Carnaval combina música alta, multidão, fantasia e clima de liberdade. Mas essa atmosfera descontraída não suspende regras básicas de convivência. Pelo contrário, exige ainda mais atenção ao respeito e ao consentimento. A campanha “Não é Não”, criada em 2017 por um coletivo de mulheres após sucessivos episódios de assédio, tornou-se símbolo desse debate e ajudou a transformar o tema em pauta permanente durante a folia.
Para a psicóloga Flávia Timm, doutora em Psicologia e docente do Centro Universitário de Brasília, o consentimento precisa ser entendido como algo central, não como detalhe. Ela explica que, sob a perspectiva da psicologia social crítica e do pós-estruturalismo, dizer “não” é também um posicionamento que desafia estruturas históricas de poder.
Segundo Flávia, o ambiente festivo pode favorecer interpretações distorcidas. “O consumo de álcool, a euforia e a sensação de anonimato fazem com que algumas pessoas interpretem sinais de forma equivocada, intensificando comportamentos impulsivos. Por isso, o consentimento precisa ser claro, explícito e contínuo. Se a outra pessoa diz ‘não’, demonstra desconforto ou não responde de forma afirmativa, esse limite deve ser respeitado”, afirma.
Quando a “descontração” vira problema
A especialista aponta que, em muitos contextos, a ideia de que “é só brincadeira” ou “faz parte da festa” contribui para naturalizar comportamentos invasivos. Inspirada em análises foucaultianas sobre poder disciplinar, ela destaca que certos discursos sociais tornam alguns corpos mais vulneráveis, especialmente os femininos e os dissidentes.
“O consentimento se aplica a qualquer tipo de interação, desde um beijo até toques considerados aparentemente ‘inofensivos’”, ressalta. “Ignorar um ‘não’ ou insistir caracteriza assédio, independentemente do contexto.”
Outro ponto importante é a reação da vítima. Flávia reforça que a ausência de resposta não significa autorização. “Muitas pessoas entram em estado de paralisia em situações invasivas, o que não pode ser confundido com concordância. A violência de gênero se sustenta na ideia de que certos corpos, sobretudo os femininos, os dissidentes, importam menos. Ao afirmar ‘não é não’, as mulheres transformam seus corpos em espaço político de reivindicação, performatizando uma recusa que desafia as normas que as tornam vulneráveis”, explica.

O que dizem os dados
Os números mostram que o problema não se resume a casos isolados. Pesquisa do Instituto Datafolha indica que mais de 40% das brasileiras já sofreram algum tipo de assédio, sendo festas e eventos públicos cenários recorrentes. Já o Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta o Carnaval como um dos períodos com maior registro de importunação sexual em espaços públicos.
A tipificação do crime de importunação sexual, prevista na Lei nº 13.718/2018, foi considerada um avanço importante na proteção das vítimas. A legislação passou a enquadrar como crime atos libidinosos praticados sem consentimento, mesmo sem violência física explícita.
Diversão e responsabilidade caminham juntas
Para Flávia, levar o “não é não” a sério não reduz a alegria da festa, mas torna o ambiente mais seguro para todos. “Quando o ‘não é não’ é levado a sério, cria-se uma cultura de cuidado coletivo. A diversão não diminui; ela se torna mais leve e inclusiva. A orientação é clara: antes de qualquer aproximação, observe, pergunte e respeite. No Carnaval, assim como em qualquer época do ano, a alegria e o respeito devem caminhar juntos”, defende.
Ela conclui que reconhecer o limite do outro é também reconhecer sua dignidade. Consentimento não é formalidade, é condição básica para qualquer interação.
Cinco pontos para lembrar na folia
– Consentimento precisa ser claro e afirmativo, silêncio não significa autorização
– Consumo de álcool não altera o direito de dizer não
– Insistência após recusa não é flerte, é violência
– Paralisia pode ser reação ao medo, não concordância
– Quem presencia situações de assédio também tem responsabilidade
Resumo:
Consentimento é indispensável, inclusive no Carnaval. Dados mostram que o assédio em festas é frequente, e a lei brasileira já tipifica importunação sexual como crime. Respeitar o “não” garante uma folia mais segura e inclusiva para todos.
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