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Quando a infância vira agenda

Priscila Correia Por Priscila Correia
15/03/2026 - Atualizado em 17/03/2026
Em Coluna Aventuras Maternas
Agda e a filha

Agda e a filha

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Acordar, ir para a escola, voltar para casa, almoçar, assistir TV ou ler um livro, tirar uma soneca e depois se preparar para jantar e dormir. O que era comum há alguns anos mudou drasticamente, especialmente na última década. Agora, a rotina de muitas crianças inclui mochila nas costas para a escola; roupa de banho ou uniforme para esportes em uma bolsa separada, além de lanches diversos para serem consumidos ao longo do dia; livros e cadernos para aulas de línguas, música, artes e outras atividades. E assim, com tantos compromissos, a infância vai dando lugar a uma agenda cheia de segunda a sexta-feira.

Há crianças que gostam de tantas atividades; outras preferem um pouco mais de tempo livre. Já os pais, que cresceram em um tempo com agendas mais soltas, ficam na dúvida se estão exagerando na quantidade de cursos, esportes e oficinas que prometem ampliar repertórios e preparar os filhos prara o futuro, ou se deveriam incentivar mais o ócio — esse tempo aparentemente improdutivo, mas essencial para a criatividade e a construção da autonomia.

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É inegável que as atividades extracurriculares trazem benefícios. Elas estimulam disciplina, ampliam a socialização, fortalecem o corpo e desenvolvem diferentes habilidades. Por outro lado, esse excesso de compromissos pode gerar ansiedade, privação de sono, irritabilidade, entre outras consequências.

Para a psicóloga Graziela Campos, “quando falamos de um excesso de atividades na agenda das crianças, podemos pensar em como isso afeta nós, adultos. Por exemplo: como ficamos quando estamos lotados de compromissos, exigências e prazos — que acabam ficando curtos por conta da demanda — para cumprir? Cansados, estressados, ansiosos, irritados… As crianças também podem se sentir assim, com a diferença de que nós, adultos, possuímos ferramentas que podem nos ajudar a nos regular emocionalmente, enquanto as crianças ainda não conseguem acessar essas ferramentas. Enquanto nós temos a oportunidade de diluir esses pesos causados pelo excesso de atividades, as crianças ainda não possuem”.

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Na coluna de hoje, vamos mostrar que não há fórmula pronta dizendo quantas e quais atividades extracurriculares crianças e adolescentes devem fazer. Entretanto, há, sim, a necessidade de observar idade, temperamento, interesses e, principalmente, limites.

Como escolher o que o filho deve fazer

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Em busca de ampliar oportunidades de aprendizado e desenvolvimento, muitas famílias acabam preenchendo a rotina de crianças e adolescentes com diversas atividades extracurriculares. Esportes, aulas de idiomas, música, reforço escolar e outras práticas podem ser importantes para estimular habilidades e interesses, mas, quando em excesso, acabam gerando cansaço, estresse e falta de tempo para descanso e lazer. Diante desse cenário, cabe aos pais avaliar com atenção a real necessidade de cada atividade, considerando o interesse dos filhos, o equilíbrio da rotina e a importância de preservar momentos de lazer e convivência familiar.

Danielle Blaskievicz, mãe de Augusto, de 11 anos, e Rafael, de 14, conta que, para escolher as atividades extracurriculares dos filhos, leva em consideração alguns pontos. “Para definir, a conta que fazemos em casa é ver se envolve questões importantes para uma formação integral como cidadãos: desenvolvimento intelectual, espiritual, social e esportivo. Isso tudo aliado aos interesses dos meninos, à disponibilidade logística da família — levar, trazer etc. — e ao fato de que as escolhas deles estejam alinhadas às nossas”, conta.

Entretanto, essa conta nem sempre fecha. “De nada adianta eu querer que o Rafael faça voluntariado se ele não quer ou não vê como prioridade. Se eu insistir, será só um motivo de estresse para ambos”, pontua.

Já Fernanda Brandão, mãe de Cecília, de dois anos e meio, conta que procura observar muito o interesse da filha e respeitar o momento da infância. “Acredito que atividades extracurriculares podem ser muito positivas para o desenvolvimento, tanto físico quanto social, mas não devem virar uma obrigação ou uma agenda tão cheia quanto a de um adulto. Então, a decisão passa muito por três fatores: o interesse dela, o que faz sentido para a idade e o que é possível dentro da nossa rotina familiar. Como mãe que trabalha e empreende, eu também preciso garantir que a rotina seja sustentável para todos”, explica.

