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O que as famílias precisam saber sobre o Super El Niño

Especialistas explicam os possíveis impactos do fenômeno, cuidados com crianças durante o calor intenso e como usar o tema para falar sobre educação ambiental 

Priscila Correia Por Priscila Correia
07/06/2026
Em Coluna Aventuras Maternas
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Celebrado em 5 de junho, o Dia Mundial do Meio Ambiente convida a sociedade a refletir sobre a relação entre as ações humanas e os fenômenos que impactam o planeta. E em um momento em que especialistas acompanham os possíveis efeitos do Super El Niño, a data ganha ainda mais relevância, servindo como oportunidade para discutir mudanças climáticas, sustentabilidade e a importância de cuidar dos recursos naturais para as futuras gerações.

Para Elisangela Ronconi Rodrigues, coordenadora do Nema (Núcleo de Estudos do Meio Ambiente) do Centro Universitário FMU-FAM FAAM, o debate sobre um possível Super El Niño evidencia como fenômenos climáticos podem afetar diretamente a vida das pessoas, a economia, a agricultura, a saúde pública e a disponibilidade de recursos naturais. “O Dia Mundial do Meio Ambiente reforça a importância de compreender que a preservação ambiental não se resume a ações pontuais ou datas comemorativas. Trata-se de um compromisso permanente que precisa ser firmado entre sociedade civil, governos e empresas para a construção de sociedades mais resilientes às mudanças climáticas. A conscientização é um passo importante, mas ela precisa ser acompanhada por atitudes individuais, políticas públicas consistentes e investimentos que promovam a sustentabilidade a longo prazo”.

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Embora sua ocorrência ainda não seja certa, o fenômeno, caso aconteça, poderá influenciar o clima em diferentes regiões, trazendo períodos de calor intenso, alterações no regime de chuvas e eventos climáticos extremos. E ainda que muitos enxerguem o tema apenas sob a perspectiva ambiental e econômica, seus reflexos poderão ser sentidos no cotidiano das famílias, exigindo atenção redobrada com a saúde e o bem-estar de todos, especialmente crianças, adolescentes e idosos.

 

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Na matéria dessa semana, conversamos com especialistas sobre como pais e responsáveis precisam compreender os possíveis impactos desse cenário para se prepararem para desafios de dias muito quentes e como o tema deve ser conversado com os filhos sob a ótica da preservação do planeta.

 

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Um assunto que não pode ficar pra depois

 

As discussões sobre o Super El Niño vão muito além da previsão do mais calor. Para especialistas no assunto, o fenômeno é uma oportunidade não apenas para ampliar o diálogo sobre mudanças e preservação, mas, principalmente, de responsabilidade coletiva com o futuro do planeta e sobre ensinar desde cedo como pequenas atitudes do dia a dia podem contribuir para um mundo mais preparado diante dos desafios ambientais.

Embora sua ocorrência ainda não esteja confirmada, diversos modelos climáticos indicam a possibilidade de um evento de El Niño forte nos próximos meses. Elisangela comenta que a classificação do fenômeno dependerá, entre outros fatores, da intensidade do aquecimento das águas do Oceano Pacífico ao longo da primavera no Hemisfério Sul, período considerado decisivo para as projeções climáticas – por isso, inclusive, os meteorologistas acompanham atentamente a evolução das temperaturas oceânicas antes de confirmar se o evento atingirá níveis excepcionais.

