Depois de emocionar plateias em Belo Horizonte e Brasília, Jeniffer Dias desembarca no Rio de Janeiro carregando na bagagem mais do que uma nova temporada teatral: traz consigo um projeto que une arte, memória e identidade. A atriz estreia, a partir de 19 de março, o espetáculo “Os Irmãos Timótheo da Costa”, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em uma fase que define como simbólica em sua trajetória.
Com uma carreira consolidada no audiovisual, Jeniffer celebra o retorno ao palco com entusiasmo e emoção. “Depois de tanto tempo emendando papéis no audiovisual, me sinto muito animada. Com aquele friozinho na barriga de quem vai estrear e passar uma temporada no teatro, a casa de todo artista… Ainda mais sendo na minha cidade”, afirma. Para ela, a estreia no Rio carrega um significado ainda mais especial por reunir público, amigos, família e comunidade.
A montagem lança luz sobre a história dos irmãos João e Arthur Timótheo da Costa, pintores fundamentais da arte brasileira que tiveram suas trajetórias apagadas ao longo do tempo, em grande parte devido ao racismo estrutural. Ao dar vida à pesquisadora Irene, Jeniffer assume também a missão de reconectar o público a essas narrativas invisibilizadas. “É uma história que eu mesma não conhecia, e que muita gente também não conhece. Tenho muita vontade de contar isso, de resgatar para que eles sejam lembrados por muito tempo”, destaca.
Mais do que interpretar uma personagem, a atriz encontra em Irene um reflexo de seu próprio propósito artístico. A personagem, uma pesquisadora e escritora, se debruça sobre a reconstrução da trajetória dos irmãos artistas, enfrentando as lacunas deixadas pela história oficial. “Olhar e reconhecer que essa narrativa se repete na construção do Brasil, forjado à base do apagamento, é o que me impulsiona a subir ao palco”, diz Jeniffer, que define a experiência como um encontro entre arte e posicionamento.
O processo de construção da personagem também revela uma conexão antiga e profunda. “Esperei e desejei Irene por muito tempo. Ela é uma mulher apaixonada e comprometida com o resgate das memórias do povo preto. Contar nossas histórias sob a nossa própria perspectiva sempre foi um desejo meu”, afirma.
Com direção de Luiz Antonio Pilar e dramaturgia de Claudia Valli, o espetáculo aposta na fusão entre teatro e música para reconstruir, entre silêncios e lacunas, a trajetória dos artistas na Belle Époque carioca — período marcado por intensas contradições sociais.
Frequentadora assídua do CCBB, Jeniffer também celebra o espaço que agora a recebe como protagonista. “É um lugar que eu adoro, que frequento. Vai ser muito gostoso viver essa temporada ali”, comenta.
Em cartaz até o dia 19 de abril, com sessões de quinta a segunda, a expectativa é repetir o sucesso das temporadas anteriores, que conquistaram o público a ponto de levá-lo de volta ao teatro. “A gente espera que o público retorne, compartilhe suas impressões. O boca a boca é fundamental”, ressalta a atriz.
Com uma trajetória marcada pela versatilidade, Jeniffer Dias transita entre diferentes linguagens artísticas. Formada pela Escola Sesc de Teatro e pela Escola de Atores Wolf Maya, ela acumula trabalhos relevantes na televisão, no cinema e na música, além de atuar como diretora e produtora. Fora dos palcos, também reafirma sua conexão com a cultura popular como musa da Estação Primeira de Mangueira.
Para a atriz, no entanto, o espetáculo ultrapassa os limites da cena e se estabelece como um gesto de resistência e memória. “Este trabalho é uma ode ao nosso não esquecimento. Ele carrega o fundamento de Sankofa e tem uma relevância que vai além do teatro. O caminho ainda é longo, mas é uma honra fazer parte desse movimento”, conclui.
