Sorrir não deveria ser um privilégio, mas, para muitos, ter uma saúde bucal completa ainda é um luxo distante. Cruzando dados do Conselho Federal de Odontologia (CFO), Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) — IBGE em parceria com o Ministério da Saúde, um aparente paradoxo é detectado: o Brasil detém a maior densidade de dentistas do mundo, concentrando 20% dos profissionais da área e formando até 20 mil novos especialistas por ano.
No entanto, o volume recorde de profissionais não resolve a lacuna assistencial no país: cerca de metade dos brasileiros com mais de 60 anos nunca concluiu um tratamento odontológico, e até 15% dessa população jamais passou por uma consulta. O cenário de exclusão é precoce, atingindo mais de 50% das crianças até os 12 anos com cárie, doença classificada pela OMS como a mais prevalente e evitável do planeta.

Ações para suavizar esse problema têm sido conduzidas por profissionais que colocam o bem-estar da população como prioridade e se envolvem em iniciativas que buscam democratizar esse acesso. O dentista Dr. Felipe Rossi (foto) é um deles. Em 2016, ele esteve em Moçambique, onde pôde conhecer uma realidade de ausência quase total de assistência odontológica na região.
Determinado a fazer sua parte para contribuir com a mudança, fez nascer ali uma iniciativa que foi desenvolvida ainda mais em solo brasileiro e culminou com a criação da organização não governamental (ONG) Por1Sorriso, que completa 10 anos de atuação com um retorno a esta origem, realizando mais uma missão, desta vez em parceria com a ONG Missão África.
Nesta trajetória, a ONG já atendeu mais de 30 mil pessoas e realizou 100 mil procedimentos em 40 cidades de 10 estados brasileiros, além de missões internacionais no Quênia e em Moçambique. Com 16 ações programadas para este ano, a organização reforça o contraste da realidade brasileira: embora o país concentre um dos maiores números de dentistas do mundo, o acesso ao tratamento completo ainda é um privilégio distante para milhões de cidadãos.
“Existe no Brasil uma contradição: milhares de dentistas brasileiros são formados todos os anos, reunindo um dos maiores números de profissionais da área no mundo e ainda assim, existe uma parcela significativa da população que nunca teve acesso a um atendimento odontológico completo ou sequer a uma consulta básica”, afirma Rossi. “Em muitas regiões, tratar um dente ainda significa uma escolha! A pessoa precisa escolher entre cuidar da saúde ou garantir o que comer. A dor acaba virando rotina, a ausência dos dentes, se torna algo comum e o sorriso, aos poucos, deixa de existir”.
Sorrisos espalhados que fazem diferença

A Por1Sorriso leva para a população diversos tipos de tratamentos complexos, que na maioria das vezes, são inacessíveis a esse público por serem caros. O projeto conta com a atuação de profissionais especializados em diversas áreas da odontologia, como odontopediatras, endodontistas, protesistas, cirurgiões, periodontistas e especialistas em dentística.
A estrutura montada nos locais de atendimento precisa ser suficiente para a realização de procedimentos como restaurações, extrações, tratamentos de canal, raspagens periodontais, profilaxia (limpeza), exames radiográficos, escaneamento digital, confecção de próteses dentárias, além de orientação de higiene bucal.
Para viabilizar esse tipo de atendimento, a ONG opera com uma estrutura itinerante completa. A cada ação, são mobilizados de 30 a 60 voluntários, entre dentistas de diversas especialidades, protéticos e equipe de apoio. Cerca de 3 toneladas de equipamentos são transportadas para montar, em poucos dias, uma estrutura capaz de realizar desde atendimentos básicos até procedimentos mais complexos, incluindo tratamentos de canal e confecção de próteses dentárias.
Ao contrário de atendimentos pontuais, a proposta é que o paciente saia da ação com sua demanda resolvida ou significativamente avançada, algo ainda distante da realidade de muitas regiões. Esse crescimento trouxe também a necessidade de estrutura, já que em 2023, a Por1Sorriso passou a ser auditada, marcando um avanço importante na profissionalização da organização e reforçando o compromisso com transparência, governança e sustentabilidade das ações.
Hoje, a ONG se mantém por meio de uma combinação de apoio de empresas e doações de pessoas físicas, que viabilizam desde a compra de insumos até a logística necessária para levar atendimento a regiões de difícil acesso. Para organizações como a Por1Sorriso, ampliar essa disponibilidade de tratamentos significa não apenas tratar dentes, mas devolver qualidade de vida, autoestima e dignidade a quem, por anos, esteve à margem do sistema de saúde.
