A suspensão da vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan gerou dúvidas entre muitas famílias que acompanham a campanha de imunização no Brasil. Afinal, quem recebeu a vacina nos postos de saúde precisa se preocupar? A vacinação será interrompida?
A resposta é não. O imunizante suspenso não é o mesmo que vem sendo aplicado rotineiramente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Atualmente, a vacina disponível na rede pública para crianças e adolescentes de 10 a 14 anos continua sendo a Qdenga, produzida pela farmacêutica japonesa Takeda. A orientação do Ministério da Saúde é direcionada apenas às pessoas que participaram de projetos específicos que utilizaram a vacina desenvolvida pelo Butantan.
Quem recebeu a vacina do SUS não foi afetado pela suspensão
A recomendação anunciada pelo Ministério da Saúde envolve exclusivamente o imunizante brasileiro que ainda está em fase de desenvolvimento. Essa vacina vinha sendo utilizada em profissionais da atenção primária à saúde e em projetos-piloto realizados em municípios selecionados. Por isso, a grande maioria da população vacinada contra a dengue não foi impactada pela medida.
A Qdenga continua sendo aplicada normalmente nas unidades de saúde que participam da estratégia nacional de vacinação contra a doença.
O que motivou a suspensão temporária?
O Ministério da Saúde orientou que pessoas que receberam a vacina do Butantan observem possíveis sinais e sintomas nos primeiros 21 dias após a aplicação. A medida foi adotada após o registro de eventos adversos graves, incluindo mortes, que estão sendo investigados pelas autoridades de saúde. O objetivo é aprofundar a análise dos casos e garantir a segurança dos participantes que receberam o imunizante.
O que diferencia as duas vacinas?
Embora ambas tenham como objetivo proteger contra os quatro sorotipos do vírus da dengue, elas apresentam diferenças em sua composição e desenvolvimento.
A Qdenga utiliza como base o vírus da dengue do sorotipo 2 enfraquecido e componentes dos demais sorotipos produzidos por engenharia genética. Já a vacina do Butantan contém versões atenuadas dos quatro tipos do vírus da dengue. Nos dois casos, o organismo entra em contato com formas enfraquecidas do vírus, estimulando o sistema imunológico a produzir proteção sem provocar a doença.
Como funciona a eficácia dos imunizantes?
A eficácia pode variar conforme fatores como idade, histórico de infecção prévia e características individuais.
Dados apresentados para a Qdenga mostram:
- 80,2% de redução dos casos sintomáticos entre 12 e 18 meses após a vacinação completa;
- 90,4% de redução das hospitalizações no mesmo período;
- proteção prolongada observada ao longo de sete anos de acompanhamento.
Já a vacina do Butantan apresentou nos estudos clínicos:
- 73,5% de eficácia em pessoas que nunca tiveram dengue;
- 89,2% de eficácia em quem já teve contato anterior com o vírus;
- 79,6% de eficácia geral.
Os números indicam que ambos os imunizantes demonstraram potencial para reduzir casos da doença e suas formas mais graves.
Quem pode tomar cada vacina?
Atualmente, a Qdenga possui aprovação regulatória e pode ser aplicada em pessoas de 4 a 60 anos, independentemente de já terem tido dengue anteriormente. No SUS, a vacinação está concentrada em crianças e adolescentes de 10 a 14 anos, faixa etária definida pelo Programa Nacional de Imunizações.
A vacina do Butantan ainda não está disponível para a população em geral. Seus estudos de fase 3 envolveram mais de 16 mil participantes com idades entre 2 e 59 anos, faixa que poderá ser contemplada futuramente caso o imunizante obtenha aprovação definitiva.

Uma diferença importante está no número de doses
Outro ponto que distingue os dois imunizantes é o esquema vacinal. A Qdenga exige duas aplicações, com intervalo de três meses entre elas. O esquema completo é necessário para alcançar a proteção esperada.
Já a vacina do Butantan foi desenvolvida para funcionar com apenas uma dose. Durante os estudos, os pesquisadores avaliaram esquemas com duas aplicações, mas os resultados indicaram que uma única dose era suficiente para manter a resposta imunológica observada nos testes. Essa característica é considerada uma das principais apostas do instituto para ampliar a cobertura vacinal no futuro.
O que fazer se você recebeu a vacina do Butantan?
A orientação das autoridades sanitárias é acompanhar possíveis sintomas e procurar atendimento médico caso surjam sinais de alerta nos primeiros 21 dias após a aplicação. Quem recebeu a Qdenga nos postos de saúde não precisa alterar o calendário vacinal nem tomar qualquer medida adicional por causa da suspensão anunciada.
Resumo:
A vacina contra a dengue suspensa temporariamente pelo Ministério da Saúde é a desenvolvida pelo Instituto Butantan e ainda em fase de avaliação. A medida não afeta a Qdenga, imunizante aplicado normalmente pelo SUS em crianças e adolescentes de 10 a 14 anos. As duas vacinas protegem contra os quatro sorotipos da dengue, mas possuem diferenças na composição, eficácia e número de doses.
