Mesmo entre quem consegue guardar dinheiro, investir ainda não é um hábito no Brasil. Um estudo recente ajuda a explicar por que a poupança não se transforma, automaticamente, em aplicação financeira — e mostra que o problema vai muito além da renda.
Um levantamento encomendado pelo Google e realizado pela Offerwise revelou que 66% dos brasileiros que conseguem poupar não utilizam nenhum produto de investimento para fazer esse dinheiro render. A pesquisa, chamada Raio-X do Investidor, ouviu 1.392 pessoas em novembro de 2025 e escancarou uma distância cultural e prática entre “guardar” e “investir”.
Poupar não significa investir
Os dados mostram que o brasileiro até consegue separar dinheiro, mas costuma direcioná-lo para objetivos imediatos ou simbólicos, sem associar esse hábito ao mercado financeiro. Entre os principais destinos do dinheiro guardado estão planos como comprar ou quitar um imóvel, trocar de carro, viajar ou abrir um negócio. Ainda assim, a maior parte dessas pessoas não enxerga o investimento como ferramenta direta para alcançar esses objetivos.
Essa desconexão aparece até na forma como as pessoas buscam informações. Termos ligados a “guardar dinheiro” costumam vir acompanhados de metas concretas, enquanto buscas relacionadas a “investir” aparecem associadas a conceitos mais abstratos, como aposentadoria ou renda futura.
Falta de conhecimento segue como principal barreira
O estudo também aponta que o desconhecimento é um dos maiores entraves para a entrada no mundo dos investimentos. Cerca de 63% dos entrevistados não conseguem citar espontaneamente nenhum produto financeiro. Além disso, muitos relatam dificuldade para entender como funcionam as aplicações disponíveis no mercado.
A linguagem técnica, a variedade de opções e a ausência de orientação personalizada contribuem para esse cenário. Para parte da população, investir ainda parece algo distante, complexo ou restrito a quem já tem muito dinheiro.
Medo de golpes e insegurança com o longo prazo
Outro fator relevante é o receio de fraudes. Quase metade dos entrevistados afirmou que o medo de cair em golpes influencia diretamente a decisão de não investir. Também pesam a insegurança em relação aos retornos de longo prazo e a dificuldade de confiar em instituições ou produtos financeiros.
Esses elementos ajudam a explicar por que, mesmo quando há sobra no orçamento, o dinheiro acaba parado em contas correntes, aplicações informais ou produtos de baixíssima rentabilidade.

Um cenário econômico mais favorável, mas ainda subaproveitado
Apesar das barreiras, a pesquisa indica que o contexto econômico recente é visto de forma positiva por grande parte da população. A combinação de desemprego em patamar historicamente baixo e aumento real da renda fez com que muitos brasileiros enxergassem um momento propício para contratar serviços financeiros. Ainda assim, essa percepção não se traduz automaticamente em maior adesão aos investimentos.
Novos hábitos, mesmas dúvidas
Nos últimos dois anos, as buscas por termos como “caixinha”, “cofrinho” e “porquinho” cresceram cerca de 300%, segundo dados do Google. Já os termos clássicos ligados a investimentos tiveram avanço bem menor. Isso indica uma preferência por soluções percebidas como simples, acessíveis e menos arriscadas, mesmo que ofereçam retornos limitados.
As pesquisas também estão mais longas e conversacionais, com dúvidas práticas sobre empréstimos, comparações entre produtos e funcionamento de serviços financeiros, o que reforça a necessidade de informação clara e didática.
Renda fixa atrai, mas ainda com foco defensivo
Com a taxa Selic elevada desde 2024, o Brasil chegou a 100 milhões de investidores em renda fixa em 2025, um crescimento expressivo em relação ao ano anterior. Ainda assim, o principal motivo para esse tipo de investimento segue sendo a formação de reserva de emergência, e não necessariamente a construção de patrimônio no longo prazo. Segurança, previsibilidade e baixo risco aparecem como prioridades, enquanto estratégias mais amplas de investimento ainda são pouco exploradas.
Resumo: Mesmo quando conseguem poupar, muitos brasileiros não investem por falta de conhecimento, medo de golpes e dificuldade em relacionar investimentos a objetivos concretos. Um estudo do Google mostra que a cultura de guardar dinheiro é forte, mas ainda desconectada do hábito de investir, apesar de um cenário econômico considerado favorável por boa parte da população.








