Em tempos de fartura de produtos sem glúten nas prateleiras e dietas glúten-free circulando nas redes sociais, muita gente passou a torcer o nariz para o pão. Mas a verdade é que, quando o assunto é saúde intestinal, cortar alimentos por conta própria pode mais confundir do que ajudar. A doença celíaca existe e não deve ser tratada como uma moda alimentar. Nem todo desconforto depois de comer trigo significa intolerância ao glúten.
A doença celíaca é uma condição autoimune em que o organismo reage ao glúten, proteína presente no trigo, na cevada e no centeio. Essa reação provoca inflamação e lesões no intestino delgado, prejudicando a absorção de nutrientes e exigindo uma dieta totalmente livre de glúten por toda a vida.
Doença celíaca ou sensibilidade ao glúten?
Apesar de muita gente usar os termos como sinônimos, eles falam de situações diferentes. A chamada sensibilidade não celíaca ao glúten pode causar sintomas parecidos com os da doença celíaca, mas sem a mesma lesão intestinal.
“A doença celíaca é uma condição potencialmente grave, uma doença autoimune em que há lesão do intestino delgado quando o indivíduo é exposto mesmo a pequenas quantidades de glúten na dieta”, explica Sandro Rodrigues Chaves, gastroenterologista da Rede Mater Dei de Saúde, em entrevista à AnaMaria.
Entre os sintomas que podem aparecer nas duas condições estão:
- Distensão abdominal;
- Desconforto ou dor abdominal recorrente;
- Diarreia;
- Arrotos frequentes;
- Sensação de digestão difícil;
- Gases e estufamento;
- Fadiga;
- Anemia sem causa identificada;
- Alterações na pele, como dermatite herpetiforme.
Por isso, a melhora depois de cortar pão, massas e bolos não fecha o diagnóstico sozinha. O corpo pode reagir por muitos motivos, e nem sempre o glúten é o responsável.

O culpado pode ser outro
Pão, massas e bolos costumam levar a culpa, mas esses alimentos também podem ter outros componentes capazes de causar desconforto, como leite, gordura, açúcar e conservantes. Além disso, comer grandes quantidades de trigo, gordura ou açúcar pode sobrecarregar a digestão e favorecer gases, distensão e diarreia.
Esses sintomas intestinais também aparecem em outras condições, como síndrome do intestino irritável, disbiose, doença inflamatória intestinal, parasitoses, alterações gástricas e insuficiência pancreática. “É fundamental descobrir a real causa do problema para fazer o tratamento correto. Sem isso, o paciente não melhora e o tratamento atrasa”, diz o gastroenterologista.
Como é feito o diagnóstico
A doença celíaca não tem diagnóstico simples, nem deve ser definida por tentativa e erro em casa. A avaliação precisa considerar sintomas, histórico clínico e exames adequados. Em geral, o gastroenterologista solicita exames de sangue para investigar marcadores associados à doença e, quando necessário, avalia o intestino delgado para confirmar se há lesão.
Também é possível descobrir a doença na vida adulta, mesmo que a pessoa tenha passado anos comendo glúten sem grandes incômodos. Segundo Sandro, a doença celíaca ocorre em pessoas geneticamente suscetíveis, mas a predisposição genética sozinha não significa que a pessoa ficará doente.
Segundo Sandro, a doença costuma ser identificada com mais frequência na infância, especialmente entre 5 e 8 anos, mas existe um segundo pico na vida adulta. Ainda assim, isso não quer dizer que todo mundo deva sair fazendo exames sem critério. A investigação deve partir dos sintomas e da avaliação médica.
Tirar o glúten emagrece ou melhora a saúde?
Para quem não tem doença celíaca nem sensibilidade não celíaca ao glúten, retirar essa proteína da alimentação não traz benefício comprovado. Pelo contrário: a restrição pode pesar no bolso, limitar a vida social e empobrecer a rotina alimentar sem necessidade.
Por isso, antes de mudar a dieta de forma radical, o caminho mais seguro é investigar a causa dos sintomas com orientação médica.
Já para quem tem doença celíaca, a história é outra. O cuidado precisa ser rigoroso, porque pequenas quantidades de glúten, quando aparecem de forma recorrente, podem manter a inflamação no intestino e dificultar o controle da doença. A contaminação cruzada pode acontecer na bancada da cozinha, no forno, em utensílios compartilhados ou em alimentos preparados no mesmo ambiente.
Isso muda a rotina da casa, da família e até da vida social. Muitas pessoas precisam preparar marmitas, levar lanches próprios, evitar padarias e restaurantes que não sejam totalmente dedicados ao público celíaco e recusar comidas em festas, mesmo quando parecem seguras.
A matéria acima foi produzida para a revista AnaMaria Digital (edição 1527, de 26 de junho de 2026). Se interessou? Baixe agora mesmo seu exemplar da Revista AnaMaria nas bancas digitais: Bancah, Bebanca, Bookplay, Claro Banca, Clube de Revistas, GoRead, Hube, Oi Revistas, Revistarias, Ubook, UOL Leia+, além da Loja Kindle, da Amazon. Estamos também em bancas internacionais, como Magzter e PressReader.
Leia também:
Roteiro de comida sem glúten: opções saborosas e seguras para os celíacos
