O acesso à arte e à cultura durante a infância tem papel fundamental na formação emocional, social e intelectual daa crianças. Quando pais, responsáveis e educadores estimulam atividades culturais, visitas a espaços artísticos, leituras, oficinas e momentos de criação, contribuem para a formação de pessoas mais sensíveis, confiantes e seguras, características que serão importantes por toda a vida adulta. Mas algumas crianças, desde muito cedo, demonstram uma ligação mais estreita com a arte.
Seja por meio da música, dança, pintura, teatro, literatura ou qualquer outra expressão artística, na família ou em aulas, é na infância que muitos talentos começam a ser despertados e desenvolvidos. É nessa época, inclusive, que crianças e adolescentes descobrem “paixões” que, no futuro, poderão se transformar em profissão.
E exemplos não faltam. Pablo Picasso já produzia obras realistas aos nove anos. Os cadernos de infância de Beatrix Potter mostravam esboços detalhados de plantas e animais. A mãe de Beatriz Milhazes era uma professora de arte e o pai um apaixonado por cultura. Andy Warhol teve uma infância cercada de arte, com uma mãe, também artista, que o incentivava a desenhar. Salvador Dalí já mostrava o surrealismo que nortearia a sua obra aos seis anos e seu primeiro estúdio foi construído pelo pai quando tinha 10 anos. Na música, Cazuza, por exemplo, tinha um pai que era produtor musical; Jairzinho, Maria Rita e Preta Gil seguiram os passos dos pais.
Sandra Oliveira, que é psicóloga e arte educadora do Centro Educacional Anísio Teixeira (CEAT), explica que quando uma criança participa de práticas artísticas de forma regular, passa a reconhecer seus próprios interesses, talentos e formas de se relacionar com o mundo. “Essas experiências ajudam crianças e adolescentes a descobrir vocações, construir autoestima e ampliar perspectivas sobre o futuro. E, muitas vezes, o contato com a arte desperta o interesse por profissões ligadas à cultura, à educação e à criação, mas também contribui para formar indivíduos mais preparados para qualquer área profissional”, avalia.
Na família de Sara Puerta, que é mãe de Leonel, de 10 anos, o contato com a arte já fazia parte da rotina da casa, mas o interesse do filho pelo desenho foi uma surpresa, já que o que ele tinha como “exemplo” era o pai sempre tocando violão. “Leonel começou a fazer aulas de teclado, mas foi o desenho que o encantou depois que eu e o Fábio lançamos um livro infantil. Eu escrevi e ele ilustrou. Na época, Leonel tinha quatro anos e estava em casa por conta da pandemia. E acho que foi prestando atenção nesse processo de ilustração do livro, com as formas e cores, que o interesse apareceu”, lembra. Embora o filho não fale sobre uma carreira ligada à arte – ele diz que quer ser piloto de Fórmula 1 -, ela percebe que o fato de estar sempre desenhando acaba melhorando a coordenação e estimula ainda mais a imaginação e criatividade, que já são naturais das crianças. “Além disso, acho que desenhar ajuda na própria consciência de si mesmo, a lidar com o tédio, a estimular o olhar do que está em volta. Já a música, que também é muito presente aqui em casa, acredito que melhore sua auto expressão e confiança”.
E hoje, vamos falar mais sobre como a arte e a cultura na infância podem nortear as escolhas do futuro e como, mesmo para quem não vai seguir carreira artística, o acesso a essas manifestações é importante para a o desenvolvimento da comunicação, da empatia, do pensamento crítico e da capacidade de lidar com emoções e desafios.
Os primeiros contatos
O contato com a arte e a cultura durante a infância desempenha um papel importantíssimo na construção da identidade e da percepção que a criança desenvolve sobre si mesma e sobre o mundo. Ao experimentar atividades como música, teatro, dança, literatura, pintura, artesanato etc, ela encontra formas de expressar emoções, exercitar a criatividade e descobrir habilidades que, normalmente, se tornam parte significativa de sua trajetória pessoal e que podem, inclusive, influenciar, no futuro, sua vida profissional.
