Toda família, ou quase todas, com crianças já passou por situações como essas: filhos que interrompem conversas, que têm dificuldade de ouvir um “não”, que se frustram com facilidade ou que parecem menos dispostos a seguir combinados simples do dia a dia. Para muitos adultos, isso seria sinal de uma geração “mal educada”. Mas especialistas não são tão categóricos assim.
Se no passado a obediência sem contestação e o silêncio eram frequentemente vistos como sinônimos de boa educação, hoje os pais ensinam sobre autonomia e expressão emocional e investem no diálogo, o que, como todo movimento da sociedade, gera mudanças. Além disso, o comportamento infantil das gerações Z e Alfa é também reflexo das profundas transformações sociais e das dinâmicas familiares que mudaram a forma como as crianças crescem, se comunicam e se relacionam com o mundo. “Quando olhamos para gerações anteriores, pode parecer que havia mais obediência e gentileza. E, de fato, havia mais submissão. Mas isso não significa, necessariamente, mais saúde emocional. Hoje buscamos uma educação com mais diálogo, mais escuta, mais conexão. Isso é um avanço. Ao mesmo tempo, crianças continuam precisando de direção. Elas precisam sentir que existe um adulto que sustenta limites com firmeza e carinho. Autonomia não é ausência de limite, é liberdade com base segura”, pondera Mônica Pessanha, que é psicóloga infantil.
Outro fator que ajuda a explicar mudanças no comportamento infantil é o avanço da tecnologia, especialmente quando pensamos na presença intensa das telas e das redes sociais na vida de crianças e adolescentes desde muito cedo. O consumo rápido de conteúdos, a busca constante por estímulos imediatos e a redução do tempo de convivência offline podem impactar aspectos como atenção, paciência e tolerância à frustração. E tudo isso, é claro, causa reflexos na forma como esses indivíduos interagem com quem os cerca. Além disso, desenhos, videogames e, principalmente, influenciadores digitais passaram a dividir com pais e professores o papel de referência no desenvolvimento das crianças.
Na matéria de hoje, vamos falar mais sobre as mudanças que ocorreram na sociedade e como isso têm moldado o comportamento dos nossos filhos, além de trazer sugestões de como ensinar sobre pequenas gentilezas, como agradecer, pedir licença, cumprimentar e respeitar o próximo.
As crianças de hoje realmente estão mal educadas?
Embora muitas pessoas afirmem que as crianças e adolescentes de hoje estão “sem educação”, especialistas apontam que o comportamento das novas gerações reflete, na verdade, uma mudança na forma como elas se relacionam com autoridade, limites e expressão emocional. Diferentemente do que acontecia em outras décadas, quando a obediência muitas vezes estava ligada à submissão e ao medo, os jovens atuais tendem a questionar mais, expor opiniões e buscar relações mais “iguais” dentro de casa e na escola.
Segundo a psicanalista Elizandra Souza, na visão da psicanálise, o que se percebe não é obrigatoriamente uma falta de educação, mas uma profunda mudança na forma como as crianças se relacionam com a autoridade. “Antigamente, o respeito era imposto pelo medo e pela hierarquia rígida, o que silenciava as crianças. Hoje, as famílias buscam relações mais horizontais e abertas, permitindo que os pequenos expressem suas vontades e angústias de forma mais livre. Isto não significa que seja a maneira mais adequada ou produtiva de educar, pois os frutos estamos percebendo agora. Essa liberdade, embora pareça positiva para o desenvolvimento emocional, traz o desafio de construir limites sem o uso da força. Quando a criança tem espaço para falar e questionar, ela naturalmente se apresenta mais “desafiadora” aos olhos de gerações anteriores, contudo sem elementos constitutivos essenciais de conhecimento de base. O trabalho atual dos pais fica mais árduo, pois ajudar a criança a contornar suas pulsões e desejos de forma civilizada, usando o diálogo e a construção de sentido, com simples repressão, não se torna tarefa menos complexa.
Para Karen Scavacini, doutora em psicologia pela USP e fundadora do instituto de pesquisa em saúde mental Vita Alere, toda geração adulta tende a olhar para a infância atual com certo estranhamento, porque compara com o próprio modelo de criação. Mas também é verdade que as formas de educar mudaram muito. “Hoje, as crianças são mais ouvidas, têm mais espaço para expressar opinião, vivem em ambientes mais estimulantes e também mais acelerados. Isso pode ser confundido com falta de educação. Ao mesmo tempo, quando a criança não aprende limites, espera, respeito ao outro e convivência, isso não é apenas “mudança geracional”. É uma falha de educação mesmo. Então, eu não diria que as crianças de hoje são simplesmente mais mal educadas. Eu diria que elas crescem em um contexto mais complexo, e isso exige adultos mais presentes, mais coerentes e mais intencionais na educação”.