Para ela, hoje existe uma tendência de colocar as crianças em muitas atividades para “prepará-las para o futuro”, mas às vezes esquecemos que elas ainda estão vivendo a infância. “Aqui em casa, o principal critério é o interesse dela e o que realmente contribui para o desenvolvimento. Claro que a logística da família também pesa, porque a rotina precisa funcionar, mas eu procuro sempre me perguntar: isso está fazendo bem para ela ou estamos fazendo porque parece que todo mundo faz?”, avalia.

Agda Dias, mãe de Amora, de 10 anos, que tem paralisia cerebral, conta que a rotina da filha se divide entre terapias de estimulação para melhorar o desenvolvimento em geral e atividades que a “deixem” ser criança.

“Quando ela era menor, o foco era nas terapias. Conforme foi crescendo, a escola passou a ser prioridade, mas é sempre um quebra-cabeça montar a agenda, já que ela não pode ficar sem fisioterapia, por exemplo, por conta do risco de danos ortopédicos. Hoje, Amora já tem seus próprios interesses e sente mais o cansaço das aulas na escola. Então, optamos por ficar somente com as terapias às quartas, sem colégio.”

A decisão de tirar um dia da semana da escola veio exatamente por perceber essa sobrecarga e a necessidade de um tempo livre. “Sempre faço essa revisão na agenda. Quando ela estudava todos os dias, percebia que ficava muito irritada, apática, sempre nervosa. Mesmo sendo não verbal, ela se expressa muito bem. E foi realmente o melhor caminho. O corpo dela precisava desse descanso, já que, naturalmente, gasta mais energia que uma criança típica devido à movimentação involuntária”, completa.

Para Graziela, quando entra em um estado de ócio, a criança tende a criar cenários que a transportam para um lugar divertido e criativo. “Essa independência traz para ela a autonomia de, mesmo sem determinadas ocupações, conseguir se expressar”, explica.

Fernanda concorda e pontua que, hoje, falamos muito sobre estímulo, desenvolvimento e atividades, mas às vezes esquecemos que é no tempo livre que a criança cria, imagina e simplesmente brinca. “O ócio também é um momento de descanso mental, algo que nós adultos muitas vezes perdemos.”

Para Danielle, embora os filhos possuam rotinas agitadas, é importante que tenham tempo para não fazer nada. “Rafael tem todas as segundas e quartas à tarde livres. Augusto fica livre às quintas. Acho que o ócio é fundamental. Eles são adolescentes e precisam curtir essa fase.”

E atenção: o excesso de atividades pode estar associado a quadros de ansiedade infantil. “Essa relação tem como base a pressão que a criança pode vivenciar para que o cumprimento das atividades aconteça de maneira mais elaborada do que a idade permite; o desenvolvimento da necessidade de agradar os adultos ao redor, tentando concluir as atividades dentro de um caminho perfeccionista; e o próprio cansaço, que pode despertar um comportamento ansioso”, conclui Graziela.

 

Equilíbrio entre o que acontece na escola e fora dela

No processo de desenvolvimento de crianças e adolescentes, a escola tem um papel central ao oferecer não apenas o aprendizado acadêmico, mas também oportunidades de convivência, socialização, desenvolvimento físico e construção da autonomia. É neste ambiente que muitas habilidades começam a ser estimuladas de forma estruturada, com acompanhamento pedagógico e respeito ao ritmo de cada estudante. Por isso, alguns pais podem se questionar se é preciso que os filhos tenham uma rotina com muitas atividades fora.

Para Daniela Cabrera, coordenadora da Educação Infantil do colégio ARBOS, as atividades extracurriculares podem ser muito positivas para o desenvolvimento infantil quando acontecem de forma equilibrada e respeitando o tempo da criança. Esportes, música, artes ou línguas podem ampliar repertórios culturais, favorecer o desenvolvimento motor, estimular habilidades sociais e permitir que a criança descubra novos interesses. No entanto, é importante lembrar que, na infância, a principal forma de aprendizagem é o brincar. “Por isso, as atividades estruturadas não devem ocupar todo o tempo da criança. O cotidiano infantil precisa incluir momentos de descanso, brincadeiras livres, convivência familiar e tempo para simplesmente explorar o mundo ao seu redor. Quando as atividades são escolhidas com escuta e sensibilidade às necessidades da criança, elas podem enriquecer a experiência infantil. Mas quando se tornam uma agenda excessivamente cheia, correm o risco de transformar a infância em uma rotina de compromissos semelhante à dos adultos”, comenta.

