Dormir é uma necessidade vital, mas também um dos assuntos mais cheios de mitos quando se fala em saúde. Entre eles, um dos mais comuns é acreditar que “pegar no sono rápido” significa ter uma boa noite de descanso. Na prática clínica, vemos justamente o contrário: quando alguém relata adormecer em segundos assim que encosta a cabeça no travesseiro, isso pode ser sinal de que o organismo está em débito de sono — e não de que o descanso está em dia.
O que acontece no corpo quando dormimos
O sono é dividido em ciclos que se repetem ao longo da noite, alternando fases leves, profundas e o sono REM, responsável pelo processamento da memória e pela regulação emocional. Para iniciar esse processo, o corpo naturalmente leva alguns minutos para relaxar, reduzir o ritmo cardíaco, desacelerar a respiração e liberar hormônios que induzem o sono. Esse período de transição costuma durar de 10 a 20 minutos.
Se o adormecer acontece em segundos, é como se o corpo estivesse “desligando à força”, o que pode indicar privação crônica de sono ou até distúrbios como apneia, insônia de manutenção e síndrome das pernas inquietas.
O mito do “bom de cama”
É comum ouvir frases como “durmo em qualquer lugar, a qualquer hora, e isso é ótimo”. Mas essa facilidade pode ser um alerta de que o organismo não está conseguindo manter a energia ao longo do dia, recorrendo ao sono como válvula de escape. Muitas vezes, pacientes que relatam isso também sentem:
- Cansaço ao acordar, mesmo após horas na cama.
- Dores de cabeça matinais.
- Sonolência excessiva durante o dia.
- Alterações de memória e concentração.
Grande parte dos distúrbios está relacionada a problemas respiratórios.
Desvio de septo, hipertrofia de cornetos nasais(carne esponjosa), hipertrofia de amigdalas, excesso de tecido na garganta, entre outras alterações, podem levar a apneia obstrutiva ou síndrome da resistência da via aérea superior que são condições que atrapalham o fluxo de ar e reduzem a oxigenação durante a noite, levando o corpo a “compensar” com um sono aparentemente profundo e rápido, mas pouco restaurador.
Como saber se você está dormindo bem
Mais do que a rapidez para adormecer, alguns sinais valem mais como parâmetros de qualidade:
- Acordar descansada e disposta.
- Ter energia para o dia sem sonolência excessiva.
- Não apresentar despertares frequentes.
- Manter boa concentração e humor ao longo da rotina.
O que fazer se o alerta acendeu
Se você se identifica com o perfil de “dormir em segundos”, é importante procurar um especialista. Exames simples, como a polissonografia, podem mostrar se há apneia ou outros distúrbios que comprometem a qualidade do sono. Além disso, manter hábitos de higiene do sono — como reduzir o uso de telas à noite, criar um ambiente escuro e silencioso e manter horários regulares para dormir e acordar — pode fazer toda a diferença.
Dormir rápido demais não é sinal de sono saudável. O corpo precisa de um tempo natural para transitar entre a vigília e o repouso. Portanto, se você “apaga” todos os dias em questão de segundos, pode estar na hora de investigar se o seu sono está realmente cuidando da sua saúde.
Dr. Bruno Borges de Carvalho Barros
Médico otorrinolaringologista pela UNIFESP
Professor Medcel de pós-graduação pela UNIFESP.
Especialista em otorrinolaringologia pela Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e cirurgia cervico-facial.
Mestre e fellow pela Universidade Federal de São Paulo.
https://www.instagram.com/dr.brunobarros/