As dívidas das famílias seguem avançando, ocupando um espaço cada vez maior da renda anual.
Os dados mais recentes indicam que quase metade do rendimento anual das famílias brasileiras já está comprometida com algum tipo de dívida. Entram nessa conta financiamentos, empréstimos pessoais, crédito consignado e, sobretudo, o cartão de crédito, que aparece como peça central dessa engrenagem. Os números são do Banco Central, que acompanha mensalmente o endividamento e a inadimplência no país.
Ter emprego deixou de ser sinônimo de tranquilidade financeira
O comprometimento mensal da renda com o sistema financeiro atingiu o ponto mais alto da série histórica. Isso significa que uma parcela expressiva do salário já nasce destinada ao pagamento de parcelas, juros e encargos.
Esse movimento ocorre em um contexto de juros elevados. A taxa básica, a Selic, permanece no maior nível em quase duas décadas, encarecendo todas as modalidades de crédito. Na prática, quem já estava endividado passou a pagar mais caro para manter as mesmas dívidas, enquanto quem precisou recorrer a novos empréstimos encontrou condições menos favoráveis.
Segundo o Banco Central, a inadimplência no crédito livre às famílias também avançou ao longo do último ano, alcançando 6,9% em dezembro. O percentual chama atenção porque rompe um padrão de relativa estabilidade observado em períodos anteriores.
Juros altos e crédito caro no cotidiano
A combinação de juros elevados com prazos mais curtos ajuda a explicar por que a dívida cresce mesmo sem um aumento expressivo do consumo. As parcelas ficam mais pesadas e se acumulam, comprimindo o orçamento mensal. Ainda assim, o volume total de crédito às pessoas físicas continuou aumentando.
Em dezembro, o saldo das operações de crédito livre para pessoas físicas somou cerca de R$ 2,5 trilhões, crescimento de mais de 13% no ano, de acordo com o Banco Central. O avanço ocorreu apesar do custo elevado do dinheiro, indicando que o crédito deixou de ser apenas um instrumento de planejamento e passou a funcionar como solução imediata para fechar o orçamento.
O cartão de crédito como válvula de escape
Entre todas as modalidades, o cartão de crédito lidera o crescimento das dívidas. Em 2025, o volume devido nessa linha aumentou mais de 17%. O dado chama atenção porque o cartão está entre as formas de crédito com juros mais altos do mercado.
O uso frequente dessa modalidade está menos associado a compras pontuais e mais à necessidade de cobrir despesas recorrentes. Alimentação, material escolar, contas domésticas e pequenos gastos do dia a dia acabam sendo parcelados, muitas vezes em várias vezes, criando um efeito cascata no orçamento dos meses seguintes.
Estudos de consultorias privadas apontam que, ao incluir o parcelamento no cartão de crédito de forma mais detalhada, o nível de endividamento das famílias pode ser ainda maior do que o indicado pelas estatísticas oficiais, superando a marca de 50% da renda anual.
Programas de renegociação
O endividamento chegou a dar sinais de recuo no início do atual governo, especialmente após a criação de programas de renegociação de dívidas, como o Desenrola, que esteve em vigor entre 2023 e 2024. A iniciativa ajudou parte das famílias a reorganizar o orçamento, mas o alívio foi temporário.

Com o novo ciclo de aperto monetário iniciado em 2024, a pressão voltou. Desde então, outras alternativas passaram a ocupar espaço, como o crédito consignado privado, voltado a trabalhadores do setor formal. Por ter desconto direto em folha, essa modalidade oferece juros mais baixos e tende a crescer em períodos de crédito restrito.
Além disso, medidas como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil aumentam a renda disponível de parte dos trabalhadores, o que pode contribuir para reduzir a pressão sobre o orçamento doméstico.
O alívio esperado ainda não chegou
A expectativa para 2026 é de mudança gradual desse cenário. O mercado projeta o início de um ciclo de queda da taxa Selic ao longo do ano, o que deve começar a impactar o custo do crédito alguns meses depois. Historicamente, esse efeito não é imediato, mas tende a aliviar o peso das parcelas no médio prazo.
Resumo:
As famílias brasileiras enfrentam endividamento elevado. Juros altos encarecem o crédito e ampliam o peso das dívidas no orçamento mensal. O cartão de crédito se destaca como principal ferramenta para fechar as contas, enquanto o alívio esperado depende da queda dos juros ao longo de 2026.
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