Moradores e especialistas ficaram intrigados após um clarão roxo iluminar o céu de Cambará do Sul, na Serra do Rio Grande do Sul, por cerca de cinco minutos. Embora o registro tenha ocorrido no estado vizinho, o fenômeno rapidamente levantou dúvidas sobre a possibilidade de uma aurora boreal em Santa Catarina, já que as regiões ficam muito próximas geograficamente.
O responsável pelo registro foi o fotógrafo Egon Filter, morador da cidade, estudioso de astronomia e especializado em astrofotografia. Ele capturou o fenômeno por volta das 21h, utilizando uma técnica de longa exposição. Segundo o profissional, que atua na área há mais de 40 anos, a cena chamou atenção justamente por fugir do padrão comum observado no céu brasileiro.
Em reportagem do g1, Egon relatou emoção ao perceber o que estava diante de seus olhos. Para ele, apesar da raridade, a explicação mais plausível seria uma aurora austral, versão do fenômeno que ocorre no Hemisfério Sul.
É possível ter uma aurora boreal em Santa Catarina?
Apesar da empolgação inicial, cientistas alertam que a chance de uma aurora boreal em Santa Catarina, ou mesmo no Rio Grande do Sul, é extremamente baixa. Normalmente, auroras acontecem em regiões acima do paralelo 60, muito distante da latitude sul do Brasil.
Segundo o professor Carlos Fernando Jung, doutor em engenharia de produção e fundador do observatório Heller & Jung, em Taquara, é difícil afirmar que o registro seja, de fato, uma aurora. Conforme explicou ao g1, esse tipo de fenômeno surge quando partículas do vento solar interagem com o campo magnético da Terra, algo que se concentra próximo aos polos magnéticos.
Ainda assim, ele pondera que uma forte tempestade solar, registrada no dia anterior ao fenômeno, poderia favorecer eventos atmosféricos incomuns. No entanto, mesmo nessas condições, não se tratariam de auroras clássicas como as vistas na Noruega ou na Antártida.
Fenômeno atmosférico raro pode explicar céu roxo
Além disso, Jung levanta a hipótese de o fenômeno ser um airglow, um brilho atmosférico causado pela colisão de átomos na alta atmosfera após eventos como tempestades magnéticas. Porém, esse efeito costuma apresentar menor intensidade e coloração mais difusa no céu.
Já o doutor em Geofísica Espacial José Valentin Bageston, diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) em Santa Maria, também afirmou ao g1 que o registro não permite uma conclusão definitiva. Segundo ele, sensores do observatório de São Martinho da Serra não detectaram partículas solares compatíveis com uma aurora.
Entretanto, Bageston não descarta completamente outra possibilidade: o chamado Arco Vermelho de Aurora (SAR, na sigla em inglês). Ainda assim, ele ressalta que o padrão visual registrado em Cambará do Sul não corresponde totalmente aos registros clássicos desse fenômeno.
Mesmo sem uma explicação conclusiva, o episódio ganhou destaque internacional. O site americano Space Weather, referência mundial em fenômenos astronômicos, analisou as imagens e também apontou divergências entre especialistas.
Na publicação, os pesquisadores se mostraram surpresos com o registro no Sul do Brasil, região onde esse tipo de manifestação é considerada quase impossível. Ainda assim, reforçaram a importância científica do caso e a necessidade de novos estudos.
Resumo: Um fenômeno raro tingiu o céu de roxo no Sul do Brasil e levantou dúvidas sobre a possibilidade de aurora na região. Especialistas divergem entre aurora austral, airglow ou arco vermelho. Sem consenso, o caso já atrai atenção internacional e segue sob investigação científica.
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