Edson Grandisoli, que é professor, referência brasileira em Educação e Meio Ambiente e um dos criadores do Movimento Escolas pelo Clima, maior comunidade de escolas voltada à educação e ação climática no Brasil, esclarece que, em 2024, por exemplo, o El Niño desencadeou fortes secas na Amazônia e muita chuva no Sul e Sudeste, além de ondas de calor em diferentes regiões do país. “Há uma boa chance disso se repetir em 2026-2027. Precisamos sempre ficar atentos às notícias e nos adaptar à nova realidade climática”. Elisangela esmiuça o tema, informando que os efeitos do El Niño variam conforme a região do país. “Historicamente, o Sul do Brasil tende a registrar chuvas acima da média, aumentando o risco de enchentes, deslizamentos e prejuízos à agricultura. Já o Norte e parte do Nordeste costumam enfrentar redução das chuvas, favorecendo secas, queimadas e dificuldades no abastecimento de água. O Sudeste e o Centro-Oeste podem registrar temperaturas acima da média e alterações nos padrões de chuva, com períodos de estiagem alternados com eventos de precipitação intensa. É importante destacar que os impactos específicos dependem da intensidade do fenômeno e de outros fatores climáticos que atuam simultaneamente, especialmente quando falamos de alagamentos. Vale ressaltar que os alagamentos não são o resultado de precipitações intensas apenas, mas a combinação destas com a falta de infraestrutura resiliente nos centros urbanos, mostrando que a adaptação climática é necessária e urgente”.

Na prática, isso significa que a população poderá enfrentar períodos de calor mais intenso e prolongado, aumento do consumo de energia elétrica devido ao uso mais frequente de ventiladores e aparelhos de ar-condicionado, além de maior risco de desidratação e agravamento de problemas respiratórios e cardiovasculares, especialmente entre crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas. “As temperaturas elevadas também podem reduzir o conforto térmico nas áreas urbanas e pressionar os sistemas de abastecimento de água em algumas regiões. Além disso, o aumento do calor favorece a ocorrência queimadas e chuvas intensas, cujos efeitos variam de acordo com as características de cada região do país”, avalia Ronconi.

Mas embora a temperatura dos próximos meses ainda seja uma incógnita, abordar a possibilidade do Super El Nino pode ser uma excelente forma de conscientizar crianças e jovens sobre as mudanças do planeta e a importância da preservação ambiental. “É importante dialogar com as crianças sobre o que estão percebendo e vivenciando a respeito do clima no dia a dia. Fazer perguntas provocativas desperta a curiosidade das crianças e jovens e colabora para que estabeleçam relações de causa e consequência entre atividades humanas e mudanças climáticas. É uma construção permanente. Um caminho interessante é registrar a temperatura em casa ao longo dos anos, ou mesmo a quantidade de chuva, e acompanhar as variações. É preciso dar sentido ao que está acontecendo e qual nossa responsabilidade nessas mudanças”, diz Grandisoli, que conclui: “Só mais um ponto importante: dialogue também sobre os sentimentos das crianças. É comum terem medo, sentirem-se impotentes ou mesmo deprimidas. É preciso identificar casos de ansiedade climática logo cedo”.

A seguir, listamos cinco atitudes que as famílias podem incorporar no dia a dia para que as crianças e adolescentes passem a ter uma mentalidade mais consciente sobre o futuro do planeta.

1 – Transformar a separação do lixo em uma rotina da família: ensinar a separar corretamente materiais recicláveis, orgânicos e rejeitos ajuda a desenvolver a consciência sobre o destino dos resíduos. Os pais podem explicar para onde cada item vai, o que será reciclado e/ou descartado (inclusive, mostrando o que usam em casa e é produto reciclado) e mostrar como pequenas atitudes dentro de casa têm impacto coletivo;

2. Incentivar o consumo consciente: antes de comprar um brinquedo, roupa ou eletrônico novo, vale conversar sobre a real necessidade daquela aquisição. Mostrar a importância de reutilizar, consertar e doar objetos ajuda crianças e adolescentes a compreenderem que consumir menos também é uma forma de cuidar do planeta. Procure vídeos que mostrem grandes lixões e como isso impacta na vida de todos;

3. Economizar água e energia no dia a dia: fechar a torneira ao escovar os dentes e lavar a louça, tomar banhos mais curtos, apagar luzes ao sair dos ambientes e desligar aparelhos que não estão em uso são alguns hábitos simples que podem ser ensinados desde cedo. Quando a família adota essas práticas em conjunto e as crianças e jovens enxergam os pais agindo como ensinam, a mensagem é entendida;