Foi isso que aconteceu com Carolina Amorim, de 24 anos. Arquiteta e urbanista, hoje ela está à frente do seu próprio escritório, o Studio CAML de Arquitetura, Arte e Design, mas seu contato com esse meio começou lá atrás. Ela conta que, apesar dos pais serem de Exatas (a mãe é engenheira química e o pai economista), sempre foi muito incentivada a pintar, desenhar e se expressar criativamente. Frequentadora assídua de museus, estudou em uma escola que também estimulava esse lado. Além disso, sua avó era professora de arte e sempre dava presentes relacionados a esse universo, como livros sobre quadros e artistas ou que ensinassem técnicas de desenho e pintura. “Como cresci apaixonada por esse mundo, quando chegou o momento do vestibular e definir qual faculdade iria fazer sabia que queria algo que me permitisse criar. E a escolha pela arquitetura foi uma junção dos “dois mundos” que cresci. A precisão da engenharia e da matemática com a liberdade da criação”, lembra. Hoje, seus projetos incluem espaços e pinturas que têm como inspiração paletas de grandes quadros, natureza e todo esse repertório artistico que construiu desde pequena.
Pamella Matos, coordenadora do núcleo pedagógico do MundoMaker, explica que as capacidades físicas e cognitivas podem afetar o desenvolvimento psicossocial, a autoestima, a aceitação social e até a escolha profissional. “Isso significa que as experiências vividas na infância ajudam a criança a descobrir interesses, habilidades, construir confiança em si mesma e aprender a se relacionar com os outros. Isso não quer dizer que toda criança exposta à arte seguirá uma carreira artística, mas essas experiências ampliam repertórios e possibilidades. Além disso, expor a criança a múltiplas atividades favorece o contato com o outro, a abertura à diversidade e o reconhecimento de diferentes formas de existir e estar no mundo. Na prática, isso contribui para que ela cresça com mais repertório, segurança e possibilidades para fazer escolhas no futuro”.
Mas, afinal, quais sinais mostram que uma criança está desenvolvendo afinidade ou talento para determinada área artística ou cultural? Para Henrique Braga, Coordenador pedagógico do Ensino Médio da Escola Lourenço Castanho e professor doutor em Filologia e Língua Portuguesa, tendo em mente crianças pequenas, especialmente na primeira infância, é mais raro que não se desenvolva a afinidade. “O “faz-de-conta”, presente de diferentes modos nas linguagens artísticas, é inerente ao universo infantil. E as melhores práticas de educação infantil levam isso em conta, de forma intencional. O desafio maior está em manter essa chama viva, não pensando na formação de artistas profissionais, mas de sujeitos sensíveis, que tenham as artes como apoio, refúgio, diversão”.
Para Sandra, o contato frequente com atividades artísticas amplia o repertório emocional, intelectual e criativo das crianças e adolescentes. “A prática musical, por exemplo, desenvolve disciplina, concentração, escuta, trabalho coletivo, sensibilidade e capacidade de expressão, habilidades fundamentais para qualquer profissão. A dança pode despertar consciência corporal e a confiança individual e coletiva. O teatro fortalece comunicação, expressão e empatia. As artes visuais estimulam observação, criatividade e percepção estética”, diz. E complementa: “Ao longo da minha trajetória como arte educadora desde 1985, acompanhei diversos alunos que iniciaram sua formação ainda crianças e, posteriormente, seguiram caminhos profissionais ligados à arte, à educação e à cultura. Na minha área específica de Artes Visuais, tenho ex-alunos que desenvolveram carreiras na programação visual, no design, na arquitetura e nas artes plásticas. Quando nos encontramos, sempre há uma reminiscência carinhosa ao lembrarem que construíram suas primeiras referências estéticas a partir das minhas aulas”.
É importante lembrar, porém, que embora o incentivo à arte e à cultura sejam extremamente importantes, não podemos esquecer que nem toda criança tem a oportunidade de experenciar essas oportunidades. “Quando conseguimos proporcionar novas oportunidades para uma criança ainda na infância, isso abre um leque enorme de possibilidades na vida adulta. Ela cresce percebendo o quanto é precioso viver e explorar a vida de acordo com suas habilidades e talentos. Entretanto, embora o nosso país seja extremamente rico em cultura, ainda é pouco explorado nesse sentido. E aqui entramos também em outras pautas importantes, como a desigualdade social, que impacta diretamente nessas escolhas futuras. Muitas crianças nem chegam a conhecer possibilidades diferentes de vida, justamente pela falta de acesso”, avalia Letícia Arruda, psicopedagoga da Escola Tree House – Educação por Princípios.
