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Roupas que acolhem: o caminho para um vestir mais leve na infância

Priscila Correia Por Priscila Correia
12/04/2026 - Atualizado em 13/04/2026
Em Coluna Aventuras Maternas
Crédito: Malwee

Crédito: Malwee

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Escolher a roupa de uma criança pode parecer simples, mas, muitas vezes, o que eles vestem faz toda a diferença na forma como vivem o dia. Tecidos que pinicam, etiquetas que incomodam, peças com cortes diferentes ou sapatos que apertam podem transformar momentos de brincar, estudar , viajar ou ate ficar em casa em experiências desconfortáveis.  Por isso, cada vez mais famílias têm priorizado roupas que respeitem a liberdade de movimento e o bem-estar infantil.

Nesse processo, ouvir as próprias crianças pode ser um passo importante. Afinal, ao participar dessa escolha, elas não apenas expressam preferências, cores e estilos, mas aprendem a reconhecer o que  lhes faz bem ou não. Ou seja, mais do que uma questão estética, permitir essa participação pode fortalecer a autonomia e favorecer um vestir leve e sem amarras. Na Camu Camu, por exemplo, embora as coleções sejam criadas a partir do histórico de vendas, tendências de moda e comportamento do público infantil, a opinião dos pequenos é fundamental. “Se algo passou despercebido durante o desenvolvimento, é corrigido no momento da prova para produção do catalogo, onde temos 10 crianças experimentando e trocando ideias sobre todas as peças”, conta Josiane Scudeler, que é diretora de marketing e uma das sócias da marca.

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Essa semana, vamos conversar com marcas infantis para saber o que têm feito para tornar o vestir das crianças mais confortável e respeitoso. Além disso, uma especialista vai falar sobre como diminuir o incomodo das roupas em crianças com TPS (Transtorno de Processamento Sensorial).

Conforto acima de tudo

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Quando o assunto é roupa infantil, o conforto deveria ser a primeira preocupação. Peças adequadas permitem que a criança se movimente com liberdade, brinque, explore o ambiente e participe de diferentes atividades sem incômodos ou distrações. Mais do que uma escolha prática, vestir-se com conforto contribui para o bem-estar, autonomia e até para a forma como a criança se relaciona com o próprio corpo e com o mundo ao seu redor.

Claudia Barreto, mãe de Luiza e Antonio, de 9 e 11 anos, conta que, desde muito cedo, os filhos escolhem as próprias roupas. “Depois da fase das roupas de princesas e heróis, que normalmente são de tecido sintético, eles mudaram o padrão. Só querem peças frescas e larguinhas, que facilitem na hora de brincar. De tempos em tempos, levo os dois ao shopping e deixo que escolham. Se pegam algo que percebo que abafa, tipo poliéster, explico porque não é legal e sugiro algo em algodão. E eles sempre acabam gostando depois de experimentar”, lembra.

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Para Josiane, o conforto deve estar em todas as etapas do processo, começando pela escolha da matéria prima. “Tecidos de fibra natural como algodão, viscose ou mistos (algodão+linho+viscose), determinam 100% da coleção. Já as fibras de poliéster são inaceitáveis para vestir crianças num país tropical como o Brasil”, avalia. Quanto às modelagens, ela aposta nas mais amplas, com ajustes por elásticos revestidos que se adequam a diversos biotipos sem apertar ou pinicar e shortinhos acoplados às saias curtas para não limitar os movimentos”. Além disso, Josiane levanta um “detalhe” importante: tanto por uma questão de conforto quanto de economia e sustentabilidade, uma mesma peça precisa servir para diferentes ocasiões e temperaturas. “Mesmo um vestido da linha festa precisa se adaptar a uma ida ao cinema, trocando os acessórios. Um vestido de alças pode ser combinado com um casaco ou jaqueta, caso a temperatura baixe.  Toda a coleção é pensada para que as peças combinem entre si e que sejam confortáveis para que as crianças gostem de repetir os looks”.

Na AKR Brands, holding de moda masculina que engloba a infantil King&Joe Play, o bem-estar é sempre o ponto de partida. “Se a peça não cumpre esse papel, ela simplesmente não faz sentido. A partir disso, buscamos um equilíbrio natural entre estética, tendências e funcionalidade, entendendo que o design deve, antes de tudo, servir à criança. Isso significa criar roupas que acompanhem seus movimentos, despertem sensações positivas e respeitem sua rotina, sem abrir mão de informação de moda e identidade visual. Aqui, a tendência só entra quando faz sentido na prática, nunca como prioridade isolada”, pontua Fabiano Grassi, que é coordenador de estilo da marca.

