A vergonha é um dos maiores obstáculos para quem enfrenta vícios comportamentais. Enquanto o número de brasileiros em risco cresce — seja com apostas, pornografia, compras impulsivas, jogos digitais ou busca constante por recompensas rápidas — muitas pessoas demoram meses ou até anos para pedir ajuda. Isso acontece porque o tabu cria um bloqueio emocional que, aos poucos, distorce a percepção de culpa, reforça o isolamento e aprofunda o sofrimento.
Segundo o psicólogo clínico Leonardo Teixeira, especialista em comportamento compulsivo, a vergonha adiciona uma segunda camada de dor. Além da dependência comportamental, a pessoa passa a conviver com a sensação persistente de fracasso. “Nem sempre os pacientes chegam ao consultório porque perderam dinheiro ou comprometeram a vida social. Eles chegam porque não aguentam mais sentir vergonha. A vergonha paralisa, e quando paralisa, o problema ganha força”, afirma.
Vergonha e vício: quando o tabu vira inimigo do tratamento
Para o especialista, o tabu se mantém porque a sociedade ainda enxerga hábitos compulsivos como falha moral, e não como questão de saúde mental. Desde cedo, muitas pessoas escutam que apostar demais é irresponsabilidade, que consumir pornografia é desvio de caráter ou que comprar por impulso é futilidade. No entanto, esse tipo de julgamento empurra o problema para o silêncio.
“Quando a pessoa esconde o que vive, o vício cresce no escuro”, explica Teixeira. Assim, em vez de buscar apoio, ela tenta controlar tudo sozinha. Com isso, o ciclo se repete: recaída, culpa, promessa de mudança e nova recaída. Cada tentativa frustrada reforça a ideia de incapacidade e aumenta a vergonha e vício caminham juntos.
Família, culpa e comportamento compulsivo
A vergonha afeta diretamente a forma como a família reage. Quando o problema vem à tona, é comum que parentes respondam com broncas, irritação ou preconceito. No entanto, esse tipo de postura intensifica o ciclo de culpa e afasta ainda mais quem precisa de ajuda.
“Ninguém se abre para quem acusa”, reforça o psicólogo. Por outro lado, quando há acolhimento, a motivação para procurar tratamento aumenta. Portanto, mudar o olhar da família também faz parte do processo de cuidado com os transtornos compulsivos.

Isolamento emocional nos vícios comportamentais
Com o passar do tempo, o isolamento se torna uma consequência direta. Dormir mal, esconder comportamentos, mentir sobre gastos ou inventar desculpas para se afastar das pessoas são sinais frequentes relatados por quem enfrenta compulsões. Ainda assim, muitas dessas pessoas evitam buscar informação por medo de se reconhecer nos sintomas.
Segundo Teixeira, o tabu também prejudica a prevenção. “Quando a pessoa aceita que não está conseguindo parar, ela dá o primeiro passo para retomar o controle. O problema é que a vergonha adia essa consciência”, explica.
Romper o tabu sobre vícios comportamentais é um ato de cuidado
Quebrar o tabu significa retirar o peso moral que impede o tratamento. Falar sobre vício emocional com naturalidade, reconhecer que as compulsões têm base neuroquímica e emocional e entender que se trata de um transtorno — e não de falta de caráter — são passos fundamentais.
“Vergonha não cura nada. Informação cura. Acolhimento cura. Vício não é sobre caráter, é sobre sofrimento emocional”, destaca o especialista. Por isso, buscar ajuda não representa fraqueza, mas coragem.
Psicoterapia especializada, CAPS, grupos de apoio, acompanhamento médico e estratégias de prevenção fazem parte das ferramentas disponíveis. Quanto mais cedo a pessoa chega ao tratamento, maiores são as chances de recuperação. “Quando alguém finalmente fala sobre o problema, percebe que não está sozinho. O tabu existe para ser rompido. E, quando isso acontece, o tratamento começa de verdade”, conclui.
Resumo: A vergonha ainda impede muitas pessoas de buscar ajuda para os vícios comportamentais. O tabu reforça o isolamento, atrasa o diagnóstico e aprofunda o sofrimento emocional. Falar sobre o tema com informação e acolhimento é o primeiro passo para a recuperação.
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