4. Aproximar as crianças da natureza: passeios em parques, atividades ao ar livre, cultivo de hortas domésticas ou o cuidado com plantas podem ajudar a criar uma conexão afetiva com o meio ambiente deste cedo. Esse contato com a natureza tende a desenvolver nas crianças maior senso de responsabilidade pela sua preservação;

5. Ser exemplo e conversar sobre o tema: As crianças aprendem muito mais pelo que observam do que pelo que escutam. Por isso, atitudes sustentáveis dos adultos, especialmente dos pais e responsáveis, são fundamentais. Além disso, conversar sobre mudanças climáticas, preservação ambiental e responsabilidade coletiva de forma adequada à idade e com exemplos que conhecem contribui para formar cidadãos mais conscientes e engajados com o futuro do planeta.

Calor, hidratação e rotina

 

Nesse período de calor intenso como é esperado, a atenção com a saúde infantil deve ser redobrada, já que esse público é mais vulnerável aos efeitos do calor excessivo. Por isso, entender os riscos e adotar medidas preventivas é fundamental para garantir o bem-estar dos pequenos durante os meses em que os impactos do Super El Niño podem ser mais perceptíveis.

 

Entre os problemas mais recorrentes, a desidratação é também um dos mais perigosos. Isso acontece porque as crianças possuem maior proporção de água corporal e perdem líquidos mais rapidamente pelo suor, especialmente durante brincadeiras e atividades físicas. Por isso, as famílias precisam ficar atentas a alguns sinais de alerta para desidratação, como diminuição da quantidade de urina, urina mais escura, boca e lábios ressecados, ausência de lágrimas ao chorar, sonolência excessiva, irritabilidade, olhos mais fundos e redução da disposição para brincar. “Em recém-nascidos e bebês menores, a moleira fica afundada demonstrando desidratação”, explica Christopher Mindi Shu, que é médico pediatra e nutrólogo pediatra. Para prevenir a desidratação, sugere, é importante oferecer líquidos regularmente ao longo do dia, sem esperar a criança pedir. “Água deve ser a principal fonte de hidratação. Frutas ricas em água, como melancia, melão, laranja e pera, também podem ajudar. Em lactentes, a amamentação deve ser mantida ou até aumentada conforme a demanda. Em situações de vómitos, diarreia ou exposição prolongada ao calor, a atenção deve ser redobrada”, complementa.

 

O calor excessivo também pode impactar no sono, na alimentação e na disposição das crianças de forma geral. E, normalmente, quando isso acontece, elas costumam apresentar algumas mudanças no comportamento, como maior irritabilidade, dificuldade para dormir, despertares noturnos mais frequentes, redução do apetite e menor disposição para atividades físicas. “O organismo tende a direcionar mais energia para manter a temperatura corporal equilibrada, o que pode gerar sensação de cansaço e desconforto. Os pais podem minimizar esses efeitos mantendo os ambientes ventilados, oferecendo banhos mornos, evitando excesso de roupas durante o sono e priorizando refeições mais leves, com frutas, vegetais e preparações de fácil digestão”, aconselha Shu.

 

E as temperaturas mais altas também podem influenciar na incidência de doenças comuns da infância, como infecções, alergias e problemas respiratórios, já que as mudanças climáticas e os períodos de calor intenso podem modificar o comportamento de diversos agentes infecciosos e aumentar a exposição a fatores ambientais que afetam a saúde infantil. Temperaturas elevadas favorecem, ainda, a proliferação de alguns microrganismos causadores de gastroenterites e aumentam o risco de contaminação de alimentos; e também podem contribuir para a maior circulação de mosquitos transmissores de doenças, como dengue. Já em relação às alergias e aos problemas respiratórios, ondas de calor costumam vir acompanhadas de alterações na qualidade do ar, maior concentração de poluentes e aumento de partículas alergênicas, o que pode desencadear crises em crianças predispostas. “As principais medidas preventivas incluem manter a vacinação em dia, reforçar a higiene das mãos, armazenar adequadamente os alimentos, eliminar focos de água parada e seguir corretamente o tratamento de crianças com doenças respiratórias ou alérgicas já diagnosticadas”, avalia Christopher.

