Nunca se falou tanto em alcoolismo como nos últimos meses. O tema, que até hoje é visto como um tabu, foi revisitado no remake de “Vale Tudo” (2025) depois de quase 40 anos da primeira versão da novela. A temática, que poderia não surpreender por ter tido uma obra tão recente que aborda o assunto, ganhou uma nova representação com “(Des)controle”, protagonizado por Carolina Dieckmmann.
O filme, que também conta com Caco Ciocler, Daniel Filho, Júlia Rabello e Irene Ravache no elenco, traz uma abordagem totalmente diferente, com muita sensibilidade, e mostra que o tema, ainda pouco difundido e com tantas vertentes, jamais poderia se desgastar.
Dirigido por Carol Minêm (“Todo Dia a Mesma Noite”) e Rosane Svartman (“Dona de Mim”), que assina o roteiro ao lado de Felipe Sholl e Iafa Britz, produtora do filme, “(Des)controle” acompanha Kátia Klein, uma autora de livros infanto-juvenil muito bem sucedida. Interpretada por Dieckmmann, Kátia está sóbria há 15 anos e enche a boca para falar que parou de beber sozinha e por escolha própria, mas é enfática ao dizer que não é alcoólatra, ou melhor, alcoolista. Porém, ao lidar com um bloqueio criativo, uma crise no casamento, a rotina dos dois filhos, a pressão para a entrega do próximo livro e as expectativas dos pais para arranjar o melhor Bar Mitzvá possível, a escritora volta a beber para tentar enfrentar tudo isso ao mesmo tempo.
Sem romantização
Tente achar uma cena que represente o alcoolismo com romantização e falhe nessa tarefa. Apesar de apelar para o humor em algumas ocasiões, o filme não deve ser creditado unicamente como uma comédia. A produção é uma sensível representação do que significa ir de uma taça de vinho ao descontrole total, até o momento em que suas escolhas passam a interferir na vida de entes queridos e você se vê no meio de uma intervenção (ou várias), organizada pela família e amigos.

“(Des)controle” também ousa em mostrar o “glamour” da bebida. Quem nunca consumiu álcool para ficar mais divertida? Para se soltar, ficar menos tímida, relaxar ou apenas porque está em um ambiente de comemoração e é esperado que você tenha um copo na mão? Para isso, o longa utiliza a Vânia, que se apresenta como uma versão “mais divertida” da Kátia que a incentiva a beber. Essa persona, que passa a aparecer cada vez mais ao decorrer do filme, argumenta que uma taça de vinho irá ajudá-la a terminar o livro. Outra fará com que ela supere o ex-marido. E assim por diante, até que a mulher percebe que já tem garrafas de bebidas escondidas em diversos cantos da casa.
O problema é que tudo que a Vânia promete realmente acontece, mas o grande questionamento é: a que custo? É uma vantagem acordar com a bolsa na geladeira? Ou pior: colocar em risco a própria vida e a dos filhos? Em diversas cenas em que essa outra versão da Kátia aparece, o humor se faz presente em momentos que deveriam ser de pura tristeza, e até raiva, por ver alguém fazer aquilo consigo mesma. Essa mistura agridoce deixa a experiência mais leve, mas ainda prioriza a reflexão.
Mais do que mil palavras
A atenção aos detalhes também é um show à parte da direção. Em uma certa altura do filme, Kátia decide fazer um teste online para saber se é alcoólatra, termo dito por ela mesma. Mas, ao entrar no site, o questionário utiliza a palavra “alcoolista”, considerado mais adequado e menos pejorativo por profissionais de saúde. Isso nunca é dito em voz alta por ninguém, não é uma informação reafirmada, mas são essas minúcias que tornam “(Des)controle” mais humano.

O mesmo acontece com o vício da personagem em Coca-Cola zero quando ela não está bebendo, a blusa amassada ao pedir desculpas pelos problemas que causou, os pés cheios de areia após uma noite de bebedeira e por aí vai. As imagens parecem falar bem mais que a boca, como se o telespectador pudesse perceber o processo de descontrole de Kátia antes dela mesma até que ela não sabe mais como parar – não sozinha, pelo menos.
Não perca!
Não só recomendo a ida ao cinema, como eu a incentivo. O filme aborda temas importantes a serem debatidos, e não apenas o alcoolismo, mas tudo que a doença implica: o reconhecimento dos sinais, a autoconsciência do problema, a luta pela sobriedade, as recaídas, os efeitos em pessoas próximas e a importância do diálogo. Apesar de não ser o tema principal da produção, não se pode fechar os olhos para a sobrecarga materna, que também é um dos assuntos primordiais e que dá o pontapé inicial para que a discussão tome conta da tela do cinema. Não tem como negar que é um baita gancho para prender a atenção de mulheres, que têm tudo para se identificar logo de cara.
É um filme de gargalhadas, de se debulhar em lágrimas, de embrulhar o estômago, de se preocupar consigo mesma e com os próximos e, mais importante, de muita identificação, seja pela relação com a bebida, com os desafios da maternidade e a pressão de conciliar trabalho com a família. Já disponível nos cinemas desde o dia 5 de fevereiro.
A matéria acima foi produzida para a revista AnaMaria Digital (30 de janeiro). Se interessou? Baixe agora mesmo seu exemplar da Revista AnaMaria nas bancas digitais: Bancah, Bebanca, Bookplay, Claro Banca, Clube de Revistas, GoRead, Hube, Oi Revistas, Revistarias, Ubook, UOL Leia+, além da Loja Kindle, da Amazon. Estamos também em bancas internacionais, como Magzter e PressReader.
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