Além de seu uso na culinária, sabia que a deliciosa tilápia também possui um grande potencial no campo da medicina, mais especificamente para o tratamento de queimaduras de pele? Pioneira, a técnica foi idealizada há alguns anos por dois médicos brasileiros, Marcelo Borges e Edmar Maciel.
De acordo com estudos, a aplicação da pele da tilápia como curativo biológico protege e hidrata ferimentos causados por queimaduras de segundo e terceiro graus, devido ao conjunto de colágeno subcutâneo e à grande durabilidade que o material possui. A pele do peixe também promove rápida reconstituição da camada dérmica afetada e não necessita ser trocada diariamente, como acontece com curativos tradicionais.
O método é usado em pacientes desde 2016 no Instituto Doutor José Frota, em Fortaleza (CE). A partir de então, mais de 500 vítimas de queimaduras já foram tratadas com o recurso alternativo em todo o país. Segundo a Universidade Federal do Ceará (UFC), nenhuma dessas pessoas teve casos de reação ou infecção. Ademais, a diminuição do tempo de cura, das dores e dos gastos são as principais vantagens da prática.
Como a ideia surgiu?
Conforme a Revista Brasileira de Queimaduras, em 2011, o cirurgião plástico Marcelo Borges teve a ideia de utilizar a pele da tilápia no tratamento de queimaduras após ler uma matéria no Jornal do Comércio de Pernambuco. A nota revelou que o material era subproduto de descarte e apenas 1% era empregado no artesanato.
Em 2014, o médico compartilhou o pensamento com o também cirurgião plástico Edmar Maciel, que o convidou para realizar o estudo no Nordeste do Brasil. Ainda, o anuário 2022 da associação PeixeBr divulgou que as tilápias representam 63,5% da produção nacional de pescados, somando 534.005 toneladas do peixe em apenas um ano no país.
Assim, devido à sua importância socioeconômica e ambiental, o aproveitamento de tal elemento biológico levou ao desenvolvimento de pesquisas acerca da viabilidade do procedimento.
Como a pele da tilápia é preparada?
A pele do peixe passa por vários processos antes de ser utilizada no tratamento de queimaduras. A primeira etapa consiste na retirada da pele por uma máquina, seguida de uma lavagem e raspagem para remoção de restos de músculos. Então, o material é transferido para frascos e armazenado em uma caixa isotérmica.
A próxima etapa corresponde à descontaminação, na qual a pele é incubada sob agitação constante à temperatura ambiente em quatro diferentes soluções. Logo depois, o material é congelado a -80°C por 16 horas, desidratado e embalado a vácuo.
O último passo é a radioesterilização, que ocorre no Ipen, em São Paulo (SP), onde a pele sofre radiação ionizante para eliminar qualquer tipo de microorganismos restantes. Posteriormente, ela é reidratada com soro fisiológico e está pronta para uso.
