Na noite da virada do ano, um episódio ocorrido no interior do Rio Grande do Sul chamou a atenção das autoridades – e de toda a internet! Uma moradora de São Valentim aguardava a chegada do ator hollywoodiano Brad Pitt no aeroporto de Erechim, acreditando manter um relacionamento amoroso com ele, iniciado online.
A situação foi identificada após uma abordagem da Brigada Militar, que encontrou a mulher dentro de um veículo estacionado nas proximidades do aeroporto. Aos policiais, ela relatou que mantinha contato frequente com o suposto ator por meio de redes sociais e aplicativos de mensagens. Segundo o depoimento, o vínculo havia se fortalecido ao longo do tempo, com planos de oficializar a união e até de casamento na região.
Até aquele momento, não havia registro de envio de dinheiro, bens ou transferências bancárias. Ainda assim, os policiais identificaram fortes indícios de que se tratava do chamado golpe do falso amor, modalidade em que criminosos utilizam imagens e identidades de celebridades internacionais para criar vínculos emocionais com as vítimas.
Como funciona o golpe do falso amor?
Ele segue um padrão que se repete em diferentes contextos. O contato inicial costuma acontecer pelas redes sociais, aplicativos de namoro ou mensagens privadas. O golpista cria um perfil atrativo, muitas vezes, usando fotos de pessoas famosas ou de desconhecidos com aparência considerada ideal.
A relação avança rapidamente. Em pouco tempo surgem declarações intensas, promessas de compromisso e planos de vida em comum. Esse processo é conhecido entre investigadores como “amor relâmpago”, justamente por acelerar etapas emocionais que, em relações reais, levariam meses ou anos.
Com o vínculo estabelecido, aparecem histórias que justificam pedidos de ajuda: dificuldades para viajar, problemas com documentos, bloqueios bancários, emergências médicas ou supostos envios de presentes que exigem taxas para liberação. O objetivo é sempre o mesmo: obter dinheiro, bens ou informações sensíveis.
Fique atenta!
Outra “modalidade” de golpe do amor envolve homens que afirmam viver no Oriente Médio ou na Europa. Nessas situações, o relacionamento começa com longas conversas, muitas vezes mediadas por tradutores automáticos, e evolui para pedidos cada vez mais invasivos.
Em diversos relatos, o discurso inicial é de um relacionamento sério, seguido por solicitações de dinheiro relacionadas a viagens, vistos, encomendas ou emergências. Quando a vítima se recusa, o comportamento costuma mudar de forma abrupta, com agressões verbais, chantagem emocional ou desaparecimento repentino.
Impactos emocionais
Além do prejuízo financeiro, o golpe do amor deixa marcas emocionais profundas. Vergonha, culpa, sensação de humilhação e perda de autoestima são comuns entre as vítimas, o que contribui para a subnotificação dos casos.
Levantamento da Hibou Pesquisas e Insights aponta que quatro em cada dez mulheres brasileiras já foram vítimas de algum tipo de estelionato afetivo. Entre elas, parte significativa relatou perdas financeiras superiores a R$ 5 mil, além de impactos emocionais duradouros.

Especialistas destacam que mulheres acima dos 40 anos e pessoas em situação de solidão ou transição emocional costumam ser alvos preferenciais, justamente por estarem mais abertas à construção de vínculos afetivos.
Cuidado com a tecnologia!
O avanço da inteligência artificial tornou os golpes ainda mais sofisticados. Hoje, é possível criar vídeos, áudios e imagens falsas extremamente realistas, dificultando a identificação de fraudes. Até chamadas de vídeo, antes consideradas uma forma de confirmação, podem ser manipuladas.
No Brasil, o estelionato afetivo já é reconhecido como crime, especialmente quando há comprovação de vantagem financeira obtida por meio de manipulação emocional. Em 2024, a Câmara dos Deputados aprovou projeto que aumenta a pena para estelionato cometido com base em relação afetiva ou de confiança, com previsão de prisão de três a nove anos, além de multa.
Só que, quando o golpe é praticado por criminosos que atuam fora do país, a recuperação do dinheiro e a punição dos responsáveis se tornam mais complexas.
O que fazer se for vítima?
- Reúna provas, como mensagens, áudios, comprovantes de transferências, nomes e informações do golpista;
- Registre boletim de ocorrência;
- Busque um advogado para entrar com ação civil (indenização) e criminal (processo penal).
Proteja-se!
Desconfiar de relações que evoluem rápido demais é o primeiro passo. Golpistas costumam criar um clima de urgência emocional para reduzir o senso crítico da vítima. Perfis com poucas interações reais, histórias inconsistentes ou imagens excessivamente produzidas merecem atenção.
Evitar compartilhar dados pessoais, documentos, endereço, informações bancárias ou rotina diária é fundamental, mesmo após semanas de conversa. Pedidos de dinheiro, cartões-presente, transferências via Pix ou criptomoedas são sinais claros de alerta.
Não migre a conversa para o WhatsApp. Os aplicativos de relacionamentos oferecem mecanismos de denúncia e monitoramento. Antes de qualquer encontro presencial, prefira locais públicos, avise alguém de confiança e utilize transporte próprio.
Pesquise tudo o que puder e, diante de qualquer comportamento suspeito, a denúncia deve ser feita tanto ao aplicativo quanto às autoridades policiais.
A matéria acima foi produzida para a revista AnaMaria Digital (edição 1505, de 23 de janeiro de 2025). Se interessou? Baixe agora mesmo seu exemplar da Revista AnaMaria nas bancas digitais: Bancah, Bebanca, Bookplay, Claro Banca, Clube de Revistas, GoRead, Hube, Oi Revistas, Revistarias, Ubook, UOL Leia+, além da Loja Kindle, da Amazon. Estamos também em bancas internacionais, como Magzter e PressReader.







