Antes de entrar na sala de cinema para ver “O Agente Secreto”, confesso que me senti na obrigação de assistir. O filme vem sendo muito elogiado mundo afora, especialmente depois de sua estreia mundial no Festival de Cannes 2025, onde foi ovacionado de pé por cerca de 13 minutos e garantiu os prêmios de Melhor Ator para Wagner Moura e de Melhor Diretor para Kleber Mendonça Filho. E aí pensei: se todo mundo lá fora está falando tão bem de um filme que fala de um capítulo tão marcante da história brasileira – a ditadura militar -, eu, como brasileira, precisava ver também, né?
A produção se passa em 1977, durante o regime militar no Brasil, e acompanha Marcelo (Wagner Moura), um professor especialista em tecnologia que decide voltar para Recife em busca de paz, depois de um passado violento em São Paulo, apenas para descobrir que ainda está sendo perseguido. A trama se desenrola entre paranoia, vigilância, suspeitas, traições e medo, em um clima de tensão permanente, enquanto Marcelo tenta sobreviver em um país onde ninguém sabe em quem confiar.
Igual, mas diferente
O que acho particularmente interessante em “O Agente Secreto” é que ele não é “só mais um filme de ditadura”. Além de retratar o auge da repressão militar, o longa mistura elementos de fantasia, mistério e até horror, com referências a lendas urbanas e cenas que beiram o surreal, como a simbólica “perna cabeluda”. Essa escolha de narrativa é diferente do que parte do público costuma comentar sobre filmes brasileiros que, muitas vezes, “falam só da ditadura e de coisa ruim”.

Tecnicamente, o filme é impecável: tem 100% de aprovação no Rotten Tomatoes, reflexo da recepção calorosa da crítica internacional. A direção de arte, a reconstrução de época e a fotografia envolvente transportam o espectador para a atmosfera dos anos 70 no Recife. Wagner Moura entrega uma atuação muito contida, mas carregada de nuances – um homem cauteloso, sempre atento aos arredores, como se o perigo estivesse em cada esquina. O elenco de apoio, incluindo nomes como Maria Fernanda Cândido, Gabriel Leone e Alice Carvalho, contribui para um retrato denso do Brasil naquele período.
Ritmo lento
Em meio a tantos elogios, não passa despercebido o ritmo do filme. Não sei se estou acostumada com tramas mais rápidas e dinâmicas, mas senti “O Agente Secreto” um pouco arrastado, principalmente no início. A sensação que dá é que ele tem uma longa introdução que demora para captar a atenção do telespectador. Outro ponto negativo, para mim, foi a maneira como o longa é organizado. Em alguns momentos, me peguei confusa, tentando entender em que altura do filme estávamos. Os saltos temporais e os muitos detalhes que exigem atenção podem afastar quem não está preparado para um ritmo mais deliberado.

Alguns elementos narrativos, como a “perna cabeluda” mencionada mais acima, também não recebem uma explicação clara do que significa e o que está fazendo ali. Apesar de gostar dessa parte da trama, me causou certa estranheza e, de tanta curiosidade, confesso que me peguei pesquisando sobre a lenda na própria sala de cinema, com o filme ainda rolando.
Pode não agradar quem busca um ritmo ágil ou explicações imediatas, mas O Agente Secreto é um filme relevante, impactante e que permanece na cabeça depois da sessão. Se você gosta de cinema que faz pensar e que dialoga com nossa história de forma densa e cuidadosa, vale a ida ao cinema.
A matéria acima foi produzida para a revista AnaMaria Digital (23 de janeiro). Se interessou? Baixe agora mesmo seu exemplar da Revista AnaMaria nas bancas digitais: Bancah, Bebanca, Bookplay, Claro Banca, Clube de Revistas, GoRead, Hube, Oi Revistas, Revistarias, Ubook, UOL Leia+, além da Loja Kindle, da Amazon. Estamos também em bancas internacionais, como Magzter e PressReader.
Leia também:
Além de ‘O Agente Secreto’: 5 filmes com Wagner Moura que você precisa conhecer








