Comecei, este ano, uma pós-graduação em Psicanálise e análise do comportamento contemporâneo.

Além de ser jornalista, você é atleta amadora e fala muito sobre saúde e corrida. Qual é o seu conceito de autocuidado hoje, tanto corporal quanto emocional, e como isso mudou com o tempo?
Mais do que o bem-estar, busco o bem viver. Amo correr, amo nadar no mar e faço terapia.
Mas me preocupa como se fala de autocuidado hoje. Virou mais uma exigência e cobrança social, em meio a tantas na vida. O mais importante, e que deveríamos discutir mais, é como fazer com que uma parte maior da população tenha acesso a esse “bem-estar”, que seja menos excludente!
Como você lida com a pressão estética e a idealização da imagem feminina na TV? O que aprendeu sobre amor próprio com o passar dos anos?
A idealização é do outro, está no olhar do outro, então não tenho controle sobre ela.
Trabalho para – ao menos tentar – desconstruir a minha autocobrança e ter mais liberdade para ser, em vez de parecer ser ou ter. Eu quero gostar de mim. Do que faço, do que construo, da energia que transmito. Admiro a naturalidade e vejo beleza nela.
O que ainda falta para você, profissionalmente, e quais são os sonhos mais íntimos que você carrega para a vida pessoal, como mulher e companheira?
O que falta? Há muito a experimentar, criar e aprender, profissionalmente. Quero muito expandir a ONG Destemidas pelo Brasil. E ver minha filha se tornar uma menina e mulher legal, com olhar bonito e generoso para ela, para o outro e para a vida. Com dores e alegrias, acredito que o melhor ainda está por vir.
Você fala de crianças e da maternidade com muita sensibilidade.O que a maternidade significa nesse estágio da sua vida e como você imagina essa etapa se desenhando nos próximos anos?
Mais do que a maternidade, é o que a Julia representa na minha vida. Era um sorriso de bebê, virou de menina, hoje, de adolescente, que quando se abre…nem sei. Amo quando me falta palavra porque o sentimento não cabe em letra. Ela provoca isso a toda hora. Ao mesmo tempo em que escancara as incertezas da vida e os medos que sinto, esse amor me guia.
A cobertura do esporte sempre foi mais masculina, porém, há vinte anos você faz isto e se tornou uma referência. Você já sofreu algum preconceito por ser mulher cobrindo esportes? Como conquistou sua credibilidade nesta área?
Acho que todas nós sofremos. E o pior é que nem sempre percebemos o preconceito.
Reconheço a força das mulheres que me inspiraram (e inspiram), abriram e ainda abrem caminho, como a Glenda e a Mari Becker. Nossa credibilidade foi construída com muito trabalho e também com muita luta!
Pensando na mulher brasileira que lida com trabalho, família, cobranças e sonhos, o que você gostaria de dizer para as leitoras da AnaMaria sobre perseverança, autoestima e a importância de assumir o próprio caminho, mesmo que fora do “padrão”?
Que os sonhos nos mantêm vivos. Que reconheçam a própria luta e a sua beleza. O padrão? Deixem para quem o criou. Só a gente sabe o nosso caminho e nossa real história.
A matéria acima foi produzida para a revista AnaMaria Digital (edição 1524, de 5 de junho de 2026). Se interessou? Baixe agora mesmo seu exemplar da Revista AnaMaria nas bancas digitais: Bancah, Bebanca, Bookplay, Claro Banca, Clube de Revistas, GoRead, Hube, Oi Revistas, Revistarias, Ubook, UOL Leia+, além da Loja Kindle, da Amazon. Estamos também em bancas internacionais, como Magzter e PressReader.
