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Entre patas e afetos: o vínculo que transforma crianças com TEA

Priscila Correia Por Priscila Correia
04/04/2026
Em Coluna Aventuras Maternas
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O encontro entre crianças e animais costuma ser marcado por algo simples e poderoso: a ausência de julgamento e a entrega completa de afeto. E para muitas crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), que frequentemente enfrentam desafios na comunicação e na interação social, essa relação pode se tornar algo ainda maior.

Quando a comunicação com as palavras não é fácil, o olhar, o toque e a rotina compartilhada com um animal podem criar pontes importantes de conexão. Isso acontece porque os animais de companhia, especialmente cães e gatos, tendem a oferecer respostas previsíveis, gestos de afeto e uma presença constante, características, essas, que ajudam a construir uma sensação de segurança emocional para as crianças com TEA. Essa previsibilidade pode favorecer o desenvolvimento da confiança, estimular interações e abrir espaço para que a criança se expresse de outras formas, seja por meio do carinho, do cuidado ou da brincadeira.

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Jessica do Nascimento Ferreira Marquez, mãe de João Felipe, que tem 11 anos, conta que resolveram adotar um cachorro para ajudar o filho a socializar mais. “Na época, ele já tinha pouca interação com os amigos da escola e, com a chegada da pandemia, ficou ainda mais difícil. Foi então que surgiu a ideia de adotar um cachorro. Acreditamos que a convivência com um animal poderia ajudar na socialização, além de trazer mais alegria, afeto e interação para a rotina dele e de toda a nossa família”. Ela lembra que o primeiro dele com Zuma, a cachorrinha, foi cheio de carinho. “Assim que a viu, que ainda era bem pequenininha, já quis tocar, apertar e pegar no colo. Ele ficou todo empolgado e logo quis esfregar o rosto no pelinho dela. Foi uma reação que surpreendeu muito a gente, principalmente porque naquela época o João tinha várias questões sensoriais e normalmente era mais sensível ao toque”.

O laço entre crianças e animais pode contribuir para avanços importantes, como a redução da ansiedade, estímulo à comunicação, melhora na regulação emocional e até maior interesse em interagir com outras pessoas. Ou seja, mais do que companhia, os animais podem se tornar parceiros silenciosos no processo de desenvolvimento dessas crianças. “Do ponto de vista do desenvolvimento infantil, o convívio com animais é positivo porque oferece o que chamamos de aceitação incondicional e presença não julgadora, algo fundamental para uma criança que frequentemente se sente pressionada a se adequar a padrões sociais complexos. Para crianças com TEA, o animal funciona como uma “ponte” emocional; ele é um estímulo multissensorial previsível, o que traz segurança. Enquanto as interações humanas podem ser repletas de nuances faciais e tons de voz difíceis de interpretar, o animal se comunica de forma direta e honesta, permitindo que a criança desenvolva a percepção do “outro” sem a sobrecarga cognitiva que uma conversa comum exigiria”, explica Rachel Sette, que é professora de Psicologia do UniArnaldo Centro Universitário.

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Na matéria dessa semana, vamos falar sobre a importância do convívio com animais para crianças autistas.

Terapia do vínculo

Entre latidos suaves, ronronares e olhares atentos e cheios de afeto, muitas crianças com TEA encontram nos animais algo que nem sempre conseguem experimentar com facilidade nas interações humanas. E nessa conexão espontânea, segura e sem julgamentos, o vínculo se estabelece.

Mariana Casagrande, que é neuropsicopedagoga e especialista em neuropsicologia, explica que o animal funciona como uma “ponte” para a interação das crianças com TEA, favorecendo o seu desenvolvimento de forma leve e tranquila, e com menos pressão. “Crianças e jovens que apresentam algum tipo de neurodiversidade têm grande benefício na convivência com animais. Essa relação ajuda a criança na regulação emocional, na comunicação, no desenvolvimento das habilidades sociais e da empatia e na construção de vínculos. Além disso, auxilia também nas questões sensoriais”, diz.

Rachel pontua, ainda, que, no campo social, o animal atua como um facilitador. “Em um parque, por exemplo, o cão atrai o interesse de outras crianças, criando uma oportunidade natural para que a criança com TEA interaja mediada pelo animal”, e complementa: “Emocionalmente, a criança aprende a autorregulação ao perceber que movimentos bruscos ou gritos podem afastar o animal, incentivando o controle inibitório. Na comunicação, é muito comum observarmos crianças que não verbalizam com adultos começarem a “dar ordens” ou “conversar” com o pet, pois sentem que não serão corrigidas gramaticalmente, o que reduz a ansiedade de performance e estimula a fala funcional”.

