Ensinar uma criança a lidar com dinheiro pode começar em gestos simples. Uma ida ao mercado, a decisão de guardar para comprar um brinquedo ou até a administração da primeira mesada podem se transformar em oportunidades para falar sobre escolhas, prioridades e consequências. Para especialistas, esse aprendizado construído em casa pode ter impacto direto no futuro dos filhos. E o tema ganha urgência diante dos dados: o número de jovens endividados dobrou entre 2016 e 2024, alcançando 27,6 milhões de pessoas, segundo o Banco Central, com inadimplência superior à de adultos e idosos. Diante desse cenário, cresce a defesa de que a educação financeira deixe de ser uma conversa para depois e passe a fazer parte da infância.
Se a falta de controle financeiro na juventude acena para uma vida adulta problemática, é preciso voltar a fita e pensar: e se fossemos ensinados, desde cedo, sobre o valor do dinheiro? Especialistas apontam que a ausência de educação financeira na infância e adolescência é um dos principais fatores por trás desse alto endividamento, já que muitos entram na vida adulta sem compreender conceitos básicos sobre planejamento dos gastos.
Alan Raimondi, que é casado com Priscila e tem dois filhos, David, de 5 anos, e Helena, de 2, conta que a decisão de conversar com seus filhos sobre finanças surgiu, principalmente, pela sua profissão estar relacionada a investimentos e educação financeira. “Com o passar do tempo e devido a minha própria experiência de vida, percebi como a falta de educação financeira pode gerar grandes dificuldades na vida, de uma forma geral. Digo isto, porque problemas financeiros impactam em todos os setores, como relacionamento com a família, pessoal e atrasa, de forma significativa, conquistas importantes. Isto me motivou a fazer diferente com meus filhos”. Ele conta, ainda, que o tema está presente em casa desde cedo e de forma natural. “No dia a dia, damos exemplos e pequenas responsabilidades para eles executarem em casa, como guardar os brinquedos. Se eles ajudarem a arrumar os sapatos e/ou com alguma coisa da casa, ele ganha uma certa quantia em dinheiro. Desta forma, ele começa a entender a importância do trabalho e da troca”, complementa.
Na matéria de hoje, conversamos com especialistas no assunto, que vão orientar pais e cuidadores sobre a melhor forma de ensinar sobre educação financeira e como esta pode impactar no futuro dos nossos filhos.
O “valor” da mesada
Mais do que um simples valor entregue periodicamente, a mesada pode ser a porta de entrada para o aprendizado financeiro ainda na infância. Ao receber uma quantia fixa todos os meses, a criança passa a ter contato direto com escolhas, limites e consequências, avaliando se prefere gastar tudo de uma vez ou planejar para conquistar algo maior no futuro. Nesse processo, conceitos como organização, prioridade e até frustração começam a fazer parte do dia a dia, de forma prática e acessível.
Na família de Alan e Priscila, um valor símbolo de R$ 100,00 é separado para o filho e dividido em três envelopes. “Com 5 anos, ele ainda não sabe diferenciar bem os valores, mas já começa a ter conhecimento para lidar com o dinheiro. Falo para ele que o primeiro envelope é para investir e multiplicar o dinheiro. O segundo envelope é para ele comprar o que ele quiser. E o terceiro fica para doação, pode ser para ajudar alguém que precise ou na igreja. Desta forma, acredito que, aos poucos, ele entenderá o conceito e a importância de cada envelope para uma vida saudável e equilibrada.
Para Gabriel Senna, que é educador financeiro e economista da Advisor’s Society, a conversa sobre dinheiro pode e deve começar mais cedo do que a maioria dos pais imagina. “Por volta dos 3 a 4 anos, as crianças já são capazes de entender conceitos simples como troca (você dá algo para receber algo). A partir dos 6 anos, quando a noção de valor começa a se formar, já é possível introduzir a ideia de escolha e consequência: “se você comprar isso agora, não vai ter dinheiro para aquilo depois”. Não existe cedo demais para plantar a semente. O que precisa mudar é a linguagem, não o conceito. Utilizar jogos que apresentem de forma lúdica o uso do dinheiro, como o Banco Imobiliário, é uma boa estratégia também”, sugere.
