No Dia Mundial de Conscientização do TDAH, celebrado em 13 de julho, é importante ampliarmos a conversa para uma realidade que ainda gera muitas dúvidas entre famílias, educadores e até profissionais da saúde: a coexistência entre o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e o Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Durante muitos anos, acreditava-se que uma criança não poderia apresentar os dois diagnósticos ao mesmo tempo. Hoje sabemos que isso não apenas é possível, como acontece com frequência. Estudos indicam que uma parcela significativa das pessoas autistas também apresenta características compatíveis com o TDAH, formando um quadro conhecido como comorbidade.
Na prática, isso significa que uma mesma criança pode ter necessidade de previsibilidade e rotina, característica comum do autismo, e ao mesmo tempo demonstrar impulsividade, inquietação e dificuldades de atenção típicas do TDAH. Essa combinação pode tornar os desafios do dia a dia ainda mais complexos para a família.
Muitas vezes, os pais percebem que algo não se encaixa completamente nas explicações que recebem. A criança pode ter interesses intensos e dificuldades de interação social, mas também parecer extremamente impulsiva. Pode precisar de organização, mas ter enorme dificuldade para segui-la. Pode ser sensível a estímulos sensoriais e, ao mesmo tempo, buscar movimento constante.
Quando isso acontece, é comum que as famílias se sintam confusas.
“Mas afinal, é autismo ou TDAH?”
Em muitos casos, a resposta é: ambos.
O problema é que nem sempre essa coexistência é identificada rapidamente. Algumas crianças recebem inicialmente apenas um dos diagnósticos e passam anos sem compreender totalmente suas necessidades. Isso pode gerar intervenções incompletas, dificuldades escolares persistentes e sofrimento emocional desnecessário.
Por isso, a avaliação cuidadosa e multidisciplinar é tão importante.
Mas existe outro aspecto sobre o qual precisamos falar: a culpa das famílias.
Recebo frequentemente relatos de mães e pais que se perguntam se fizeram algo errado. Se foram permissivos demais. Se colocaram telas em excesso. Se não impuseram limites suficientes. Se falharam em algum momento.
A resposta é não.
Tanto o autismo quanto o TDAH são transtornos do neurodesenvolvimento. Eles não são causados pela educação recebida, pelo afeto oferecido ou pelas escolhas parentais. O que as famílias precisam não é de culpa, mas de informação, acolhimento e suporte.
Também é importante lembrar que nenhuma criança é definida pelo seu diagnóstico.
Quando falamos sobre TEA e TDAH, estamos falando de cérebros que funcionam de maneira diferente. Existem desafios, sem dúvida, mas também existem potencialidades. Muitas dessas crianças são criativas, curiosas, observadoras, inovadoras e possuem formas únicas de enxergar o mundo.
O nosso papel, como adultos, não é tentar encaixá-las em modelos rígidos de desenvolvimento. É ajudá-las a compreender suas características, desenvolver estratégias para lidar com as dificuldades e fortalecer suas habilidades.
Para isso, a parceria entre família, escola e profissionais é fundamental.
Quanto mais cedo identificamos as necessidades da criança, maiores são as oportunidades de oferecer suporte adequado. E quanto mais conhecimento circula na sociedade, menor é o preconceito que ainda cerca os transtornos do neurodesenvolvimento.
Neste Dia Mundial de Conscientização do TDAH, deixo uma mensagem especial às famílias atípicas: vocês não precisam ter todas as respostas. Não precisam acertar o tempo todo. Não precisam carregar o peso de fazer tudo sozinhos.
Cada diagnóstico pode trazer desafios, mas também pode abrir caminhos para a compreensão. E compreender uma criança é sempre o primeiro passo para ajudá-la a florescer.
Porque, antes de qualquer laudo, existe uma infância que merece ser acolhida, respeitada e incentivada a desenvolver todo o seu potencial.
