O Acidente Vascular Cerebral (AVC) é uma das principais causas de incapacidade física e neurológica no mundo. Embora o atendimento de emergência seja determinante para reduzir sequelas e aumentar as chances de recuperação, o período que sucede a alta hospitalar representa um novo desafio para pacientes e familiares. Recuperar movimentos, fortalecer a musculatura, melhorar a fala e retomar a autonomia exige um processo de reabilitação contínuo, conduzido por uma equipe multiprofissional e, em alguns casos, complementado por terapias integrativas.
Entre essas práticas está a acupuntura, que vem sendo estudada por pesquisadores e utilizada como recurso complementar no processo de recuperação de pessoas que sofreram um AVC. A técnica não substitui o tratamento médico nem as terapias de reabilitação, mas pode atuar como uma aliada dentro de um plano terapêutico individualizado.
Essa é a avaliação da massoterapeuta e acupunturista Vânia Silva, que passou a acompanhar de perto a recuperação da própria mãe após um AVC isquêmico. Com autorização e acompanhamento da equipe médica responsável pelo caso, ela incorporou sessões de acupuntura ao tratamento já realizado, observando progressos ao longo das semanas.
Experiência reforçou a importância do tratamento integrado
Segundo Vânia Silva, a decisão de utilizar a acupuntura ocorreu somente após a estabilização clínica da paciente e sempre em conjunto com as demais abordagens recomendadas pelos profissionais responsáveis pela reabilitação.
A especialista afirma que a evolução observada trouxe esperança para toda a família.
“Desde o início da recuperação, passei a fazer acupuntura diariamente nela, sempre respeitando todas as orientações médicas. Aos poucos fomos percebendo uma melhora importante na fala, nos movimentos dos braços e na resposta do corpo. Como filha e como profissional, acompanhar essa evolução foi muito emocionante.”
Ela ressalta, no entanto, que cada paciente responde de maneira diferente ao tratamento e que fatores como idade, extensão da lesão cerebral, rapidez no atendimento e comprometimento com a reabilitação influenciam diretamente os resultados.
Como a acupuntura atua no organismo
Originária da Medicina Tradicional Chinesa, a acupuntura consiste na aplicação de agulhas muito finas em pontos específicos do corpo. De acordo com essa prática milenar, a estimulação desses pontos busca restabelecer o equilíbrio do organismo.
Sob a perspectiva científica, pesquisadores investigam os efeitos da técnica sobre diferentes mecanismos fisiológicos. Estudos apontam que a acupuntura pode estimular a liberação de neurotransmissores, favorecer a circulação sanguínea, modular processos inflamatórios, reduzir dores e contribuir para mecanismos relacionados à neuroplasticidade, capacidade do cérebro de reorganizar conexões após uma lesão.
Esses possíveis efeitos explicam o crescente interesse pela utilização da acupuntura durante a reabilitação de pacientes acometidos por AVC, sempre como tratamento complementar.
O que dizem os estudos científicos
Nos últimos anos, pesquisas internacionais passaram a reunir evidências sobre os efeitos da acupuntura em pacientes que sofreram AVC isquêmico.
Uma revisão sistemática publicada em 2024, que reuniu dados de 40 estudos clínicos envolvendo mais de 4.400 pacientes, concluiu que a associação entre acupuntura e tratamento convencional esteve relacionada à melhora da função neurológica, da capacidade para realizar atividades da vida diária e da redução do grau de incapacidade.
Os próprios autores, entretanto, destacam que parte das evidências apresenta qualidade metodológica moderada ou baixa, indicando a necessidade de novos estudos para confirmar os benefícios observados.
Outra revisão científica publicada no mesmo ano verificou que pacientes submetidos à acupuntura associada aos programas convencionais de reabilitação apresentaram melhor recuperação motora e redução dos déficits neurológicos quando comparados aos tratamentos tradicionais realizados isoladamente.
Os pesquisadores ressaltam que a técnica deve integrar um plano terapêutico multidisciplinar e jamais substituir os cuidados médicos.
Reabilitação depende de uma equipe multidisciplinar
Especialistas reforçam que a recuperação após um AVC envolve a atuação conjunta de neurologistas, fisiatras, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos, psicólogos, nutricionistas e outros profissionais, conforme as necessidades de cada paciente.
O objetivo é recuperar funções comprometidas, estimular a independência, prevenir complicações e proporcionar melhor qualidade de vida durante o processo de recuperação.
Nesse cenário, terapias integrativas podem contribuir para aliviar sintomas, favorecer o bem-estar físico e emocional e ampliar as possibilidades terapêuticas quando utilizadas com responsabilidade e respaldo profissional.
Para Vânia Silva, a experiência vivida ao lado da mãe reforçou ainda mais a importância de uma abordagem integrada.
“Quando falamos em reabilitação, não existe milagre nem solução única. Existe um conjunto de cuidados que caminham juntos. A acupuntura é uma ferramenta que pode contribuir para esse caminho, sempre respeitando a avaliação médica e as necessidades individuais de cada paciente.”
Informação pode fazer diferença para outras famílias
Ao compartilhar sua experiência, Vânia espera contribuir para que outras famílias conheçam as possibilidades existentes durante a recuperação após um AVC, sempre com orientação profissional e baseada em evidências científicas.
Ela destaca que buscar informação de qualidade, seguir rigorosamente as recomendações da equipe médica e compreender que a recuperação é um processo gradual são atitudes fundamentais para enfrentar esse período com mais segurança e esperança.