Para Jessica, Zuma acabou trazendo mais tranquilidade para João, ajudando-o muito na rotina dele. “Ele passou a demonstrar mais carinho, a interagir mais e a se comunicar um pouco mais nas situações do dia a dia que envolvia principalmente a rotina da cachorra”. Ela lembra, ainda, que nos momentos em que ele está mais agitado ou ansioso, a presença da Zuma costuma acalma-lo bastante. “Muitas vezes, ele a procura para fazer carinho ou abraçar, e isso ajuda ele a se regular emocionalmente. Nas brincadeiras também faz muita diferença. Eles adoram brincar de jogar bolinha, correr pelo quintal e de esconde-esconde. Às vezes, o João também gosta de deitar no chão ao lado dela, fazer carinho e conversar com a cachorra. Ela virou uma grande parceira dele e passam bastante tempo juntos. A presença dela trouxe mais leveza e alegria para o dia a dia do meu filho”, complementa.

E cavalos, coelhos, gatos e até aves também favorecem o desenvolvimento de crianças autistas. “Esses animais podem ser treinados por profissionais para auxiliarem nas necessidades do dia a dia da criança, principalmente para serem suportes em momentos de crises”, avalia Mariana, que explica, também, como esse convívio contribui para reduzir ansiedade, estresse e episódios de sobrecarga sensorial. “Há boas evidências sobre como animais podem ajudar a reduzir a desregulação emocional e comportamental do espectro, pois acariciar ou apenas estar perto deles diminui o cortisol (hormônio do estresse) e aumenta a liberação de ocitocina (sensação de bem estar). O toque, os movimentos rítmicos e os sons ajudam também na organização sensorial. Além disso, o animal tirar o foco de estímulos estressantes e isso diminui a possibilidade de crise”, detalha. E Rachel exemplifica: “O peso de um cão deitado sobre as pernas da criança pode funcionar como uma pressão profunda, que é uma técnica de integração sensorial para acalmar o sistema nervoso. Além dos cães, cavalos são fundamentais na equoterapia, pois o movimento rítmico do passo do cavalo trabalha o equilíbrio, a psicomotricidade. Gatos, coelhos e até porquinhos-da-índia também são excelentes, especialmente para crianças que preferem estímulos mais silenciosos e delicados, adaptando-se melhor ao perfil sensorial de cada indivíduo”.

Mas, afinal, existem características específicas em cães ou outros animais que favorecem essa conexão com crianças autistas? Habitualmente, a busca é por animais com temperamento estável, baixa reatividade a sons e toques, e alta previsibilidade. “O animal precisa ter o que chamamos de “limiar de resposta alto”, ou seja, não se assustar facilmente com movimentos atípicos. No UniArnaldo Centro Universitário, por exemplo, o trabalho de Terapia Assistida por Animais foca justamente em cães que foram selecionados e treinados para serem esse suporte seguro, garantindo que a interação seja prazerosa tanto para a criança quanto para o animal, criando um ambiente de confiança mútua”, pondera Sette.

Nem todo bichinho é igual

O contato com animais é uma experiência transformadora para muitas crianças com autismo. Por isso, orientações sobre como promover encontros seguros e respeitosos são consideradas essenciais.

Pedro Risolia, que é médico veterinário especialista da Petlove, explica que, ao escolher um animal para fazer companhia para crianças com TEA, o foco não deve ser a raça, mas o perfil temperamental do pet. “O animal precisa ser dócil, ter um comportamento previsível e, acima de tudo, ser calmo o suficiente para entender que um carinho ou um possível movimento brusco da criança não são uma ameaça, evitando reações de medo ou ataque. Sendo assim, qualquer raça, inclusive animais sem raça definida, podem desempenhar perfeitamente esse papel. Quando falamos de suporte emocional, muitas vezes o vínculo estabelecido entre o pet o tutor é o mais importante, dependendo das características individuais do cachorro e da necessidade da pessoa”.