 

Direto ao Ponto

 

A seguir, Christopher Mindi Shu, Elisangela Ronconi Rodrigues e Edson Grandisoli abordam outras quetões relacionadas ao tema.

 

Aventuras Maternas – Com a previsão de temperaturas mais elevadas durante o período do Super El Niño, quais são os principais cuidados que pais e responsáveis devem adotar para proteger bebês e crianças dos efeitos do calor intenso?

Christopher Mindi Shu – Bebês e crianças são mais vulneráveis ao calor porque possuem mecanismos de regulação da temperatura corporal menos eficientes do que os adultos. Além disso, muitas vezes não conseguem reconhecer ou comunicar adequadamente que estão com sede ou desconforto térmico. Os principais cuidados incluem manter uma hidratação adequada, oferecer ambientes frescos e bem ventilados, evitar exposição ao sol entre 10h e 16h, utilizar roupas leves e claras e reforçar o uso de protetor solar em crianças acima de 6 meses. Também é importante nunca deixar crianças em veículos estacionados, mesmo que por poucos minutos, já que a temperatura interna pode subir rapidamente e representar risco grave à saúde.Nos bebês menores, a amamentação em livre demanda continua sendo uma das principais estratégias de proteção contra a desidratação.

Aventuras Maternas – Em um cenário de eventos climáticos cada vez mais frequentes e intensos, como podemos conscientizar crianças e jovens sobre as mudanças climáticas e a importância da preservação ambiental sem recorrer ao alarmismo, mas estimulando a participação e a responsabilidade coletiva?

Elisangela Ronconi Rodrigues – A educação ambiental é mais eficaz quando conecta os grandes desafios globais às experiências cotidianas das pessoas. É importante que elas percebam que atitudes individuais, como separar corretamente os resíduos, economizar água e energia ou optar por produtos mais sustentáveis, têm maior impacto quando somadas a ações coletivas. Por isso, a educação ambiental deve estimular não apenas crianças e jovens, mas toda a sociedade sobre mudanças de comportamento e engajamento em iniciativas comunitárias. E as campanhas de conscientização alertando sobre as consequências das mudanças climáticas são essenciais. Não para gerar preocupação, mas com o objetivo de mostrar que cada pessoa pode contribuir e que as transformações mais significativas acontecem quando o esforço individual se soma à ação coletiva. Dessa forma, a conscientização ocorre por meio do conhecimento e da participação ativa, e não do medo.

 

Aventuras Maternas – Diante dos impactos previstos para o Super El Niño, como a sociedade pode cobrar ações efetivas dos governos e das empresas? Quais medidas deveriam ser priorizadas para reduzir riscos, proteger populações vulneráveis e fortalecer a adaptação às mudanças climáticas?

Edson Grandisoli – Buscando informações, cobrando transparência, escolhendo empresas com práticas reais no campo socioambiental e votando em lideranças que realmente se preocupam com a pauta ambiental e climática. Essas ações já são um ótimo começo. A proteção das populações mais vulneráveis também deve estar no centro das estratégias. Famílias de baixa renda, moradores de áreas de risco, idosos, crianças e trabalhadores expostos ao calor sofrem de forma desproporcional os impactos climáticos. Isso exige políticas públicas que integrem clima, saúde, habitação, assistência social e educação. Já existem muitos caminhos possíveis para o enfrentamento da emergência climática em todos os níveis. Precisamos ter coragem, disposição e vontade política.

Priscila Correia

Priscila Correia

Priscila Correia (@aventurasmaternas) é jornalista, casada e mãe de 2 meninos, Theo e Benjamin. Autora de livros infantis, adora viajar e escrever sobre educação e saúde. Tem diagnóstico de Superdotação, assim como seus dois filhos, e gosta de falar sobre o assunto. É colunista da AnaMaria Digital, onde compartilha matérias sobre maternidade, infância e adolescência.

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