Marcello Lasneaux, diretor de Inteligência e Inovação da Heavenly International School, diz, ainda, que a mesada pode ser compreendida como um importante instrumento pedagógico no processo de educação financeira, desde que sua utilização vá além da simples entrega de dinheiro à criança. “Mais do que oferecer um valor periódico, trata-se de criar uma oportunidade concreta para o desenvolvimento de noções de responsabilidade, planejamento e autonomia”.
Já Damir Forner, que é professora e CEO da Peixinho Feliz, e criadora do projeto de alfabetização financeira da instituição, comenta que a mesada, quando bem utilizada, funciona como um “texto prático” da vida real, pois permite que a criança experimente, na prática, conceitos como escolha, consequência e prioridade. “O mais importante não é o valor em si, mas o processo: permitir que a criança erre, reflita e reorganize suas decisões. Os pais devem atuar como mediadores, orientando, mas não controlando excessivamente, para que o aprendizado seja genuíno e não apenas imposto. É importante, acima de tudo, conversar com a criança e ajuda-la a diferenciar o que é necessário e o que é supérfluo”.
Tiago Silveira, que é professor da disciplina de Educação Financeira dos Anos Finais no Colégio Espírito Santo, comenta, também, sobre como situações cotidianas, como fazer compras no mercado, planejar passeios ou guardar dinheiro para um brinquedo, podem se transformar em oportunidades para ensinar educação financeira aos filhos. “O cotidiano é o melhor laboratório”, diz. No supermercado, exemplifica, peça para o seu filho encontrar o item com o melhor custo-benefício e converse sobre como chegou a essa conclusão. Ao planejar viagens, defina um teto de gastos para os “extras”, como sorvetes e lembrancinhas, e deixe que a criança gerencie esse valor durante os dias de passeio. “Se acabar no primeiro dia, ela aprenderá a lição sobre escassez na prática”, avalia.
Mas, um aviso importante: é preciso que, ao ensinar sobre o assunto para os filhos, os pais também sejam exemplo: “A linguagem mais poderosa no processo educativo não é a verbal, mas a comportamental. Crianças aprendem por observação e repetição de padrões. Quando os pais demonstram organização, planejamento e coerência, estão oferecendo um modelo concreto de comportamento. Por outro lado, incoerências entre discurso e prática tendem a gerar ruído e enfraquecer o aprendizado. E em educação financeira, o exemplo não é apenas importante, ele é determinante”, avalia Forner.
Futuros investidores
Se a mesada é o primeiro passo para ensinar crianças sobre controle financeiro, formar investidores desde cedo pode ser caminho para evitar dívidas no futuro.
Kaê Macedo, consultor de investimentos da Unicred Coalizão, explica que a ideia de dar mesada a partir dos seis ou sete anos pode ser um começo para dar noções sobre gastos e controle, mas alerta que apenas isso não forma o entendimento do jovem. É preciso também ensinar a fazer escolhas com o dinheiro e entender as consequências dessas decisões. “A mesada é uma ferramenta prática e acessível para dar os primeiros passos nessa educação. Ao receber um valor periódico, a criança passa a lidar com escolhas, prioridades e limites, desenvolvendo noções importantes de organização financeira”, pontua.
Mas o desafio, alerta, vai além de ensinar a poupar. “É preciso criar uma mentalidade voltada para o futuro. O hábito de economizar, claro, é essencial e deve ser ensinado. Porém, com o tempo, é necessário desenvolver uma visão de longo prazo, apresentando os conceitos de risco, retorno e planejamento, exemplificando os benefícios de investir”, explica o consultor. Essa mudança de perspectiva contribui para formar adultos mais preparados para tomar decisões conscientes e sustentáveis.