Para Richardson Zago, especialista em comportamento canino, fundador da Zago Adestramento e fundador honorário do Patinhas Urbanas, mais do que a raça em si, o temperamento é o fator mais determinante, aliado ao manejo e à orientação adequada. “Um cão tranquilo e estável emocionalmente terá mais chances de desenvolver uma convivência segura e positiva, independentemente da sua origem. E embora algumas raças sejam naturalmente mais utilizadas como cães de assistência por já apresentarem predisposição genética para esse tipo de trabalho, como o Golden Retriever e o Labrador Retriever, isso não significa que outras raças ou cães sem raça definida não possam desempenhar o mesmo papel. Pelo contrário, muitos “vira-latas” apresentam excelentes perfis comportamentais e podem se tornar ótimos companheiros e cães de assistência”.

Outro ponto importante a ser avaliado é o ambiente em que esse cão viverá. “Por exemplo, um cão de pequeno porte pode não representar riscos em determinados espaços, como uma sacada. Já um cão maior pode conseguir se apoiar, pular ou reagir a estímulos externos, exigindo adaptações como telas de proteção em janelas e varandas. Também é preciso garantir que o animal tenha um “espaço de fuga”. Ou seja, um local onde ele possa se retirar quando se sentir desconfortável. Esse comportamento é natural e saudável”, avalia Richardson. Quando o animal não tem essa possibilidade (especialmente em ambientes muito pequenos ou restritos), pode se sentir pressionado, aumentando o risco de reações, como rosnados ou até uma mordida de advertência. Esse cuidado também vale para outros animais, como gatos, que precisam de rotas de escape e, preferencialmente, acesso a locais mais altos onde possam se sentir seguros.

Risolia faz, ainda, um alerta importante: as famílias precisam entender que a função do animal é ajudar a estabilizar o paciente para que os tratamentos médicos e terapêuticos funcionem de forma mais eficaz, ou seja, o pet é um co-terapeuta, não o tratamento completo. Então, quando não estiver atuando com a criança, o animal deve ser incentivado a descansar, gastar energia e manter o seu comportamento natural de espécie. “Outro erro grave é esquecer o bem-estar do animal e ultrapassar seus limites. Um animal de terapia só deve trabalhar de 45 a 50 minutos por dia; mais do que isso pode gerar estresse. É preciso também pensar em cuidados veterinários rigorosos, sendo imprescindível garantir vacinas, vermifugação, alimentação adequada e rotina de higiene. Além disso, a educação do animal de assistência deve basear-se em técnicas de adestramento com reforço positivo e socialização contínua, nunca por meio de punições, garantindo um ser confiante e feliz”, esclarece.

Por fim, um conselho para as família que estão pensando em adotar um animal para seu filho: “Eu diria para irem com o coração aberto e com consciência de que um animal também exige cuidado, tempo e responsabilidade. Quando a família está preparada para isso, a experiência pode ser muito bonita. Para muitas crianças, especialmente aquelas que têm mais dificuldade de socialização ou questões sensoriais, o animal pode se tornar um grande companheiro, trazendo afeto, segurança e momentos de alegria no dia a dia. Aqui em casa, a chegada da Zuma fez uma diferença muito positiva na vida do João e na dinâmica da nossa família”, conclui Jessica.

Para uma boa convivência entre animais de terapia e crianças é preciso preparo, consciência e acompanhamento. A seguir, Richardson Zago dá algumas dicas importantes para garantir a segurança e o bem-estar de todos.

– Escolha adequada do animal: É o ponto mais importante. Não adote de forma impulsiva, pois é essencial considerar o perfil comportamental do animal e as necessidades da criança. Se a criança precisa de contato físico constante, por exemplo, o ideal é um animal mais tolerante ao toque e que busque proximidade. Nem todos os cães ou gatos gostam de abraços ou manipulação frequente, e respeitar isso evita problemas futuros. Além disso, a escolha não deve ser pela aparência, mas compatível com as necessidades específicas da criança;

– Preparação do ambiente: Antes da chegada do animal, a casa deve ser adaptada para garantir segurança. Isso inclui avaliar riscos como janelas, sacadas, móveis e objetos que possam causar acidentes. Também é importante criar um ambiente que favoreça interações positivas e seguras, tanto para a criança quanto para o animal;

– Supervisão constante: A convivência nunca deve acontecer sem a presença de um adulto, especialmente no início. Crianças (estando ou não no espectro) podem ter comportamentos que o animal não compreende, como apertar, puxar ou abraçar de forma mais intensa. A supervisão permite antecipar situações de risco e orientar ambos durante a interação;

– Treinamento e orientação profissional: O treinamento é essencial para preparar o animal para esse tipo de convivência. Ele ajuda o cão a entender quais comportamentos serão comuns na rotina com a criança e como reagir a eles de forma segura. Além disso, contar com um profissional evita erros que podem gerar traumas ou até acidentes, garantindo um processo mais eficaz e tranquilo;

– Respeito aos limites e adaptação gradual: Tanto o animal quanto a criança precisam de tempo para se adaptar. Forçar interações ou ignorar sinais de desconforto pode prejudicar a relação. O ideal é permitir aproximações progressivas, respeitando os limites de cada um e construindo, aos poucos, uma convivência baseada em confiança.

