Aos 41 anos, Deborah Moraes carrega no olhar a força de quem decidiu reescrever a própria trajetória. A mãe do pequeno Felipe, de 8 anos, trocou a estabilidade do serviço público por uma vida no mar e, no caminho, encontrou mais do que uma nova profissão: descobriu propósito.
Criada em frente à praia, em São Sebastião, litoral de São Paulo, ela teve sempre o mar presente em sua vida. Mas foi apenas na fase adulta que ele se tornou destino. “Fui criada em frente à praia, então o mar sempre esteve presente na minha vida desde muito cedo. Mas foi apenas aos 33 anos que tive meu primeiro contato real com a navegação, ao entrar em uma lancha. E ali, algo mudou”, fala emocionada, durante uma entrevista exclusiva a Ana Maria Revista.
Até então, sua trajetória era outra. “Sempre trabalhei com vendas e com crianças, até ingressar no serviço público como secretária de escola. Era uma vida estável, segura, mas não era onde meu coração estava”. A mudança começou de forma silenciosa, dividida entre dois mundos. “Dos 33 aos 39 anos, tentei conciliar as duas profissões, vivendo entre a estabilidade e o que começava a se tornar uma paixão cada vez mais forte. Só que o mar foi literalmente me puxando, cada dia mais.”
Do luto à resiliência: a dor que virou força

A perda da mãe, há dois anos, foi o ponto de virada da hoje empresária. “Foi como se a vida me mostrasse que o tempo é agora e que eu precisava viver aquilo que realmente fazia sentido pra mim. Ali, a mudança deixou de ser uma possibilidade e tornou-se uma escolha definitiva”.
A relação com o mar também moldou a relação com o filho. “A primeira vez que subi em uma lancha, meu filho tinha apenas dois meses de vida. Desde então, o mar passou a fazer parte da nossa história, não só como trabalho, mas como transformação”. Em meio a desafios, Deborah enfrentou momentos delicados na maternidade. “Meu filho, que é autista, aos 6 anos passou por uma fase crítica onde se recusava a se alimentar e foi em uma visita à Marina, que ele voltou a comer e ter brilho nos olhos”, relembra.
O começo no universo náutico foi improvável, já que aconteceu durante a licença-maternidade. Ela produzia sabonetes artesanais e os vendia a hóspedes de um condomínio. “Entre esses hóspedes, conheci o Eric, que enxergou em mim um grande potencial de vendas. Ele tinha uma lancha parada e me propôs trabalhar com ela, recebendo uma porcentagem sobre os passeios. Eu aceitei, mesmo sem experiência no turismo náutico e me entreguei, com alma e coração”.
Do trabalho artesanal à ousadia de empreender

Com anúncios simples e muita dedicação, Deborah mergulhou de vez nesse novo mundo. Enquanto vendia os passeios, ela já estava completamente envolvida em toda a operação. Ajudava na captação de novas lanchas, participava dos embarques e acompanhava de perto a manutenção das embarcações. Observadora e esperta, ela começou a absorver informações sobre aquele mundo novo que tanto a encantava.
O passo seguinte foi inevitável. “Decidi me tornar marinheira de verdade. Busquei minha formação, enfrentei todo o processo e assumi essa responsabilidade com muita seriedade. Não foi algo rápido ou fácil, foi construído com prática, vivência e dedicação”.
Em um ambiente ainda predominantemente masculino, ela precisou enfrentar barreiras, mas a maior delas veio de dentro. “Existe sim um estranhamento inicial quando veem uma mulher como marinheira. Mas, na minha trajetória, posso dizer que recebi muito mais apoio do que preconceito. A maior barreira, na verdade, não veio de fora. Veio de mim mesma. O meu maior desafio foi acreditar que eu era 100% capaz”, revela.
Com o tempo, o reconhecimento veio. Depois da habilitação e muita experiência, ela decidiu investir na própria lancha e conseguiu. “Troquei um terreno pela minha embarcação própria e assim nasceu a Twister e hoje posso dizer que ela me traz muito mais do que retorno financeiro, ela me traz felicidade, propósito e realização”.
À frente da empresa Sinta o Mar, Deborah traduz em trabalho tudo o que viveu afirmando que não vende passeio e sim, experiência. “O mar é incrível, é curativo. E é isso que eu entrego para as pessoas. Seja em pedidos de casamento, aniversários ou momentos em família, cada detalhe carrega intenção”. Quando questionada sobre um conselho a quem lê esta matéria e quer empreender ou realizar um sonho, ela é enfática: “Acredite em você: a vida sempre surpreende quem segue com honestidade e fé no coração. Minha frase preferida hoje é: ‘Nunca subestime a mudança que Deus pode fazer na sua vida’ porque ele intercedeu na minha”, finaliza, com lágrimas nos olhos.
