O aumento da expectativa de vida, que deu grandes saltos no século 20, está crescendo de forma mais lenta nas últimas décadas. Enquanto países desenvolvidos experimentaram uma extensão radical da vida, o século 21 trouxe um novo cenário, com estudos mostrando que o limite pode ter sido alcançado.
No início dos anos 1900, a expectativa de vida no Brasil era de apenas 33 anos, enquanto países mais desenvolvidos já atingiam 47 anos. Esse cenário mudou graças aos avanços na medicina e à tecnologia, resultando em um grande aumento na longevidade. No entanto, de acordo com um estudo recente publicado na Nature Aging, a partir de 2010, esse crescimento desacelerou, e a perspectiva de aumentar de forma significativa a média de vida nas próximas décadas é baixa.
A longevidade desacelera — e novos desafios surgem
A pesquisa, que analisou dados entre 1990 e 2019, observou as nove populações com maior longevidade no mundo, incluindo países como Japão, Suécia e Coreia do Sul. O resultado aponta que, nas próximas três décadas, o aumento da expectativa de vida será de apenas 2,5 anos, longe dos avanços expressivos que presenciamos no século passado.
Para as mulheres, a chance de chegar aos 100 anos é de cerca de 5,1%, e para os homens, ainda menor, com 1,8%. Embora essa projeção varie entre as populações, como em Hong Kong, onde 12,8% das mulheres nascidas em 2019 têm chance de chegar ao centenário, os números indicam uma tendência global de desaceleração.
Segundo Jay Olshansky, professor de epidemiologia da Universidade de Illinois, Chicago, a explicação para esse fenômeno pode estar no fato de que a humanidade atingiu um “limite natural” para a longevidade. O desafio agora é menos sobre aumentar os anos de vida e mais sobre garantir que esses anos sejam vividos com saúde e qualidade.
O envelhecimento e a busca por uma vida mais saudável
Olshansky destaca que as doenças associadas ao envelhecimento, como Alzheimer e câncer, são os novos desafios. Ele ressalta que, mesmo que tratamentos avançados sejam desenvolvidos, isso seria apenas uma solução temporária. O foco, segundo ele, precisa ser em entender o processo de envelhecimento em si, e não apenas em combater doenças isoladamente. Esse é o campo da gerociência, que estuda como o envelhecimento biológico acontece e como ele pode ser retardado.
Novos estudos estão explorando maneiras de “rejuvenescer” as células, retardando o processo de desgaste celular. Isso envolve, por exemplo, a pesquisa sobre os telômeros, que são estruturas nas extremidades dos cromossomos e que encurtam com o tempo. Se os cientistas conseguirem encontrar uma forma de prolongar esses telômeros, podemos começar a falar não apenas de longevidade, mas de longevidade saudável.
Olshansky ressalta que a meta é prolongar a vida com qualidade, garantindo que as pessoas envelheçam sem as limitações que muitas vezes vêm com a idade. “É necessário investigar as raízes do envelhecimento e não apenas encontrar curas temporárias para as doenças”, disse ao portal Live Science.
Expectativa de vida x longevidade máxima
É importante entender que expectativa de vida se refere à média de anos que um grupo de pessoas pode esperar viver, enquanto a longevidade máxima de um ser humano é o maior número de anos que uma pessoa pode viver. Hoje, o desafio está em fechar essa lacuna, buscando formas de viver mais e, principalmente, viver melhor.
Em um mundo onde a ciência avança, mas o envelhecimento permanece um mistério, o foco não está apenas em acrescentar anos à vida, mas vida aos anos. A busca por entender e, quem sabe, reverter o processo de envelhecimento biológico pode nos levar a um futuro onde a longevidade seja sinônimo de saúde e bem-estar.
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