O levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que 47,7% dos casais se divorciam com menos de 10 anos de união. O resultado representa um aumento de 10 pontos percentuais nos últimos 12 anos. Em entrevista exclusiva à AnaMaria, Gisele Lima, terapeuta de casais há mais de 20 anos e autora do livro ‘Casamento de Sucesso’, propõe uma realidade oposta a essa estatística desanimadora, com dicas práticas para conquistar um casamento de sucesso.
Fato é que ninguém se casa pensando em separar. O livro, que tem como base a psicologia comportamental, disponibiliza atividades práticas, construídas ao longo da vida profissional de Gisele. “São ferramentas terapêuticas que dão resultados e que as pessoas conseguem aplicar sozinhas”, explica a autora.
Casada há 36 anos e mãe de dois filhos — já casados — a autora conta que a inspiração para ‘Casamento de Sucesso’ veio de sua própria história: “Os primeiros 12 anos do meu casamento foram desafiadores. Perdi dois bebês e essas perdas trouxeram um desgaste emocional muito grande. Tivemos dificuldades financeiras sérias e conflitos devido às diferenças”.
“A mudança partiu do meu posicionamento, por não me contentar em viver um casamento ruim ou mais ou menos”, afirma Gisele, que a partir de sua experiência pessoal, decidiu se especializar em Análise Clínica do Comportamento. A seguir, falaremos profundamente sobre as nuances que envolvem um relacionamento a dois.
Como ter um casamento de sucesso?
O primeiro passo para conquistar um casamento de sucesso é que o casal aprenda a ter conversas profundas e difíceis. Segundo a autora, esse é um ponto crucial para ter um casamento saudável e transformar uma crise, por mais grave que seja, em uma oportunidade de aprendizado, crescimento, amadurecimento e fortalecimento. Em outras palavras, não há como encontrar um caminho sem conversar.
Gisele explica que é preciso reconhecer quando chega o momento de buscar ajuda profissional e especializada. Quando estamos imersos na crise e envolvidos pelo caos, pode ser difícil enxergar novas possibilidades em um relacionamento que não vai bem.
É preciso aprender a ouvir, dar feedback e estar disposto a ouvir o ponto de vista do outro. Uma comunicação eficaz tem o objetivo de resolver conflitos. Os dois devem conversar com intenção de resolver, ouvir com empatia e entender a necessidade do outro. Assim, é possível construir um ambiente de segurança, onde ambos se sintam seguros para falar sobre sentimentos e frustrações. Um dos pontos que mais causa desconexão entre os casais é o acúmulo de frustrações que não são resolvidas.
Acúmulo de frustrações: a montanha que encobre os sentimentos
A terapeuta compartilha uma técnica prática de comunicação eficaz para criar um ambiente seguro para conversas difíceis. Quando o casal está em crise, as conversas podem rapidamente escalar para brigas e ofensas. Desta maneira, é impossível resolver o conflito.
“O casal deve combinar um código ou sinal para quando qualquer um dos dois perceber que o emocional está dominando ou que está prestes a se exceder e passar dos limites. O sinal deve interromper a conversa imediatamente, para que ambos tenham um tempo para voltar ao estado racional e, assim, retomar a conversa em outro momento”, detalha.
Além disso, o autoconhecimento é uma poderosa ferramenta para ter um casamento de sucesso. Gisele pontua que precisamos conhecer nossos limites, potenciais, vulnerabilidades e pontos de insegurança. Às vezes, ficamos na defensiva devido à insegurança pessoal. A reação do outro é uma resposta à nossa atitude.
Por isso, um dos dois precisa ter a iniciativa de se desarmar e deixar de corresponder a agressividade: quando um não quer, dois não brigam. “É preciso entender que duas pessoas sempre vão ser muito diferentes, não tem como não ter divergências de opinião, de gostos e necessidades. O casamento é uma fusão entre duas pessoas imperfeitas, com suas falhas e limitações”, acrescenta. Desenvolver uma comunicação eficaz e um ambiente seguro exige trabalho; é um exercício diário, mas vale a pena.