Mas se por um lado hoje as crianças têm mais liberdade para expor o que pensam para os pais, é preciso entender que escuta não deve ser confundido com ausência de limite. “Criança precisa de autonomia, mas precisa também de contorno. Precisa poder falar, mas também precisa aprender que nem tudo será do jeito dela. A diferença central é que antes havia muito limite com pouca escuta. Hoje, em algumas famílias, há muita escuta com pouco limite. O desafio é juntar as duas coisas”, avalia Karen. Para Mônica, existe, sim, uma confusão muito comum entre parentalidade respeitosa e permissiva. “Respeitar não é deixar a criança fazer tudo. Respeitar é reconhecer o que ela sente, mas continuar sendo o adulto da relação. A parentalidade permissiva evita o conflito e muitas vezes cede. Já a respeitosa sustenta o limite com empatia. É aquele lugar em que o adulto consegue dizer “eu entendo que você ficou bravo… e ainda assim, isso não pode””.
Outro ponto que devemos lembrar é que há fases do desenvolvimento, como a entrada na escola por volta dos seis anos, em que mudanças de comportamento tendem a ficar mais evidentes ( e isso nada tem a ver com falta de educação). “A criança passa a lidar com regras coletivas, espera, comparação, frustração. Tudo isso exige habilidades emocionais que ainda estão sendo construídas. É natural que apareçam mais irritações, inseguranças ou mudanças de comportamento. Nesse momento, mais do que corrigir, é importante acompanhar”, exemplifica Mônica. Ela diz, ainda, que o comportamento da criança pode mudar conforme o ambiente, e isso é esperado. “Em casa, ela costuma se soltar mais, porque se sente segura. Na escola, pode se desafiar diante das regras e das relações. Em espaços públicos, o cansaço e o excesso de estímulos aparecem. O importante é lembrar que o comportamento não é só o que se vê, é também o que a criança está tentando comunicar”.
- Karen comenta, ainda, que esses comportamentos desafiadores podem aparecer não apenas na escola, mas em casa e espaços públicos também, e por razões diferentes. “Em casa, muitas vezes aparecem porque a criança se sente mais segura para descarregar cansaço, raiva ou frustração. Na escola, aparecem quando há dificuldade de seguir regras coletivas, lidar com colegas ou manter atenção. Em espaços públicos, aparecem muito quando há excesso de estímulo, fome, sono, espera prolongada ou quando a criança ainda não aprendeu como se comportar fora de casa. O comportamento sempre comunica alguma coisa. Pode comunicar limite mal construído, cansaço, sofrimento, dificuldade de regulação, busca de atenção ou necessidade de ajuda”.
Mas, atenção: é importante diferenciar desafios comportamentais de possíveis transtornos. Condições como o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), o Transtorno Opositor Desafiador (TOD) ou o Transtorno do Espectro Autista (TEA) podem se manifestar através de comportamentos que desafiam as expectativas sociais. “Os pais devem buscar ajuda especializada quando o comportamento da criança causa um sofrimento significativo para ela mesma ou para os outros, e quando há prejuízos persistentes em seu desenvolvimento, na aprendizagem ou na socialização. Se as tentativas de acolhimento e imposição de limites em casa não surtem efeito, e a criança parece paralisada em sua angústia ou agressividade, um psicólogo ou psicanalista pode ajudar a decifrar o que está por trás desse sofrimento”, sugere Elizandra.
Gentileza gera gentileza
Expressões como “por favor”, “obrigado”, “com licença” e atitudes simples de respeito e empatia são fundamentais para o desenvolvimento social e emocional de crianças e adolescentes. Mais do que regras de etiqueta, esses comportamentos ajudam na construção de relações saudáveis, no controle da impulsividade e na capacidade de conviver em grupo de forma respeitosa.