Em instituições com o modelo cooperativista, como a Unicred Coalizão, em que o cooperado é sócio e participa mais ativamente da instituição, a lógica vai além da oferta de produtos como previdência e consórcios, e passa pela formação financeira ao longo do tempo. E o interessante é exatamente analisar algumas soluções que visam preparar as próximas gerações para uma relação mais equilibrada com o dinheiro. “Para filhos maiores de 18 anos, quando os pais fazem um investimento, o filho também passa a ser um cooperado independente e a ter uma matrícula própria. Já no caso de conta para menores de idade, ela é vinculada ao responsável, para que a criança ou adolescente seja introduzido ao sistema financeiro de forma assistida”, comenta Kaê, que complementa: “Mas, para mudar mentalidades, não basta apenas investir, é preciso envolver os filhos no processo de investimentos e ajudá-los a entender que o dinheiro pode crescer ao longo do tempo. Os pais devem permitir que as crianças participem das decisões. Isso inclui mostrar o saldo evoluindo, explicar o que é rendimento e criar objetivos que engajem. Tudo isso, junto, ajuda a transformar a relação com o dinheiro”.
Já para os pais preocupados “apenas” em construir um patrimônio para os filhos usufruírem no futuro, seja para educação, aposentadoria ou aquisição de bens no futuro, Macedo sugere alguns caminhos. “Guardadas as diferenças entre os perfis, de forma geral, a renda fixa com títulos públicos é sempre uma excelente opção, principalmente títulos atrelados à inflação ou à Selic. Não existe um tempo mínimo, mas nos juros compostos o tempo é uma variável exponencial, por isso, quanto mais tempo você tiver, melhor será o resultado”, diz.
Mas, atenção: para quem deseja organizar o futuro financeiro dos filhos, é preciso ficar de olho em alguns pontos. “O principal erro é tratar investimento como evento, e não como processo. É preciso, ainda, entender que quanto mais cedo começar, melhor; e que é essencial focar no comportamento de poupar e não em produtos de investimentos”, avalia. “De forma bastante objetiva, se você quiser começar hoje a preparar o seu filho para ser um investidor no futuro, três passos são fundamentais: estabelecer aportes recorrentes; utilizar instrumentos simples e compreensíveis; e incluir o filho no processo de decisão, ainda que de forma progressiva. No longo prazo, isso vai construir algo mais valioso do que patrimônio, que é a disciplina financeira”, conclui Kaê.
Direto ao Ponto
A seguir, Gabriel Senna, Marcello Lasneaux, Damir Forner e Tiago Silveira esclarecem outros pontos sobre o assunto que podem ajudar os pais e responsáveis na hora de ensinar crianças e adolescente a lidar com dinheiro.
Aventuras Maternas – Como adaptar o ensino sobre dinheiro para diferentes fases da infância e adolescência?
Gabriel Senna – Cada fase pede uma linguagem diferente. Para crianças pequenas, entre 4 e 7 anos, o aprendizado acontece pelo concreto (moedas, cédulas, cofrinhos físicos, jogos de faz de conta com mercadinho). Dos 8 aos 12 anos, a mesada com responsabilidade já funciona muito bem: a criança aprende a gerir um recurso real dentro de um prazo real. Na adolescência, o salto é para o pensamento estratégico — metas de médio prazo, primeiros contatos com o conceito de investimento, e especialmente a consciência sobre consumo e identidade, porque nessa fase a pressão social sobre o que comprar é enorme. A chave em todas as fases é tornar o aprendizado vivencial, não teórico.
Aventuras Maternas – Como os pais podem incentivar os filhos a guardar parte da mesada, presentes que ganham em dinheiro ou ganhos de pequenos trabalhos para alcançar objetivos? Qual é o valor educativo desse processo?
Damir Forner – O incentivo deve vir por meio da construção de objetivos claros e significativos para a criança ou adolescente. Guardar dinheiro deixa de ser uma imposição e passa a ser uma estratégia para conquistar algo desejado. Esse processo ensina planejamento, paciência e autocontrole — habilidades fundamentais não apenas para a vida financeira, mas para qualquer projeto de vida. É, essencialmente, o aprendizado de adiar recompensas em favor de objetivos maiores.
Aventuras Maternas – Quais diferenças na hora de abordar o assunto com crianças e adolescentes?
