Acordar ainda escuro, sair de casa com pressa e chegar à escola com sono acumulado faz parte do cotidiano de muitas crianças no Brasil. Esse modelo, no entanto, vem sendo questionado por especialistas em educação e saúde, que apontam impactos diretos no aprendizado, no humor e até no desenvolvimento físico dos alunos. Cada vez mais, estudos indicam que o horário das aulas pode influenciar, e muito, o desempenho escolar.
A discussão ganha força porque o corpo infantil funciona de acordo com um relógio biológico próprio. Quando esse ritmo é desrespeitado, o efeito aparece nas primeiras horas do dia, com queda de atenção, irritabilidade e maior dificuldade de concentração.
O papel do relógio biológico no aprendizado
O chamado ciclo circadiano regula funções básicas do organismo, como sono, vigília, fome e níveis de alerta. Em crianças, esse relógio interno tende a favorecer horários um pouco mais tardios para atividades que exigem foco mental.
Pesquisas mostram que acordar muito cedo reduz o tempo total de sono, algo especialmente preocupante na fase escolar. Dados da Fundação Nacional do Sono indicam que crianças de 3 a 5 anos precisam dormir entre 10 e 13 horas por noite, enquanto aquelas de 6 a 13 anos necessitam de 9 a 11 horas. Quando esse descanso é insuficiente, o estado de alerta fica prejudicado logo no início do dia.
Sono, emoção e desempenho caminham juntos
Dormir bem não afeta apenas a memória e a atenção. O sono também participa do desenvolvimento emocional e da capacidade de lidar com frustrações. “O sono é um dos pilares do desenvolvimento cognitivo e emocional. Quando respeitamos o ritmo natural do corpo, promovemos mais saúde, mais concentração e mais capacidade de aprendizagem”, afirma Raquel Faracini, orientadora educacional do Colégio Progresso Bilíngue Taquaral.
Segundo ela, o impacto de noites mal dormidas pode se refletir em queda no rendimento escolar, dificuldade de socialização e maior estresse no ambiente familiar.
Estudar à tarde pode favorecer o início do dia
Para algumas famílias, o período vespertino surge como alternativa viável. Estudar à tarde permite que a criança acorde mais tarde, tome café da manhã com calma e chegue à escola mais desperta. “Acordar sem pressa reduz o estresse matinal nas famílias, e o tempo livre pela manhã pode ser aproveitado para atividades extracurriculares, leitura ou exercícios físicos leves, que também impactam positivamente no desempenho acadêmico”, explica Raquel.
Esse formato também pode facilitar consultas médicas e compromissos que costumam ser mais difíceis de encaixar quando a criança estuda pela manhã.
Por que o período da manhã ainda predomina nas grades escolares?
Apesar das evidências, o turno matutino continua sendo o mais comum no país. Questões logísticas, organização do transporte escolar e a própria rotina de trabalho dos pais influenciam essa escolha. A tradição cultural também pesa, já que estudar de manhã é visto, por muitos, como sinônimo de disciplina.
“É importante que os pais se sintam seguros para escolher o que é melhor para o seu filho, mas essa decisão precisa considerar a saúde física e emocional da criança, não apenas a conveniência da rotina adulta”, ressalta Raquel.
Pontos positivos e desafios de cada turno
A escolha entre manhã ou tarde envolve avaliar ganhos e dificuldades de cada período.
Prós do período matutino
As primeiras horas do dia costumam ter clima mais ameno e menos estímulos externos, o que pode favorecer atividades ao ar livre e tarefas que exigem concentração. Outro ponto positivo é a possibilidade de fazer a lição de casa à tarde, quando o conteúdo ainda está recente na memória do aluno.
Contras do período matutino
O principal desafio é o desalinhamento com o relógio biológico. Dormir menos do que o recomendado pode gerar prejuízos cognitivos e emocionais. A correria matinal também leva muitas crianças a saírem de casa sem se alimentar adequadamente, o que interfere na memória e na autorregulação. Para as famílias, conciliar horários de trabalho, transporte e compromissos médicos costuma aumentar o estresse.
Prós do período vespertino
Estudar à tarde permite um início de dia mais tranquilo. A manhã pode ser usada para esportes, leitura, atividades extracurriculares ou consultas. O café da manhã em família tende a ser mais frequente, o que contribui para hábitos alimentares mais regulares e maior convivência.
Contras do período vespertino
Nem todas as famílias conseguem adaptar a rotina. Pais que trabalham cedo podem enfrentar dificuldades com supervisão e deslocamento antes do início das aulas. As lições de casa costumam ficar para a manhã seguinte, e refeições e tarefas domésticas precisam ser reorganizadas.
Resumo:
O horário de estudo influencia o sono, o rendimento escolar e o bem-estar emocional das crianças. Pesquisas indicam que horários mais tardios respeitam melhor o ritmo biológico infantil. Avaliar prós e contras de cada turno ajuda as famílias a fazerem escolhas mais alinhadas à saúde e à rotina dos filhos.
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