Não podemos, é claro, esquecer dos calçados. Na KLIN Calçados, cada coleção nasce a partir de um olhar atento para o crescimento saudável dos pés infantis, respeitando as diferentes fases da infância e as necessidades específicas de cada faixa etária. “Essa premissa se traduz em escolhas técnicas fundamentais, como o uso de materiais leves e flexíveis, solados que acompanham o movimento natural dos pés e modelagens que oferecem confiança e estabilidade sem restringir a liberdade das crianças. Além disso, contamos com certificações que reforçam nossa expertise em calçar o público infantil, assegurando que cada produto contribua para um caminhar mais saudável, como a certificação do  IBTeC (Instituto Brasileiro de Tecnologia  do Couro, Calçados e Artefatos) para  fortalecer os atributos de  qualidade e tecnologia que nos diferenciam no mercado”, comenta Fabiana Zancan, Gestora de Produtos da empresa.

Já para a escola, quando a instituição não exige uniforme, também é possível apostar em peças que tenham a cara dos filhos. Segundo Alessandra Müller Schmidt, Gerente de Produto de Marcas Infantis Grupo Malwee, peças básicas ganham protagonismo no guarda-roupa infantil nesse momento, pois, além de dialogarem melhor com o ambiente escolar, se destacam pela versatilidade. “É essencial pensar em conforto, durabilidade e versatilidade. Criança precisa se movimentar livremente, então malhas macias, modelagens que não apertam e roupas fáceis de vestir fazem toda a diferença. Também recomendo apostar em peças básicas, que combinem entre si e resistam bem às lavagens frequentes.”. Ela sugere, por exemplo, peças curinga, como a camiseta básica de algodão, pois ela combina com tudo, funciona em qualquer estação e garante conforto o dia inteiro.

Quando a escolha não é apenas opção

Enquanto algumas crianças optam por determinadas peças pela estética e/ou proporcionar movimentos livres, outras precisam “escolher” um vestuário especifico por apresentarem maior sensibilidade a texturas, costuras ou materiais, como acontece em casos de Transtorno do Processamento Sensorial e outras condições que podem tornar o ato de vestir uma fonte de incômodo.

Margarete Rampinelli Knopp Quiroga, que tem pós-graduação em Neuropsicologia e é coordenadora de projetos educacionais da Educação Adventista no Vale do Paraíba, explica que no TPS, especificamente na hipersensibilidade tátil, o cérebro interpreta estímulos leves como ameaçadores ou dolorosos. “Isso transforma o ato de se vestir em um desafio de autorregulação. A criança pode gastar tanta energia tentando suportar o toque de uma meia ou de uma calça rígida, que acaba ficando exausta emocionalmente antes, mesmo de começar as atividades do dia”, diz. Pelo desconforto experimentado, a criança pode desenvolver uma aversão extrema a certas peças, recusar-se a calçar sapatos ou meias e apresentar crises de choro ou irritabilidade intensa durante as trocas de roupa. “Para ela, o toque de uma costura pode ser sentido como um corte, e uma etiqueta pode gerar a mesma sensação de um espinho constante na pele”, complementa.

A escolha de materiais e o design das peças de roupa é fundamental para a autorregulação de crianças com TPS. “Quando há hipersensibilidade tátil, o sistema nervoso interpreta estímulos comuns, como o atrito de uma etiqueta ou a rigidez de um tecido, como sinais de alerta ou dor, o que gera estresse e cansaço cognitivo. Para garantir o conforto sensorial, a prioridade deve ser a redução de estímulos táteis aversivos e a promoção de uma sensação de suavidade e previsibilidade no contato com a pele”, pontua Margarete. Na prática, devem ser evitadas fibras sintéticas, como poliéster, nylon e acrílico, que tendem a ser menos respiráveis e podem causar coceira ou sensação de “pinicar”. Texturas irregulares, como lãs ásperas, jeans muito rígidos, rendas, lantejoulas e bordados internos, não devem entrar em contato direto com a pele. Além disso, fuja de pontos de pressão e atrito, como etiquetas internas (especialmente as de nylon), costuras grossas ou salientes, elásticos muito apertados em punhos e cinturas, e botões metálicos que podem estar frios ou causar pressão. “A recomendação técnica é buscar materiais de fibras naturais e acabamentos que minimizem o relevo interno das peças”, sugere.

Para os pais que pensam em envolver o filho na escolha das roupas, algumas estratégias podem ser eficazes, mas sempre realizadas de forma gradual e respeitosa, e buscando a validação das sensações da criança. “Antes de comprar, peça para a criança passar a mão no tecido e verificar se “combina” com a pele dela. A parte interna do braço e a pele do pescoço podem ajudar nessa percepção ao toque. Em vez de abrir o armário todo, ofereça duas opções aceitáveis, que você já saiba que são confortáveis, e deixe que ela decida a cor ou o modelo. Isso gera senso de controle. Se a criança diz que algo dói ou incomoda, valide essa sensação. Forçar o uso aumenta o estresse e a desconfiança. Acolher essa percepção e respeitar o “não”, ao contrário, fortalece a confiança e a segurança emocional”, sugere Margarete, lembrando, também, que deve-se lavar as roupas novas várias vezes antes do primeiro uso para amaciar as fibras e remover gomas químicas do tecido.