Marcello Lasneaux – Como qualquer outro assunto, a abordagem da educação financeira deve respeitar a fase de desenvolvimento da criança e do adolescente, considerando sua maturidade cognitiva, emocional e social. Com as crianças, o ideal é que o tema seja tratado de forma mais concreta e prática, a partir de situações do cotidiano, como compras no supermercado, uso do cofrinho, economia para adquirir um brinquedo ou a própria mesada. Nessa etapa, o foco deve estar na construção de noções básicas, como valor, escolha, espera e responsabilidade. Já com os adolescentes, a abordagem pode ser mais aprofundada e dialógica, uma vez que eles já possuem maior capacidade de abstração e reflexão crítica. Nesse momento, é possível introduzir temas como planejamento de gastos, consumo consciente, orçamento mensal, uso de cartão, reserva, metas de curto e longo prazo, além de discutir os impactos do endividamento e da impulsividade nas decisões financeiras. Em ambas as fases, o mais importante é que o assunto seja tratado com naturalidade, como parte da formação para a vida, e não como um tema isolado ou meramente técnico. Essa organização se liga categoricamente com uma previsão curricular especialmente no ensino médio com o eixo de empreendedorismo. Há uma expectativa do Estado que deve ser trabalhada concretamente.
Aventuras Maternas – Pensando no futuro, quais hábitos financeiros aprendidos na infância podem fazer mais diferença quando eles se tornarem adultos e precisarem administrar a própria vida financeira?
Tiago Silveira – Muitos pais acreditam que falar sobre dinheiro com as crianças é um assunto árduo ou precoce, mas a verdade é que a educação financeira começa muito antes do primeiro salário. Como educador e matemático, costumo dizer que o dinheiro é apenas uma ferramenta; o que realmente ensinamos aos nossos filhos são valores, escolhas e a capacidade de planejar o amanhã. Essa jornada pode — e deve — começar cedo, por volta dos três ou quatro anos, quando a criança inicia suas primeiras noções de trocas. Nessa fase, o lúdico é nosso maior aliado: usar cofrinhos transparentes, onde ela possa ver as moedas “crescerem”, transforma o conceito abstrato de poupança em algo concreto e visual. À medida que crescem, o aprendizado deixa de ser apenas sobre “guardar” e passa a ser sobre “decidir”. Dentro de casa, as primeiras lições não surgem de fórmulas, mas da percepção da diferença entre o que queremos e o que realmente precisamos. Ensinar a “espera gratificada” — aquele exercício de paciência para conquistar algo maior no futuro — é o alicerce para um adulto consciente. É essencial que os pais apresentem o dinheiro como um recurso finito. Envolver os filhos em situações cotidianas, como a ida ao supermercado, é uma oportunidade de ouro. No corredor das compras, podemos ensinar o custo-benefício e mostrar que o marketing nem sempre está a favor do nosso bolso, desenvolvendo neles um olhar crítico sobre o consumo e a sustentabilidade. Essa educação precisa evoluir conforme as fases da vida. Se na infância focamos no cofrinho e no consumo imediato, na pré-adolescência a introdução da mesada torna-se o laboratório perfeito para o erro controlado. É melhor eles aprenderem a lidar com a escassez agora, ao gastar toda a mesada em um dia, do que aprenderem isso anos mais tarde com o limite do cartão de crédito. Ao chegar no Ensino Médio, o jovem já deve ser capaz de compreender conceitos mais complexos, como o funcionamento dos juros e a importância de alinhar suas finanças aos seus projetos de vida e sonhos de longo prazo. O hábito que mais fará diferença na vida adulta desses jovens não será a habilidade de fazer contas complexas, mas sim o controle comportamental. Adultos que aprenderam na infância a gerenciar pequenos desejos e a planejar passeios em família tornam-se cidadãos mais resilientes, menos ansiosos e mais preparados para administrar sua própria liberdade. No fim das contas, educar financeiramente é dar aos nossos filhos a autonomia necessária para que o dinheiro seja sempre um meio para a felicidade, e nunca o senhor de suas vidas.
