O transtorno bipolar ainda é cercado por desinformação, julgamentos e estigmas sociais que dificultam o diagnóstico e o tratamento adequado. Muito além de simples mudanças de humor, a condição é considerada um transtorno mental crônico caracterizado por oscilações intensas entre episódios de depressão e fases de mania ou hipomania, que podem impactar diretamente a vida profissional, social e emocional do paciente.
Segundo a psicanalista Taty Ades, compreender o transtorno é o primeiro passo para combater o preconceito e ampliar o acesso ao cuidado. “O transtorno bipolar não é uma variação emocional comum do dia a dia. São alterações profundas de humor que duram dias ou semanas e interferem significativamente no funcionamento da pessoa”, explica.
De acordo com dados internacionais, cerca de 140 milhões de pessoas convivem com o transtorno bipolar no mundo. Apesar de não ter cura, a condição pode ser controlada com tratamento contínuo, geralmente baseado no uso de estabilizadores de humor, psicofármacos e psicoterapia, medidas fundamentais, inclusive, para reduzir o risco de suicídio associado à doença.
Sintomas e o que fazer para validar o diagnóstico
Os sintomas variam conforme a fase do transtorno. Nos episódios depressivos, é comum a presença de tristeza persistente, falta de energia, perda de interesse em atividades antes prazerosas, alterações no sono e no apetite e pensamentos negativos recorrentes. Já durante a fase maníaca ou hipomaníaca, podem surgir euforia intensa, irritabilidade, aumento exagerado de energia, fala acelerada, impulsividade e menor necessidade de dormir.
“O diagnóstico é clínico e deve ser realizado por um psiquiatra, a partir do histórico do paciente, do relato dos sintomas e da observação do padrão de humor ao longo do tempo. Não existe exame laboratorial capaz de confirmar o transtorno bipolar”, esclarece Taty Ades.
A especialista também destaca que um dos maiores equívocos é acreditar que o transtorno bipolar se resume a mudanças comuns de humor. “As oscilações são intensas e prolongadas, podendo durar dias ou semanas e comprometer a rotina, o trabalho e os relacionamentos”, afirma. Outro ponto frequentemente distorcido é a ideia de que não há tratamento eficaz. Pelo contrário: com acompanhamento adequado, muitas pessoas alcançam estabilidade emocional e qualidade de vida. “O tratamento precisa ser contínuo, inclusive quando o paciente está bem, porque o objetivo é prevenir novas crises”, explica.
Preconceito e pressão social podem agravar quadro
A psicanalista reforça ainda que associar o transtorno bipolar à periculosidade é um mito que reforça o estigma social. Segundo ela, a grande maioria das pessoas diagnosticadas não apresenta comportamento violento, e essa visão nasce principalmente da falta de informação e de representações equivocadas na mídia.
Da mesma forma, é incorreto acreditar que o diagnóstico impede uma vida normal. “Com tratamento, rotina estruturada e rede de apoio, muitos pacientes mantêm carreiras, relações afetivas saudáveis e uma vida produtiva”, destaca.
Outro preconceito recorrente é atribuir o transtorno à falta de força de vontade. A psicanalista enfatiza que se trata de uma condição médica legítima. “Não é escolha, fraqueza emocional ou falta de controle. Culpar o paciente só aumenta o sofrimento e atrasa a busca por ajuda profissional”, pontua.
Tratamento e debate sobre o problema geram evolução
Além do tratamento medicamentoso e da psicoterapia, hábitos de vida desempenham papel fundamental no controle da doença. Manter horários regulares de sono, cuidar da alimentação, reduzir o estresse, evitar álcool e drogas, identificar sinais precoces de crise e contar com apoio familiar e social são estratégias essenciais para a estabilidade emocional.
Para Taty Ades, ampliar o debate sobre saúde mental é indispensável para quebrar tabus e salvar vidas. “Quanto mais informação correta circula, menor é o preconceito. O transtorno bipolar não define quem a pessoa é. Com tratamento e acolhimento, é plenamente possível viver com equilíbrio, autonomia e qualidade de vida”, conclui.
