No centro médico de fertilidade em Kampala, Uganda, Safina Namukwaya, de 70 anos, surpreendeu a todos ao dar à luz gêmeos, um menino e uma menina, por meio de um procedimento de fertilização in vitro (FIV) no final de 2023. Esse marco na medicina ocorreu após um tratamento desafiador e uma gestação difícil — tanto que o feito foi considerado um “milagre” para a própria genitora, uma das mulheres mais velhas do mundo a passar pela experiência da maternidade.
No entanto, à medida que o feito extraordinário destaca os avanços na medicina reprodutiva, ele também intriga até mesmo especialistas em fertilização, visto que o procedimento foge muito da idade padrão (35 a 45 anos) de mulheres que buscam uma FIV. Levando isso em consideração, AnaMaria Digital foi descobrir se é realmente viável fazer uma inseminação artificial em uma idade tão avançada, buscando entender quais seriam os riscos para a saúde da mãe e do bebê.
O ginecologista e obstetra Geraldo Caldeira explica que a idade avançada da gestante traz desafios significativos na FIV. Isso porque, a partir dos 37 anos, existe uma diminuição natural na quantidade e na qualidade dos óvulos. “Consequentemente, isso aumenta o risco de síndromes genéticas, como a síndrome de Down, entre outras, elevando ainda o risco de aborto”, afirma o médico.
IDADE LIMITE
O recente caso de Safina Namukwaya desafia não apenas as expectativas sociais, mas também as diretrizes médicas brasileiras. Isso porque, no Brasil, a indicação do Conselho Regional de Medicina (CRM) estabelece que a fertilização in vitro deve ser considerada até os 50 anos. Essa diretriz visa evitar os riscos associados à gravidez em idades mais avançadas.
De acordo com Geraldo Caldeira, a gestação tardia — acima dos 40 anos — pode estar associada a complicações como hipertensão, diabetes gestacional, parto prematuro e anomalias cromossômicas nos bebês. E se tiver gêmeos, como foi o caso da ugandesa, os riscos são ainda maiores. “Normalmente, essas pacientes precisam de cesárea e, geralmente, as cesáreas de gêmeos são feitas de 34 até 36 semanas”, informa o especialista.
RISCOS PARA A MÃE E PARA O BEBÊ
Além do risco da gestante ter pressão alta, diabetes gestacional e parto prematuro em gestações por FIV após os 40 anos, as capacidades físicas e de recuperação da mulher diminuem com a idade, tornando o processo de gestação e o parto mais desafiadores ainda.
Para evitar situações assim, Caldeira afirma que é muito importante fazer o estudo genético do embrião antes do processo de fecundação, na tentativa de reduzir tais riscos. “Com esta análise, existe a confirmação de que o embrião é geneticamente saudável, diminuindo a possibilidade de acontecer um aborto ou de haver a descoberta algum problema sério a partir do terceiro mês”.
O risco de síndromes genéticas em bebês de pacientes em idade avançada, caso da paciente de Uganda, é consideravelmente maior. “Além do bebê poder desenvolver síndromes genéticas, como a Síndrome de Down — o que aumenta os riscos de aborto, ainda existe o aumento do risco de prematuridade”, explica o médico.
ACOMPANHAMENTO E CUIDADOS ESPECÍFICOS
Caldeira ressalta que, para evitar problemas futuros, o ideal é que mulheres mais velhas passem por uma avaliação rigorosa antes de realizar a FIV. O check-up inclui exames cardiológicos, níveis de diabetes, pressão alta, entre outros, para garantir uma gestação saudável. “A paciente precisa ser bem acompanhada, escolhendo um médico especializado em pré-natal de alto risco”, ressalta.
Vale mencionar que a taxa de sucesso na FIV é diretamente proporcional à idade e reserva ovariana da paciente: “Quanto mais jovem ela for, melhor, pois existem mais óvulos e de melhor qualidade. Quanto mais velha, menos óvulos, e maior chance de embriões de pior qualidade e alterado geneticamente.”
Para pacientes com mais de 50 anos que fazem a FIV, existem cuidados específicos e contraindicações que o médico precisa estar ciente a fim de priorizar a segurança da gestante e do bebê.
“A paciente não pode ter pressão alta, não pode ter diabetes, tem que ter uma boa condição de saúde, como é o caso da atriz Claudia Raia. Então, para pacientes com mais idade, o procedimento só pode ser feito se elas estiverem em condições de saúde boas. Em alguns casos específicos, a gente pede autorização do CRM”, informa Geraldo Caldeira.
Ainda sobre o caso de Claudia Raia, vale mencionar que até mesmo os médicos expressaram surpresa pelo fato de ela ter engravidado aos 55 anos, enquanto estava na menopausa. O presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana, Paulo Gallo, em entrevista ao ‘Fantástico’, destacou a excepcionalidade da situação, observando que é um caso muito fora da média.
“É muito difícil explicar isso. Após a menopausa constituída, bem definida, a chance dessa mulher voltar a ovular, engravidar são praticamente zero. Eu falo praticamente porque a medicina não existe nada impossível. Nós ocasionalmente nos deparamos com situações médicas que a ciência não consegue explicar. Então, quando você me pergunta, como assim se explica isso? A primeira coisa, a primeira possibilidade é que essa mulher que achava que estava na menopausa poderia não estar”, disse Gallo.