Já Rosana Rodrigues, que é coordenadora do Ensino Fundamental I também do colégio ARBOS, comenta que do ponto de vista científico, sabe-se que o desenvolvimento ocorre nas interações com o ambiente cultural. “Lev Vygotsky já demonstrava que a criança aprende e se desenvolve justamente ao participar de práticas sociais diversas. Ao frequentar diferentes espaços de aprendizagem, ela amplia formas de expressão, experimenta desafios e fortalece competências importantes como cooperação, persistência e autonomia. No entanto, é fundamental que essas experiências convivam com outros tempos igualmente essenciais da infância. Uma agenda cheia não significa necessariamente uma infância mais rica. O desenvolvimento infantil precisa de experiências, mas também de tempo para elaborá-las”.

O equilíbrio, claro, é sempre a melhor opção. Mas será que existe uma quantidade de cursos considerada ideal por faixa etária? Para Bruna Duarte Vitorino, pedagoga e especialista em educação na rede Kumon, não existe uma quantidade ideal de cursos que sirva para todas as crianças, porque cada uma tem um ritmo, interesses e níveis de energia diferentes. O mais importante é observar se a rotina está equilibrada e se a criança consegue participar das atividades com interesse, sem demonstrar sinais de cansaço ou sobrecarga. “De modo geral, especialmente nas idades menores, é recomendável priorizar poucas atividades e garantir que a criança ainda tenha tempo para brincar, descansar e conviver com a família. O tempo livre também é essencial para o desenvolvimento da criatividade, da autonomia e da capacidade de explorar o próprio interesse. Mais do que a quantidade de cursos, o ideal é pensar na qualidade da rotina: atividades que façam sentido para a criança, que sejam compatíveis com sua idade e que permitam manter hábitos saudáveis de estudo, descanso e lazer”. E Vera Schwarz, que é pedagoga e coordenadora de Educação Infantil, faz um alerta importante sobre crianças que ficam período integral na escola: “Precisamos estar atentos e conhecer o ritmo e as necessidades de cada criança, para que as atividades sejam prazerosas após um dia intenso e que as escolhas e a quantidade não as sobrecarreguem. O mais comum é que tanto as crianças quanto os pais decidam por 2 atividades por semana, no máximo”.

Rosana levanta, ainda, outro ponto essencial: a importância do ócio e como esse tempo é extremamente importante para o desenvolvimento infantil. “Diferentemente do que muitas vezes se imagina, o tempo livre não representa ausência de aprendizagem. Na verdade, ele é um espaço privilegiado para o desenvolvimento da criatividade, da imaginação e da autonomia”, diz. Ela explica que é no brincar espontâneo que a criança constrói experiências fundamentais para seu desenvolvimento emocional e simbólico. “Durante esses momentos, a criança inventa histórias, cria jogos, experimenta papéis e organiza internamente aquilo que viveu. A neurociência tem mostrado que o cérebro precisa de períodos de pausa para consolidar aprendizagens. O tempo “livre” não é um tempo perdido. Muitas vezes é justamente nesse tempo que o cérebro e a imaginação fazem o trabalho mais profundo de aprendizagem”, avalia. “É necessário ter um equilíbrio entre estímulos, descanso e a liberdade para brincar”, complementa Vera.

Direto ao ponto

A seguir, Daniela Cabrera, Rosana Rodrigues, Bruna Duarte Vitorino e Graziela Campos respondem algumas questões sobre o tema.

Aventuras Maternas – Como equilibrar atividades estruturadas, tempo livre e o uso de telas?

Rosana Rodrigues – Esse dilema é bastante comum na vida contemporânea porque as telas oferecem uma solução rápida para ocupar o tempo, enquanto as atividades estruturadas parecem, para muitas famílias, uma alternativa mais produtiva. No entanto, o equilíbrio não está em substituir a tecnologia por uma agenda cheia de cursos, mas em organizar a rotina da criança de forma intencional. Atividades estruturadas podem enriquecer o desenvolvimento quando dialogam com os interesses da criança e ampliam seu repertório de experiências. Ao mesmo tempo, é importante que a tecnologia não ocupe o centro da rotina infantil. À medida que as crianças crescem, os recursos digitais podem inclusive contribuir para a aprendizagem e para o acesso à informação, desde que seu uso seja mediado pelos adultos, com critérios claros de tempo e atenção aos conteúdos acessados. Assim, mais do que escolher entre cursos ou telas, o desafio das famílias é organizar uma rotina em que diferentes experiências tenham espaço, combinando atividades orientadas, interesses pessoais, convivência familiar e uso consciente da tecnologia.