Outro ponto que precisa ser falado é sobre p fato de que muitos pais enxerguem atividades artísticas apenas como lazer, e não como ferramentas de desenvolvimento e aprendizagem. “Quando uma criança desenha, pinta, dança, canta, dramatiza ou constrói algo com diferentes materiais, ela está experimentando formas de expressão, desenvolvendo sua percepção, sua criatividade, sua coordenação, sua linguagem e sua maneira de compreender o mundo. As crianças aprendem criando modelos da realidade com os próprios olhos e com as próprias mãos. Por meio da arte, elas podem explorar formas, sons, movimentos, cores, histórias e personagens, atribuindo sentido às experiências que vivem. Esse processo ajuda a revelar preferências, interesses, habilidades e facilidades que talvez não aparecessem em atividades mais tradicionais. Por isso, quando os pais compreendem a arte como uma ferramenta de desenvolvimento, passam a valorizar mais esses momentos e a observar a criança com outro olhar. Um desenho, uma brincadeira de faz de conta, uma dança ou uma música podem indicar modos próprios de expressão, talentos em construção e caminhos possíveis para que a criança desenvolva confiança, autonomia e sensibilidade”, diz Pamella.
Mas Letícia faz um alerta: há realidades diferentes e muitos pais podem não ter essa visão porque também não foram estimulados quando crianças. “Acredito que isso muitas vezes não seja por mal. Muitos pais também não tiveram essas oportunidades quando pequenos. Muitos cresceram com uma infância limitada, e a consequência disso são adultos que se esforçam para dar o melhor aos filhos dentro daquilo que acreditam ser o básico da educação, como colocar em uma boa escola. Enquanto essa família segue trabalhando para suprir necessidades, muitas vezes até físicas dessa criança, acaba não conseguindo enxergar outras possibilidades. Então, eu não vejo isso como condenação, mas como falta de oportunidade e até de referência. Dentro da realidade de cada família, é importante entender que arte, cultura e imaginação também fazem parte do desenvolvimento infantil. São experiências que ajudam a criança a descobrir dons, talentos e novas formas de enxergar o mundo”, conclui.
Muito além “do palco”
O contato com a arte desde a infância vai muito além da possibilidade de formar futuros músicos, escritores, atores ou artistas plásticos. Ao estimular a criatividade, a sensibilidade, a capacidade de observação e a expressão de sentimentos, atividades culturais e artísticas contribuem para o desenvolvimento de habilidades que serão úteis em qualquer trajetória profissional escolhida no futuro. Por isso, especialistas defendem que o acesso à arte deve fazer parte da formação integral de crianças e adolescentes, independentemente de suas aspirações de carreira.
Para Sandra, a criatividade desenvolvida por meio da arte impacta praticamente todas as áreas profissionais. “Crianças estimuladas artisticamente tendem a desenvolver maior capacidade de comunicação, resolução de problemas, pensamento crítico e colaboração. Essas habilidades são fundamentais em áreas como educação, saúde, arquitetura, tecnologia, design, engenharia, comunicação, pesquisa científica, empreendedorismo e gestão. A arte também fortalece inteligência emocional, empatia e capacidade de adaptação, competências cada vez mais importantes no mundo contemporâneo”, comenta. Ela lembra, ainda, que entre seus ex-alunos, mesmo aqueles que seguiram outras áreas, frequentemente relatam que a experiência artística foi determinante para o desenvolvimento da disciplina, da sensibilidade e da capacidade de trabalhar em grupo, aspectos que influenciaram diretamente suas trajetórias pessoais e profissionais.
Para Henrique, se pensamos de forma mais pragmática, em habilidades mais específicas, podemos pensar em correlações entre o teatro e o direito, o desenho e a arquitetura, a literatura e o jornalismo… “No entanto, se pensamos a arte de modo mais amplo, é difícil pensar em trajetórias profissionais que não sejam favorecidas pelo desenvolvimento de um olhar menos automatizado sobre o mundo, que é próprio das artes. Além disso, é importante dissociarmos a criatividade e o extraordinário: a busca por respostas a desafios cotidianos é um exercício de criatividade (inclusive, é assim que documentos da OCDE tratam o tema). As artes, nesse sentido, têm muito a contribuir”, avalia.
Arte que amplia horizontes
O acesso a atividades culturais e artísticas na infância pode ser transformador, especialmente quando faz parte de programas sociais que acompanham de perto o desenvolvimento de crianças e adolescentes. Mais do que despertar talentos artísticos, esses projetos contribuem para que crianças e adolescentes enxerguem caminhos que muitas vezes parecem distantes de sua realidade.