Direito ao ponto

A seguir, os especialistas Mariana Casagrande, Rachel Sette, Pedro Risolia e Richardson Zago trazem outros pontos importantes sobre o tema.

Aventuras Maternas – Quais sinais indicam que o cachorro está confortável e preparado para essa interação com a criança?

Richardson Zago – Os cães se comunicam o tempo todo por meio da linguagem corporal, e saber interpretar esses sinais é essencial para garantir uma convivência segura. Sinais de desconforto são relativamente fáceis de identificar quando observados com atenção. Entre eles estão: bocejos frequentes, evitar contato visual, afastar-se da criança, corpo rígido, lamber excessivamente o focinho, postura encolhida, cauda baixa ou entre as pernas. Esses comportamentos indicam que o animal está tenso ou inseguro e precisa de espaço. Por outro lado, um cão confortável demonstra sinais bem diferentes. Ele se aproxima espontaneamente, busca interação, mantém o corpo relaxado, a cauda em movimento, a boca levemente aberta e pode até ofegar de forma tranquila (sinais claros de bem-estar e receptividade). É importante entender que esse conforto não é constante. Um cão pode estar bem em um momento e, diante de uma determinada atitude (como um toque inesperado, uma brincadeira mais brusca ou uma aproximação inadequada) passar a demonstrar desconforto. Por isso, a supervisão deve ser contínua. Mais do que observar apenas a criança, é fundamental acompanhar o que o cão está comunicando a cada interação. Muitas vezes, o desconforto não está relacionado à criança em si, mas a uma situação específica dentro daquele contato.

Aventuras Maternas – Que cuidados as famílias devem ter ao introduzir um animal na rotina de uma criança com TEA?

Mariana Casagrande – Sempre buscar animais com perfil adequado para a criança (e isso um bom profissional da área de cinoterapia poderá orientar), e sempre introduzir com respeito ao limite e tempo da criança, sem forçar a interação imediata.

Aventuras Maternas – Animais também têm problemas de saúde e podem falecer antes do esperado. Como esse tipo de situação pode impactar nas crianças com TEA?

Rachel Sette – A perda de um animal é um desafio significativo, mas também uma oportunidade profunda para trabalhar o conceito de finitude e o processamento do luto. Para crianças com TEA, que podem ter uma compreensão muito literal ou, ao contrário, uma dificuldade em expressar a tristeza, a morte do pet pode causar regressões temporárias ou aumento da ansiedade. É fundamental ser honesto, usar termos claros (evitando metáforas como “ele foi viajar”, que geram confusão, ansiedade e quebra o vínculo de confiança) e validar a dor da criança. Esse momento permite que o psicólogo e a família auxiliem a criança a organizar suas emoções, construindo rituais de despedida que ajudem a transformar a ausência física em uma memória afetiva, fortalecendo a resiliência emocional para perdas futuras ao longo da vida.

Aventuras Maternas – Como preparar o animal e a casa para que essa convivência seja segura e positiva para ambos?

Pedro Risolia – Para a segurança do animal e da família, é fundamental manter os cuidados básicos de saúde, que englobam vacinação em dia, vermifugação, alimentação balanceada e visitas frequentes ao veterinário. A rotina da casa deve ser adaptada para incluir passeios, estímulos mentais, enriquecimento ambiental e socialização constante.

 

 

Tags: Animais e autismoautistacãesgatosPets
Priscila Correia

Priscila Correia

Priscila Correia (@aventurasmaternas) é jornalista, casada e mãe de 2 meninos, Theo e Benjamin. Autora de livros infantis, adora viajar e escrever sobre educação e saúde. Tem diagnóstico de Superdotação, assim como seus dois filhos, e gosta de falar sobre o assunto. É colunista da AnaMaria Digital, onde compartilha matérias sobre maternidade, infância e adolescência.

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