É preciso dizer, ainda, que o desconforto com roupas pode gerar uma sobrecarga cognitiva, afetando o comportamento, o aprendizado e até a socialização da criança. “Se o cérebro da criança está ocupado tentando processar e “suportar” o incômodo de uma etiqueta ou de uma meia apertada, sobra pouca energia para as demandas próprias do ambiente escolar”, avalia Margarete, que continua: “No aprendizado, a atenção fica fragmentada. A criança não consegue focar na explicação do professor porque o cérebro prioriza o sinal de “alerta” enviado pela pele. No comportamento, o acúmulo de estresse sensorial pode levar a explosões emocionais por pura exaustão sensorial. E em relação à socialização, a criança pode se isolar ou evitar interações físicas com colegas para não sentir o atrito da roupa ou toques inesperados que aumentem seu desconforto”.

E, atenção: caso a criança não verbalize o desconforto, os pais podem ficar atentos a alguns sinais. Abaixo, Margarete elenca alguns comportamentos que mostram esse incômodo:

  • Inquietude motora excessiva: a criança parece não encontrar uma posição confortável ou se mexe excessivamente;
  • Tentativas de remoção: puxar a gola, tirar os sapatos ou desabotoar peças constantemente;
  • Irritabilidade súbita ou “birras: mudanças de humor ou crises de choro logo após vestir determinada peça;
  • Coçar a pele com frequência em locais de contato com elásticos ou costuras;
  • Evitação de atividades ou isolamento social: recusa em participar de brincadeiras que envolvam texturas, como se sentar na grama ou no tapete, para evitar o atrito da roupa;
  • Mudança na postura ou no jeito de caminhar. pode, por exemplo, andar nas pontas dos pés para evitar o contato total com o calçado.

Direto ao Ponto

Saber como são feitas as roupas que nossos filhos usam é uma curiosidade para muitas mães. A seguir, Fabiano Grassi, Josiane Scudeler e Fabiana Zancan contam um pouco mais sobre a parte criativa desse processo.

Aventuras Maternas – Há algum tipo de pesquisa com crianças na hora de desenvolver as peças? Se sim, como acontece?
Fabiano Grassi –
 Sempre colhemos feedback tanto de consumidores da marca (nesse caso temos mais acesso aos responsáveis das crianças) quanto de lojas clientes da marca e nossos representantes. A partir desses feedbacks, por exemplo, a coleção vai ganhar uma nova linha direcionada especificamente para os pequenos de 1 a 6 anos de idade, com matérias primas, acabamentos e linguagem visual, direcionada para esse público.

Fabiana Zancan – Na Klin, o desenvolvimento dos produtos inclui testes de campo com crianças, uma etapa essencial do nosso processo de validação. Levamos os calçados para o uso real no dia a dia, acompanhando momentos de brincadeira, movimento e rotina, com o objetivo de observar seu desempenho em situações concretas de uso. Nessa fase, avaliamos aspectos como conforto, ajuste, flexibilidade e resistência, sempre considerando a espontaneidade e a intensidade próprias da infância. Esse contato com a experiência real das crianças é fundamental para garantir que nossos produtos atendam não apenas a critérios técnicos, mas também às necessidades práticas do universo infantil, proporcionando um caminhar saudável.

Aventuras Maternas – Como equilibrar estética, tendências e funcionalidade sem comprometer o bem-estar da criança? 

Josiane Scudeler – Compreendendo o universo infantil. Adultos aceitam usar um sapato lindo, mesmo que os saltos incomodem durante uma festa inteira. Crianças não admitem isso. Adultos aceitam usar tecidos ou peças mais apertadas ou inadequadas para temperatura por se sentirem mais elegantes com elas. Crianças não aceitam nada disso. Elas são autênticas e não abrem mão do conforto e da liberdade de correr e brincar. Cabe a nós, enquanto marcas e criadores, observar o comportamento de toda essa geração incrível de crianças e criar a partir do comportamento delas. E para elas.

Aventuras Maternas – Existe uma preocupação com autonomia da criança para ela mesma se vestir e escolher suas roupas? 

Fabiana Zancan – Sim, essa é uma preocupação muito presente em nosso desenvolvimento. Entendemos que a autonomia é parte importante do crescimento infantil, e que o produto pode ser um facilitador relevante nesse processo. Por isso, desenvolvemos soluções práticas que incentivam a independência da criança, como fechamentos fáceis de manusear, entre eles: velcros, elásticos e modelagens que facilitam o calçar. O objetivo é permitir que a própria criança consiga se calçar sozinha, com mais segurança, naturalidade e sem frustrações. Mais do que uma questão funcional, acreditamos que promover essa autonomia também fortalece a confiança e contribui para o desenvolvimento infantil de forma positiva.

 

 

Tags: moda infantilRoupa infantilTranstorno de Processamento Sensorial
Priscila Correia

Priscila Correia

Priscila Correia (@aventurasmaternas) é jornalista, casada e mãe de 2 meninos, Theo e Benjamin. Autora de livros infantis, adora viajar e escrever sobre educação e saúde. Tem diagnóstico de Superdotação, assim como seus dois filhos, e gosta de falar sobre o assunto. É colunista da AnaMaria Digital, onde compartilha matérias sobre maternidade, infância e adolescência.

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