Aventuras Maternas – Como os pais podem identificar se a criança está sobrecarregada e quais sinais comportamentais ou escolares costumam aparecer?

Bruna Duarte Vitorino – Alguns sinais podem indicar que a criança está com a rotina sobrecarregada. Entre os mais comuns estão cansaço frequente, irritabilidade, falta de interesse por atividades que antes eram prazerosas e dificuldade para manter a concentração. Também podem surgir resistência para ir às atividades ou maior necessidade de descanso. No ambiente escolar, isso pode aparecer na forma de queda no rendimento, dificuldade para acompanhar as tarefas ou falta de motivação para estudar. Em alguns casos, a criança também pode demonstrar ansiedade ou frustração quando percebe que não consegue dar conta de tudo. Por isso, é importante que os pais estejam atentos ao comportamento no dia a dia e conversem com a criança sobre como ela se sente em relação à rotina. Ajustar a quantidade de compromissos e garantir momentos de descanso, lazer e estudo com tranquilidade ajuda a manter uma rotina mais saudável e equilibrada.

Daniela Cabrera – As crianças costumam demonstrar sinais quando estão com a rotina excessivamente exigente. Alguns indicadores que merecem atenção são irritabilidade ou cansaço frequente; resistência para ir às atividades; mudanças no sono ou no apetite; maior sensibilidade emocional ou choro frequente; queda no interesse por brincadeiras que antes gostava; dificuldade de concentração ou maior agitação na escola. Nem sempre esses sinais aparecem de forma clara, por isso o diálogo com a criança e a parceria com a escola são fundamentais. Muitas vezes, ao reorganizar a rotina e diminuir a quantidade de compromissos, já é possível perceber uma mudança positiva no bem-estar da criança.

Aventuras Maternas – O tempo de ócio é realmente importante para a aprendizagem? Por quê?

Daniela Cabrera – Sim, o tempo de ócio é essencial para o desenvolvimento infantil. A criança cria histórias, experimenta papéis, resolve pequenos problemas, desenvolve autonomia e exercita a criatividade, favorecendo a autorregulação emocional e a capacidade de lidar com frustrações. Além disso, o cérebro infantil precisa de pausas para organizar as experiências vividas favorecendo o aprendizado.

Aventuras Maternas – Muitos pais acreditam que quanto mais atividade, melhor. Outros que não adianta tanta atividade se não houver a participação dos pais em parte delas. Há ainda quem acredite que apenas o tempo de estudo na escola é o suficiente para a criança ficar ocupada e que o restante do tempo durante o dia devem fazer apenas o que dá prazer (seja jogar, dormir, ler e até ficar usando telas). O que é melhor para o desenvolvimento? Tem como haver equilíbrio?

Graziela Campos – Acredito que não exista problema em proporcionar à criança vivências em que ela possa experimentar situações novas e limites novos. A infância por excelência é esse lugar de experimento. Mas é importante que os adultos estejam atentos para aquilo que a criança expressa que faz sentido ou não para ela. Se eu coloco a minha criança em uma atividade que ela não quer, que ela não se sente confortável, até que ponto eu posso insistir e qual é o limite para que eu repense a presença dela nesse lugar? Importante também o adulto visitar suas próprias motivações ao colocar aquela criança em determinada atividade. Estou pensando inteiramente no bem-estar dela ou estou alimentando um sonho, uma necessidade minha? Posso concluir dizendo que a importância principal é o adulto conseguir enxergar a criança como um ser único e singular, que traz necessidades próprias naquele momento em que está vivendo.

Priscila Correia

Priscila Correia

Priscila Correia (@aventurasmaternas) é jornalista, casada e mãe de 2 meninos, Theo e Benjamin. Autora de livros infantis, adora viajar e escrever sobre educação e saúde. Tem diagnóstico de Superdotação, assim como seus dois filhos, e gosta de falar sobre o assunto. É colunista da AnaMaria Digital, onde compartilha matérias sobre maternidade, infância e adolescência.

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