Mônica explica que ensinar pequenas gentilezas é, na verdade, ensinar a criança a existir no mundo com o outro. “Quando ela aprende a cumprimentar, pedir licença, agradecer, ela está desenvolvendo algo muito profundo: a capacidade de reconhecer que não está sozinha. São gestos simples, mas que constroem empatia, pertencimento e respeito. E isso não se ensina apenas falando. Isso se ensina vivendo, no dia a dia”. Elizandra comenta, ainda, que, na psicanálise, essas pequenas gentilezas não são apenas regras de etiqueta vazias, mas ferramentas essenciais de inserção no mundo simbólico e social. “Quando a criança aprende a dizer “obrigado” ou “com licença”, ela está reconhecendo a existência do próximo, percebendo que o mundo não gira apenas em torno de seus próprios desejos. É um passo fundamental para sair do narcisismo infantil. Além disso, essas palavras funcionam como pontes para a construção de laços sociais saudáveis. Elas ajudam a criança a lidar com a frustração de ter que esperar ou de depender de alguém, organizando suas emoções através da linguagem. Ao usar essas expressões, a criança aprende a mediar suas vontades e a se colocar no lugar do outro, desenvolvendo empatia e capacidade de convivência”, complementa a psicanalista.
Mas não basta apenas ensinar. É preciso que os pais também sejam exemplo. O aprendizado dessas atitudes começa dentro de casa e depende muito do exemplo dos adultos. Afinal, crianças observam como os pais tratam outras pessoas, lidam com frustrações e resolvem conflitos. E quando os responsáveis praticam escuta, respeito e gentileza no cotidiano, esse comportamento tende a ser reproduzido pelos filhos.
E um alerta importante: a ausência desse aprendizado pode trazer consequências importantes não apenas no presente, mas também no futuro. Crianças e adolescentes que crescem sem desenvolver empatia, respeito e responsabilidade podem enfrentar dificuldades de convivência na escola, nos relacionamentos e, mais tarde, no ambiente profissional. A intolerância à frustração, a dificuldade em ouvir “não” e os comportamentos agressivos ou individualistas tendem a impactar diretamente a vida social e emocional.
As temidas redes

O uso excessivo de celulares, jogos e, principalmente, das redes sociais, interferem diretamente na construção emocional e comportamental de crianças e adolescentes. A dificuldade em lidar com um tempo de resposta maior que o imediato, a necessidade constante de novidades e a reprodução de comportamentos não adequados vistos na internet passaram a influenciar a convivência com a família, amigos e sociedade de forma geral.
Elizandra explica que o consumo de conteúdos rápidos, como vídeos curtos e redes sociais, oferece uma gratificação instantânea e contínua que sequestra a atenção da criança. “Para a psicanálise, isso interfere diretamente na capacidade de suportar o vazio e o tédio, que são estados fundamentais para o desenvolvimento da criatividade e da reflexão”. Para Karen, esses conteúdos rápidos e muito estimulantes podem afetar a forma como a criança lida com espera, tédio e atenção sustentada. “Não é que toda tela cause problema, mas o uso excessivo, sem mediação, em idades muito precoces ou em momentos em que a criança deveria estar brincando, dormindo, conversando ou se movimentando, pode interferir bastante. A criança se acostuma a recompensas imediatas, mudanças rápidas de estímulo e baixa exigência de esforço. Depois, atividades mais lentas, como ler, ouvir uma explicação, esperar a vez ou brincar sem tela, podem parecer insuportáveis”.
Outro ponto importante a ser alertado é sobre como as crianças aprendem muito por identificação com os desenhos animados e videogames. “Na psicanálise, sabemos que a criança projeta suas próprias fantasias, medos e desejos nos personagens”, alerta Elizandra. Ou seja, conteúdos muito violentos ou acelerados podem agitar o mundo interno da criança, fornecendo modelos de resolução de conflitos baseados na impulsividade ou na agressividade, em vez do diálogo. “Talvez, nem tanto pelo conteúdo violento, mas pela frequência, pois isso se torna comum, a forma mais fácil, habitual”, complementa. Karen lembra, também, que essa infleuncia não acontece de forma automática. “Uma criança não se torna agressiva apenas porque viu um desenho ou jogou videogame. O que importa é o conjunto: idade da criança, tipo de conteúdo, tempo de exposição, contexto familiar, sono, rotina, mediação dos pais e vulnerabilidades individuais”.
Mas se tirar a tecnologia da vida deles é impossível, como não deixar que interferiram tanto no comportamento dos nossos filhos? Monitorando e trazendo-os para a realidade. “As telas, especialmente quando usadas sem mediação, podem dificultar a construção da paciência, da atenção sustentada e da autorregulação. Não se trata de demonizar, mas de cuidar. A criança precisa de experiências que não são imediatas: brincar, esperar, se entediar, imaginar. É nesses espaços que ela se organiza internamente”, avalia Mônica. Para Elizandra, não se trata apenas de proibir, mas de ajudar a criança a digerir e simbolizar o que ela está consumindo. “Quando os pais assistem junto, conversam sobre as atitudes dos personagens e ajudam a diferenciar a fantasia da realidade, eles oferecem um contorno seguro. A mediação transforma um consumo passivo e potencialmente desorganizador em uma oportunidade de elaboração e aprendizado”, complementa.