Aisha Candido, Supervisora do Programa de Desenvolvimento Infantil da ONG Crescer, que fica no Jacaré e é um projeto do Instituto David Miranda (o Programa atende crianças de 5 a 15 anos, com atividades educativas, apoio social e acompanhamento próximo às famílias), explica que o contato frequente com atividades culturais, lúdicas e educativas dentro de um programa voltado para cidadania e direitos das crianças ajuda a ampliar horizontes e despertar possibilidades de futuro. “Trabalhamos com o acesso, com o pertencimento e com o entendimento de que essas crianças podem ocupar diferentes espaços. As atividades lúdicas, culturais e de comunicação ajudam os jovens a desenvolverem criatividade, confiança, curiosidade e autonomia, além de fazerem com que descubram interesses e habilidades que muitas vezes não seriam estimulados em outros contextos”.
Ao longo das atividades, Aisha acompanhou crianças e adolescentes que passaram a demonstrar interesse por áreas como comunicação, educação, fotografia, culinária, leitura e trabalho comunitário. “Muitas vezes, isso acontece através de experiências simples, como a construção de jornais, rodas de conversa, oficinas que ofertamos, atividades culturais e momentos de expressão coletiva. Também percebemos crianças que passam a acreditar mais em si mesmas, desenvolver autonomia e enxergar novos caminhos possíveis para o futuro”, comenta.
Para Aisha, mesmo para aqueles que não vão escolher uma carreira ligada à arte, o impacto do contato com atividades que envolvam criatividade na infância e adolescencia é imenso. “O incentivo à criatividade, atividades lúdicas e cognitivas na infância e adolescência deixam impactos muito importantes para o futuro. Elas costumam desenvolver mais segurança, autonomia, capacidade de comunicação e pensamento crítico. Acreditamos que essas experiências ajudam as crianças a enxergarem futuros possíveis, compreenderem seus direitos e acreditarem que podem ocupar diferentes espaços na sociedade”, conclui.
Impacto que vai além da carreira
O impacto da arte e da cultura na infância vai muito além do que essas crianças serão profissionalmente quando crescerem. Ela tem papel transformador no desenvolvimento infantil, independentemente das habilidades, características ou caminhos que cada criança seguirá no futuro. É por meio de manifestações artísticas, por exemplo, que muitas crianças neurodivergentes aprendem a expressar emoções, desenvolver a criatividade, fortalecer a autoestima e construir formas de comunicação com o mundo ao seu redor.
Esse impacto é especialmente significativo para pessoas com autismo, que muitas vezes encontram na arte uma ferramenta poderosa para expressar sentimentos, percepções e experiências que não conseguem transmitir pela fala. O músico e publicitário Tato França, que é pai de Lara, de 21 anos, que é autista não verbal, conta que, ainda pequena, a filha já “consumia” música e que ele percebeu desde muito cedo como as melodias ajudariam no seu desenvolvimento e comunicação. “Pessoas com TEA normalmente têm problemas com relação a ruídos. E isso era um entrave, já que ela gostava da música, mas não do barulho excessivo. Então, quando conseguimos resolver com um redutor de ruídos, ela começou a aproveitar tudo que a música poderia proporcionar”, lembra. Hoje, a música está na vida de Lara não apenas pela carreira do pai, mas também por outra forma de arte, a dança. “A música, a dança e o teatro, que ela também fez há alguns anos, foram ferramentas que fizeram a minha filha se conectar com o mundo”.
Direto ao ponto
A seguir, Sandra Oliveira, Pamella Matos, Letícia Arruda e Henrique Braga falam mais sobre o assunto.
Aventuras Maternas – Quais sinais mostram que uma criança está desenvolvendo afinidade ou talento para determinada área artística ou cultural?
Sandra Oliveira – Os sinais podem aparecer de diferentes formas. Muitas vezes, a afinidade artística se revela pela curiosidade, pela escuta atenta, pela vontade de participar, pela repetição espontânea de exercícios ou pelo interesse em explorar sons, movimentos e linguagens. Também é comum perceber maior concentração, envolvimento emocional e prazer durante as atividades culturais. Algumas crianças demonstram facilidade técnica; outras revelam sensibilidade criativa, liderança em grupo ou forte capacidade de expressão. Mais importante do que identificar “talentos precoces” é oferecer um ambiente de estímulo, acolhimento e continuidade, permitindo que cada criança desenvolva seu potencial no próprio tempo.
Aventuras Maternas – De que forma atividades como teatro, música, dança, pintura e literatura ajudam no desenvolvimento emocional, social e cognitivo infantil?
