No segundo episódio da série All Her Fault, disponível no Amazon Prime Video, uma cena aparentemente simples provoca um incômodo imediato. Durante o interrogatório de um casal sobre a rotina do filho, pai e mãe estão lado a lado. Ainda assim, quem responde às perguntas, lembra detalhes e organiza as informações é a mãe. O pai observa em silêncio. A sequência funciona como um espelho da vida real e escancara como a sobrecarga mental materna continua invisível e profundamente naturalizada.
Embora não traga longos discursos, a cena comunica muito. Ela mostra como, mesmo quando ambos os responsáveis estão presentes, a carga mental recai quase automaticamente sobre a mulher. E isso acontece não por acaso, mas por um padrão social repetido diariamente dentro das famílias.
O que é carga mental e por que ela pesa tanto?
Segundo Priscilla Montes, educadora e palestrante, especialista em Neuroeducação e Desenvolvimento Infantil, a carga mental envolve o trabalho invisível de planejar, antecipar necessidades, organizar rotinas e tomar decisões constantes relacionadas aos filhos e à casa. Diferentemente das tarefas práticas, esse trabalho mental não termina quando o dia acaba.
“O que a cena de All Her Fault escancara é algo profundamente comum: mesmo quando pai e mãe estão presentes, espera-se que a mulher saiba tudo. Isso não é instinto, é condicionamento social. A sociedade ensinou as mães a carregar tudo na cabeça e chamou isso de amor”, afirma a especialista.
Ou seja, além de executar tarefas, muitas mulheres sustentam sozinhas o planejamento familiar, a gestão emocional da casa e o cuidado invisível que mantém a rotina funcionando.
A construção social da sobrecarga mental materna
De acordo com Priscilla, a sobrecarga mental materna não nasce com a maternidade. Ela se constrói ao longo da vida. Desde cedo, meninas aprendem a observar, antecipar e cuidar. Meninos, por outro lado, costumam ser estimulados a agir apenas quando solicitados. Com o tempo, esse desequilíbrio se transforma em regra silenciosa dentro das famílias.
Assim, a responsabilidade invisível feminina se normaliza. Cabe às mães lembrar vacinas, compromissos escolares, consultas médicas, mudanças de humor, conflitos emocionais e prazos importantes. Enquanto isso, a participação masculina muitas vezes recebe o rótulo de “ajuda”, e não de responsabilidade.
Priscilla reforça que mães não são naturalmente mais organizadas ou atentas. Esse olhar é fruto de um aprendizado social que associa cuidado ao feminino e exime os homens do trabalho invisível das mães.

Corresponsabilidade parental vai além da divisão de tarefas
Para falar sobre corresponsabilidade parental, precisamos ir além da lista de tarefas domésticas. Para a especialista, dividir quem lava a louça ou leva a criança à escola não resolve quando todo o cuidado invisível continua concentrado em uma única pessoa.
“Corresponsabilidade parental não é ‘ajudar’. É compartilhar o trabalho invisível: pensar, decidir, antecipar e sustentar emocionalmente a rotina da criança. Estar presente não é suficiente quando o planejamento da vida dos filhos continua concentrado em uma única pessoa”, explica Priscilla.
Portanto, pais precisam assumir também o planejamento mental, a tomada de decisões e a gestão emocional do dia a dia. Só assim a divisão desigual do cuidado começa, de fato, a ser transformada.
Parentalidade e os impactos no desenvolvimento infantil
Além de afetar diretamente as mulheres, a sobrecarga mental materna também influencia o desenvolvimento infantil. Quando o cuidado se concentra em uma única figura, a criança tende a criar vínculos desiguais e a reproduzir modelos limitados de papéis de gênero.
Na prática, o pai pode até estar presente fisicamente, mas sem o mesmo nível de envolvimento cognitivo e emocional. Essa dinâmica reforça a ideia de que cuidar é feminino, enquanto decidir ou prover é masculino. Com o tempo, esse padrão se perpetua dentro e fora de casa.
Por isso, promover uma parentalidade mais equilibrada beneficia toda a família. Crianças aprendem, desde cedo, que cuidado é responsabilidade compartilhada.
Resumo: Uma cena da série All Her Fault revela como a sobrecarga mental materna segue invisível no dia a dia. O cuidado não termina nas tarefas práticas e afeta mulheres, famílias e crianças. A corresponsabilidade exige dividir também o trabalho mental.
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