A violência contra a mulher passou a ser considerada a forma de criminalidade mais grave do Brasil pela primeira vez. É o que mostra uma pesquisa realizada pelo Datafolha para o Movimento Mulher 360, que ouviu 2.004 pessoas em todo o país. Segundo o levantamento, 61% dos entrevistados apontam a violência contra a mulher como o principal problema de segurança pública atualmente.
A preocupação supera temas historicamente associados à criminalidade. O tráfico de drogas aparece em segundo lugar, com 16% das menções, seguido pelos assaltos à mão armada, com 10%. Entre as mulheres, a percepção é ainda mais forte: 73% consideram a violência de gênero o problema mais grave do país.
Para Margareth Goldenberg, diretora-executiva do Movimento Mulher 360, os dados mostram uma mudança importante na forma como a sociedade enxerga o tema. “A pauta sobre violência contra mulher deixou de ser percebida como tema privado ou feminino. Virou questão central de segurança pública e social”, afirma.
Por que a violência psicológica ainda é difícil de reconhecer?
Apesar da ampla rejeição às agressões físicas, a violência psicológica ainda encontra resistência no reconhecimento social. A pesquisa identificou que muitas situações de controle e coerção continuam sendo relativizadas.
Entre os entrevistados:
- 45% acreditam que impedir uma mulher de sair de casa para uma comemoração pode ou não ser violência, dependendo da relação;
- 41% não enxergam claramente como violência o controle das amizades da parceira;
- 42% consideram que controlar o salário da esposa pode não ser uma forma de abuso.
Já situações mais explícitas, como humilhar a companheira em público ou forçar uma relação sexual dentro do casamento, são reconhecidas como violência por mais de 90% dos participantes.
Segundo Margareth, esse cenário preocupa porque os primeiros sinais costumam surgir justamente por meio da violência psicológica e da violência patrimonial. Quando esses comportamentos são normalizados, o ciclo de abuso tende a se agravar antes que a vítima procure ajuda.

Quantas mulheres já sofreram violência de gênero?
Os relatos coletados no levantamento mostram a dimensão do problema. Entre as mulheres que responderam ao módulo específico da pesquisa, 74% afirmaram já ter vivido alguma situação de violência de gênero.
Os episódios mais frequentes foram:
- Insultos e xingamentos (59%), que afetam autoestima e saúde emocional;
- Ameaças de agressão física (45%), incluindo empurrões e chutes;
- Perseguição e intimidação (43%), que geram medo constante;
- Toques ou agarrões sem consentimento (38%), caracterizando violência sexual.
Os números revelam ainda situações mais graves. Uma em cada quatro mulheres relatou ter sido espancada ou sofrer tentativa de enforcamento. Além disso, 22% disseram já ter sido ameaçadas com armas ou facas.
Por que tantas vítimas ainda permanecem em silêncio?
A pesquisa também chama atenção para a chamada culpabilização da vítima. Para 61% dos entrevistados, muitos casos de violência contra a mulher seriam consequência de escolhas erradas na seleção de parceiros.
Essa percepção transfere a responsabilidade para quem sofre a agressão e ajuda a explicar outro dado alarmante: 37% das mulheres que enfrentaram episódios graves no último ano não tomaram nenhuma atitude.
A baixa confiança nas instituições também pesa. Apenas 19% das mulheres afirmam confiar muito na polícia para protegê-las. O sentimento de insegurança se soma ao medo, à culpa e à dificuldade de identificar formas de violência psicológica, fatores que frequentemente atrasam a busca por apoio.

O levantamento reforça a necessidade de ampliar o debate sobre violência de gênero, fortalecer políticas públicas e ampliar a conscientização sobre formas de abuso que ainda passam despercebidas. Para especialistas, reconhecer os sinais precocemente pode ser decisivo para interromper ciclos de violência antes que eles evoluam para situações ainda mais graves.
Resumo: Violência contra a mulher foi apontada por 61% dos brasileiros como a forma de criminalidade mais grave do país. A pesquisa mostra que 74% das mulheres já viveram alguma situação de violência de gênero. Casos de violência psicológica e patrimonial ainda são frequentemente minimizados pela população. O levantamento também revela altos índices de silêncio entre as vítimas e baixa confiança nas instituições de proteção.
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