A novela da mudança da escala 6×1
É possível que, quando essa coluna seja publicada, a eliminação da escala 6×1 já tenha sido votada. Ou esteja em vias de acontecer. A verdade é que ela vem sendo discutida há bastante tempo e, por ter impacto direto no bolso dos empregadores, os adiamentos da votação realmente aconteceram. A lei visa a diminuir a carga semanal de trabalho das atuais 44 horas semanais (o que obriga grande parte da população a trabalhar meio período no sábado – o sexto dia da semana) para 40 horas (proposta do governo) ou 36 horas (proposta da deputada Erika Hilton, que tem pouca força política para ser aprovada).
Dentre as justificativas para o lobby contrário à redução da carga, além do aumento de custos do empregador (que deveria manter o mesmo salário atual dos empregados e, ainda assim, contratar mais pessoas para os turnos descobertos), encontram-se outras questões menos evidentes. Uma delas é a garantia de serviços 24 horas, facilitada por esse tipo de escala e o trabalho logístico e operacional de reorganizar os turnos da maioria dos funcionários que se encontram sob esse regime de trabalho.
O outro lado da conta
O impacto negativo que tem sido pouco discutido na sociedade é que modelo de escala 6×1, que exige as 4 horas a mais para completar a carga horária atualmente em vigor (pelo menos enquanto esta coluna era escrita), vem acompanhado de pagamento de horas extras, seja pelo trabalho no final de semana ou pelo adicional noturno. A redução da jornada semanal de trabalho diminui significativamente a necessidade do pagamento das horas extras, podendo afetar a renda mensal dos trabalhadores.
Pior: se estamos falando da tão sonhada (e defendida por mim, aqui nessa coluna) da autonomia financeira feminina, pode ser um pequeno passo para trás no alcance desse objetivo.
Onde a redução da jornada melhora a vida e o trabalho
Para os colaboradores de forma geral, com certeza. A escala 5×2 (trabalha-se cinco dias na semana, na maioria das vezes dias de semana, com folga aos finais de semana), diminui a fadiga física e mental das pessoas e permite que elas passem mais tempo em atividades de lazer, convívio social e com a família.
Isso gera naturalmente uma sensação maior de bem-estar e contribui para a redução dos índices de afastamento relacionados à saúde mental e ao burnout, além de, de forma mais indireta, diminuir problemas cardíacos e distúrbios do sono.
Quando estamos falando de colaboradoras mulheres, esse efeito é recebido com mais facilidade, porque não podemos esquecer da jornada extra de cuidado da casa, dos filhos e, às vezes, dos pais idosos. Quanto menos tempo no trabalho, mais tempo para se dedicar a esse outro tipo de atividade (infelizmente não remunerada) e menos pressão para dar conta de tudo.
Um outro ponto importante é que a reorganização dos turnos de trabalho abrirá um número enorme de novos postos de trabalho, que poderão ser ocupados por mulheres que atualmente têm menos flexibilidade de horário para trabalhar por falta de rede apoio para cuidar dos filhos.
Além disso, quando analisamos o tipo de emprego que utiliza, de fato, a escala 6×1 atualmente, percebemos que a grande maioria se concentra em serviços de saúde, cuidado e comércio. Ou seja, setores majoritariamente femininos.
O impacto direto na carreira das mulheres
Enquanto governo, empresas e sociedade dão passos pequenos na direção da igualdade de gênero, a redução da jornada de trabalho, com o fim da escala 6×1, e a conquista de um dia a mais de folga na semana são ingredientes importantes para diminuir a sobrecarga da tripla jornada que ainda é a realidade de grande parte das brasileiras.
Aliás, essa é uma realidade que precisa entrar na pauta das discussões com urgência. Enquanto a divisão do cuidado (da casa, dos filhos, dos idosos) não for dividida de forma mais equilibrada, veremos resultado apenas no curtíssimo prazo (o descanso urgente e a redistribuição imediata das tarefas da própria mulher em mais dias). Sem que os homens façam sua parte, rapidamente as mulheres estarão sobrecarregadas novamente e os resultados reais não se sustentarão no médio e longo prazo.
Ao contrário, se o cuidado e as atividades domésticas forem divididas, as mulheres começam a ter tempo para cuidar de si mesmas, investir tempo em cursos que abram oportunidades estratégicas de trabalho, aumentar sua auto-estima, sua autonomia financeira e, de fato, alcançar mais espaços de lideranças. Mulheres em cargos de liderança inspiram e criam condições para outras mulheres. Assim, colocamos a roda da mudança para girar.
Problema: A desigualdade começa antes da jornada
Apesar de termos diversas leis aprovadas ou em aprovação (como a lei da igualdade salarial, ampliação da licença-paternidade e diversas leis relacionadas à violência contra as mulheres e, agora a mudança da escala 6×1), elas ainda não dão conta de fechar o gap entre gêneros. Essas medidas trazem contribuições pontuais importantes e, coletivamente, colocam a igualdade de gênero em lugar um pouco mais central na sociedade brasileira. No entanto, enquanto não enxergamos que as diferenças estão enraizadas na estrutura da nossa sociedade e mercado de trabalho, não teremos avanços significativos. Comemoremos o fim da escala 6×1, mas sem perder o foco das mudanças mais significativas.