Abaixo, Elizandra sugere cinco estratégias práticas que os pais podem adotar para favorecer cooperação, respeito, autorregulação e comportamentos socialmente adequados:
1. Sustentar o “não” com afeto: O limite deve ser firme, mas não precisa ser agressivo. Explicar o motivo do “não” ajuda a criança a internalizar a regra e a entender que a frustração faz parte da vida;
2. Validar as emoções: Quando a criança estiver frustrada, nomeie o sentimento (“Eu sei que você está com raiva porque queria o brinquedo”). Isso ajuda a criança a organizar o que sente através da linguagem, em vez de atuar através de birras;
3. Dar espaço para a palavra: Incentive a criança a falar sobre o que a incomoda. Uma criança que consegue expressar suas angústias verbalmente tem menos necessidade de se expressar através de comportamentos desafiadores;
4. Ser modelo de autorregulação: As crianças aprendem muito por identificação. Se os pais reagem aos problemas com gritos e impulsividade, a criança fará o mesmo. Mostrar como lidar com a própria frustração de forma madura é o melhor ensinamento;
5. Criar rotinas previsíveis: A rotina funciona como um contorno que dá segurança psíquica à criança. Saber o que vai acontecer ao longo do dia reduz a ansiedade e facilita a cooperação nas tarefas diárias.
Direto ao ponto
A seguir, Elizandra Souza, Karen Scavacini e Mônica Pessanha falam mais sobre o assunto.
Aventuras Maternas – É frequente a comparação com gerações anteriores, vistas por muitos como mais obedientes ou mais gentis. Essa leitura procede? O que diferencia a criação atual daquela de outras gerações em relação a limites, autonomia e convivência?
Elizandra Souza – A obediência das gerações passadas estava muito ligada ao temor da punição e à submissão a uma figura de autoridade inquestionável, geralmente o pai. A psicanálise nos lembra que reprimir desejos e emoções pelo medo não significa somente que a criança aprendeu a conviver bem, mas que, de certa forma, ela aprendeu a se esconder ou se adaptar. A obediência imposta por obrigação muitas vezes não carrega uma empatia totalmente real. O que diferencia a criação atual é a busca por uma autonomia onde seja possível entender o porquê das regras, esperando que os limites sejam internalizados não pela ameaça, mas pela compreensão do impacto de suas ações no outro. Isso exige muito mais paciência e presença dos pais, pois construir uma convivência baseada no respeito mútuo e na empatia dá muito mais trabalho do que simplesmente exigir obediência cega. O problema é que esta forma de educação tem se tornado mais teórica que prática. Ou seja, na teoria, é muito bonita, mas quando as coisas precisam acontecer realmente, ninguém corresponde como deveriam, nem pais, nem filhos, nem educadores. Ficam todos perdidos em teorias superficiais que não compreendem as realidades de crianças, adolescentes e seus responsáveis.
Aventuras Maternas – A baixa tolerância à frustração tem sido frequentemente associada às novas gerações. Como essa característica se desenvolve e de que forma a educação familiar pode influenciar esse aspecto?
Karen Scavacini – A tolerância à frustração não nasce pronta. Ela é construída. A criança aprende isso aos poucos, quando percebe que pode desejar algo e não receber imediatamente, que pode ficar triste e sobreviver a essa tristeza, que pode esperar, perder, errar, tentar de novo. Quando os adultos tentam evitar toda frustração, resolvem tudo pela criança, cedem para não haver conflito ou oferecem uma tela para cada desconforto, eles impedem esse aprendizado. A criança precisa experimentar frustrações proporcionais à idade, com adultos por perto para ajudá-la a nomear o que sente e encontrar formas mais saudáveis de reagir.
Aventuras Maternas – Quais fatores mais contribuem para comportamentos desafiadores entre crianças e adolescentes hoje? Como a construção de limites na família se insere nessa discussão?
Mônica Pessanha – Comportamentos desafiadores quase nunca surgem “do nada”. Eles costumam ser um sinal de algo que ainda não está organizado dentro da criança. Pode ser excesso de estímulo, cansaço, dificuldade de lidar com emoções, falta de rotina, ou até mesmo a dificuldade dos adultos em sustentar limites de forma consistente. O limite, quando bem colocado, não machuca, ele protege. Ele ajuda a criança a se sentir segura dentro de um mundo que, muitas vezes, é grande demais para ela.