Transformar as diferenças em pontos fortes
Você certamente já ouviu falar que os opostos se atraem. É comum que duas pessoas que se relacionam tenham temperamentos diametralmente opostos. Isso não é ruim, apesar de muitas pessoas verem isso como um problema. “Não é à toa que os opostos se atraem: o que me atrai no outro é o que me completa. Quanto mais diferentes as pessoas, mais rico pode ser o relacionamento e maior o potencial de conquista do casal”, diz Gisele.
“É um exercício de valorizar o que o outro tem de diferente, olhando para as diferenças de uma maneira positiva. Passamos muito tempo tentando convencer o outro de que nosso jeito é melhor”, destaca a especialista.
Autoconhecimento e conversas francas entre os parceiros ajudam. Apesar disso, é preciso destacar que isso não significa que ajustes não possam ser feitos. “O temperamento é inato, mas podemos, sim, desenvolver características para nos ajustarmos e convivermos melhor com o parceiro”, esclarece.
Atitudes diárias feitas de maneira intencional e pessoal.
Gisele enfatiza que para resolver os conflitos usando técnicas de comunicação eficazes, é crucial praticar o perdão diário. Permanecer casado não significa ter um casamento de sucesso: é viver juntos e bem, com ambos satisfeitos, felizes e apaixonados. Isso é possível, mas a partir de atitudes assumidas diariamente de forma intencional e pessoal”, continua.
“O que mais vejo na minha experiência como terapeuta são pessoas esperando pelo outro, dependendo e responsabilizando o parceiro. O caminho mais fácil é transferir a responsabilidade ao invés de assumir. É preciso se posicionar e, a partir disso, buscar a transformação”, diz a terapeuta.
Muitas vezes, o que leva o casamento ao fim não são grandes eventos, como uma traição, por exemplo. São pequenas ofensas e frustrações que não são resolvidas e perdoadas no dia a dia. Esse é um processo muito pessoal e subjetivo, e, novamente, demanda autoconhecimento.
“Ambos são imperfeitos e estão sujeitos a ferir e serem feridos. É preciso ter um olhar de compaixão com o outro. Hoje você está na posição de perdoar, mas amanhã pode estar na posição de precisar de perdão. Vale lembrar, que isso não quer dizer que alguém precise se submeter a uma relação abusiva”, acrescenta.
A cama é reflexo da relação não sexual
A vida sexual deixar de ser ativa é uma tendência natural. Outra atitude para ter um casamento de sucesso é valorizar a sexualidade. É comum que os casais deixem de dar o devido valor a esse aspecto, e, apesar do casamento não ser só sexo, ele representa uma fatia muito importante do relacionamento.
Com a chegada dos filhos, há uma necessidade maior de trabalhar para conquistar uma carreira sólida. Esses fatores fazem com que os casais deixem a sexualidade de lado. É importante buscar informações para adaptar a vida sexual à cada fase da vida.
“Você pode continuar a ter uma vida sexual ativa, intensa e prazerosa com seu parceiro, em cada fase da vida. Mas isso também é uma busca contínua, nada subsiste sem uma manutenção. A intimidade fortalece a conexão, a intimidade e cumplicidade. Muitos deixam em segundo plano, principalmente, por acreditarem que é normal”, ressalta.
É fundamental cuidar da saúde e buscar aprender cada vez mais sobre as diferenças entre a sexualidade feminina e masculina. “A cama é reflexo da relação não sexual. As pessoas deixam de investir em atitudes e comportamentos de quando estavam apaixonados. É preciso criar uma agenda para terem momentos juntos, para conversar e compartilhar”, finaliza.
Leia também:
Como desenvolver a inteligência emocional? Veja dicas práticas para melhorar o seu dia a dia
Esfriou a relação? Entenda por que os casais param de ter relações sexuais