Em 2025, a violência contra mulheres dominou o noticiário, as conversas entre amigas e famílias e ecoou intensamente nas redes sociais. Casos que chocam, entristecem e despertam uma sensação difícil de nomear: como ainda chegamos a esse ponto? No meio da indignação e da dor, essa pergunta ecoa com mais força e talvez mais urgência do que nunca.
Se a violência que vemos hoje é resultado de muitos fatores, ela também é reflexo de aprendizados que começaram lá atrás. Por isso, falar sobre respeito, limites e cuidado desde a infância não é exagero nem antecipação de problemas, mas um caminho possível para romper ciclos que se repetem. Entender como as crianças aprendem a se relacionar pode ser o primeiro passo para construir um amanhã mais seguro para mulheres (e para todos).
Violência nem sempre é física – e pode começar cedo
Quando o tema é violência, a imagem mais comum ainda é a da agressão física. Mas ela também se manifesta de forma mais sutil, especialmente no campo emocional. Humilhações, ameaças e manipulações fazem parte do que se chama de violência psicológica e, quando naturalizadas, tendem a se repetir ao longo da vida.
Para a doutora em Educação e pesquisadora da infância Adelir Marinho, iniciar essa discussão desde cedo é fundamental para ajudar a criança a identificar limites e construir formas de convivência mais saudáveis. “Quando falamos de violência com crianças, é importante ampliar o olhar”, diz. O cuidado, segundo ela, está em abordar o tema de maneira adequada à idade, sem excesso de informação ou carga emocional.
Exemplo educa mais do que discurso
Na primeira infância, o aprendizado acontece muito mais pela observação do que pelo discurso. A forma como os adultos resolvem conflitos, lidam com frustrações e expressam emoções cria um modelo poderoso. Ambientes em que o diálogo é valorizado e a agressividade não é normalizada tendem a formar crianças mais seguras emocionalmente.
“Quando meninos crescem em contextos onde o respeito é vivido no cotidiano, eles passam a compreender que todas as pessoas merecem consideração”, explica Adelir. Esse aprendizado diário ajuda a construir relações menos hierárquicas e mais empáticas, dentro e fora de casa.

Educação emocional começa no cotidiano
No dia a dia, são gestos simples que ensinam, sem discurso, como se relacionar com o outro:
- Resolver conflitos sem gritos ou humilhações
- Respeitar o tempo e as emoções da criança
- Ouvir antes de corrigir
- Mostrar, na prática, como pedir desculpas
- Valorizar o diálogo como caminho
Aprendendo a lidar com as emoções
Muitos comportamentos violentos estão ligados a ideias rígidas de masculinidade, que associam força à imposição ou ao silêncio emocional. A desconstrução desses padrões começa quando os meninos aprendem que sentir medo, tristeza ou frustração faz parte do desenvolvimento.
Permitir que as emoções sejam nomeadas e acolhidas ajuda a romper modelos que normalizam a violência. “Expressar sentimentos não torna ninguém menos forte”, afirma a pesquisadora. Relações baseadas no cuidado e no respeito ampliam o repertório emocional e reduzem a necessidade de afirmação pela agressividade.
Escola: território de convivência e aprendizado emocional
Além da família, a escola ocupa um papel central na formação emocional e social. Disputas por brinquedos, dificuldades de convivência e conflitos cotidianos são oportunidades valiosas para trabalhar empatia, cooperação e respeito.
Esses valores não devem aparecer apenas em projetos pontuais. Segundo Adelir, eles precisam atravessar a rotina escolar, orientando práticas, conversas e intervenções do dia a dia, para que façam sentido para as crianças.
Autonomia e proteção
Orientar meninas e meninos a reconhecer situações desconfortáveis faz parte da prevenção – e isso começa com atitudes simples do cotidiano. Fortalecer a autonomia não é ensinar a criança a se virar sozinha, mas ajudá-la a entender seus limites, sentimentos e direitos.
Respeitar quando ela diz que não quer um abraço, permitir que nomeie incômodos e mostrar que sua palavra será levada a sério são exemplos concretos desse cuidado. “Ensinar, de forma natural, que o corpo pertence à própria criança é um passo importante”, diz Adelir.
Esse vínculo de confiança se constrói quando o adulto escuta sem minimizar, não ri do medo ou da dúvida e evita respostas apressadas. Assim, a criança aprende que pode procurar ajuda sempre que algo não parecer certo — dentro ou fora de casa.
Um futuro mais seguro
“Criar crianças mais empáticas e conscientes exige escuta e consistência”, diz Adelir. Respeitar a infância, compreender que o desenvolvimento emocional acontece aos poucos e agir de acordo com os valores que se deseja transmitir são movimentos diários, quase invisíveis. É nesse cuidado contínuo, feito de pequenas escolhas, que se constrói um futuro mais seguro — para mulheres, crianças e para toda a sociedade.
A matéria acima foi produzida para a revista AnaMaria Digital (edição 1505, de 23 de janeiro de 2026). Se interessou? Baixe agora mesmo seu exemplar da Revista AnaMaria nas bancas digitais: Bancah, Bebanca, Bookplay, Claro Banca, Clube de Revistas, GoRead, Hube, Oi Revistas, Revistarias, Ubook, UOL Leia+, além da Loja Kindle, da Amazon. Estamos também em bancas internacionais, como Magzter e PressReader.