Pamella Matos – Essas atividades contribuem para o desenvolvimento infantil porque envolvem diferentes formas de expressão, percepção e interação. No campo emocional, a arte permite que a criança expresse sentimentos, medos, desejos e imaginações, mesmo quando ainda não consegue nomear ou explicar verbalmente o que sente. Muitas vezes, ela ainda não possui recursos psíquicos e linguísticos suficientes para compreender plenamente suas próprias emoções; por isso, desenhar, cantar, dançar, dramatizar ou ouvir histórias pode funcionar como uma forma sensível de elaboração. Essas experiências favorecem a autoconfiança e contribuem para a construção da autoestima. No aspecto social, atividades como teatro, dança, música em grupo e contação de histórias estimulam a convivência, a escuta, a cooperação e a interação com outras crianças e adultos. Essa ideia se aproxima da perspectiva de Vygotsky, ao compreender que a criança aprende por meio das relações sociais e que seus conhecimentos prévios são ampliados nas trocas com o outro. Já no desenvolvimento cognitivo, essas práticas estimulam memória, atenção, linguagem, resolução de problemas e percepção de formas, sons, ritmos, cores e padrões. A pintura, por exemplo, favorece a coordenação motora, a percepção visual e a criatividade; a música envolve ritmo, escuta e memória; a literatura amplia o vocabulário, a imaginação e a capacidade de simbolização; e o teatro contribui para a linguagem, a expressão corporal e a organização do pensamento. Assim, quando a criança participa de atividades com música, dança, pintura, histórias, brincadeiras e diferentes materiais, ela vivencia experiências concretas que a ajudam a explorar, criar, imaginar e compreender melhor o ambiente em que vive. Afinal, a criança aprende interagindo com o mundo ao seu redor, e a arte oferece caminhos ricos para que esse aprendizado aconteça de forma sensível, lúdica e significativa.
Aventuras Maternas – Como os responsáveis podem estimular o contato com a arte e a cultura dentro da realidade de cada família, mesmo com pouco tempo ou recursos financeiros limitados?
Letícia Arruda – Eu acredito que sempre será possível trazer conhecimento, mesmo que muitas vezes de forma indireta para a criança. Partindo de uma realidade com poucos recursos e tempo limitado, eu procuraria projetos gratuitos e colocaria como objetivo incluir atividades culturais na rotina. Atualmente, moro em Pedra de Guaratiba e lá existem serviços que agregam muito na vida social e cultural de várias famílias de forma totalmente gratuita. Temos a Arena Carioca Abelardo Barbosa, que realiza diversas apresentações gratuitas e também atividades gratuitas. Lá acontecem aulas de ballet, jazz, teatro e uma programação muito rica. Também temos a ONG Verbo Amar na região, que oferece ballet, teatro, taekwondo, jiu-jitsu, acompanhamento psicológico e muitas outras atividades. Citei exemplos reais da região onde moro, mas em todo o Rio de Janeiro existem projetos, museus e pontos turísticos gratuitos que podem ser explorados pelas famílias. Pra finalizar, tenho uma memória muito especial da minha infância. Toda vez que minha avó tinha médico no Centro do Rio, nós escolhíamos um lugar para conhecer, e ela me contava a história daquele lugar. Algo tão simples, mas que ficou eternizado em mim. Até hoje, quando passo por alguns lugares, consigo ouvir a voz dela explicando tudo, apontando cada detalhe com tanto carinho e conhecimento. Que privilégio é ter adultos presentes na infância de uma criança. Nem tudo é sobre dinheiro. Ele é necessário, claro, mas às vezes também é sobre aproveitar o pouco para fazer muito e transformar momentos simples em memórias eternas.
Aventuras Maternas – Em um cenário cada vez mais dominado pelas telas e pela tecnologia, qual é o papel das atividades culturais presenciais na formação das crianças e adolescentes?
Henrique Braga – São muitos. Nas atividades artísticas mais coletivas (como corais, peças de teatro ou saraus), além de tudo que conversamos até aqui, as artes também ajudam a formar comunidades, a promover um tipo de encontro entre os sujeitos que pode ser mais profundo. Não só pela beleza da arte, mas pela necessidade de atuar em conjunto, buscar acordos, ceder em alguns pontos. É algo muito além de “dar um like”, por exemplo. Já em atividades artísticas mais individuais, eu destacaria, além do que já disse antes, os ganhos de deixar a passividade de mero expectador, bem como o de exercitar atividades motoras, que acabam estimulando também cognitivamente os sujeitos. Em todos os casos, o bem-estar promovido pelas atividades culturais é incomparável à ansiedade que, muitas vezes, decorre do acesso às telas – no caso dos adolescentes, nem é preciso lembrar que as redes sociais são um agravante.
