Pegar um ônibus, caminhar até o trabalho ou voltar sozinha no fim do dia faz parte da rotina de muitas mulheres. Mas, por mais simples que pareça, sair de casa exige coragem. Uma pesquisa nacional recente mostra que essa sensação não é exagero: 74% das brasileiras já vivenciaram ao menos uma situação de violência durante seus deslocamentos urbanos, incluindo episódios de assédio, importunação e abordagens indesejadas.
A pesquisa Percepções e experiências das mulheres quando se deslocam pelas cidades ajuda a entender porque muitas mulheres alteram rotas, horários e até hábitos diários em busca de maior segurança. O estudo foi realizado entre setembro e outubro de 2023 pelos Institutos Patrícia Galvão e Locomotiva, com o apoio da Uber. O levantamento ouviu 1.618 mulheres maiores de 18 anos, que moram em todas as regiões do Brasil e saem de casa pelo menos uma vez por semana.
Os dados chamam atenção para um ponto sensível: o problema não está restrito a um meio de transporte específico. Pelo contrário, o assédio acompanha as mulheres em praticamente todos os deslocamentos urbanos, do trajeto a pé ao transporte coletivo.
Assédio nos deslocamentos urbanos faz parte da rotina
Entre as entrevistadas que relataram algum tipo de violência, 71% disseram ter vivido situações de violência enquanto caminhavam pelas ruas. O ônibus aparece logo em seguida, citado por 56% das mulheres, enquanto metrô e trem também figuram entre os locais onde o assédio ocorre com frequência.
Esses números mostram que o simples ato de circular pela cidade ainda expõe mulheres a olhares insistentes, cantadas invasivas e abordagens que causam desconforto. Além disso, a pesquisa indica que, nos transportes coletivos, o assédio sexual aparece com força, sobretudo em horários de maior lotação.
Por isso, muitas mulheres desenvolvem estratégias silenciosas de proteção: evitam fones de ouvido, fingem estar ao telefone ou escolhem trajetos mais longos, mas considerados “mais seguros”.

A pesquisa revela ainda um alto índice de insegurança nos deslocamentos femininos. A esmagadora maioria das mulheres (97%) teme ser vítima de violência ou discriminação, o que inclui assalto, furto, sequestro, estupro, importunação/assédio sexual, agressão física, olhares ou cantadas inconvenientes e racismo. Para 83% das entrevistadas, o medo de que pelo menos uma dessas situações ocorra durante seus trajetos diários é muito intenso.
Quando o medo redefine a relação com a cidade
Com o tempo, essas experiências afetam mais do que o momento do deslocamento. Elas moldam escolhas diárias e limitam a forma como as mulheres ocupam os espaços urbanos. Segundo os institutos responsáveis pelo estudo, a repetição dessas situações contribui para a naturalização do assédio nos deslocamentos urbanos, o que dificulta o enfrentamento do problema.
Mais do que estatísticas, os dados reforçam a necessidade de políticas públicas, educação e ações coletivas que garantam às mulheres o direito básico de ir e vir sem medo.
Resumo: Pesquisa nacional mostra que 74% das mulheres já sofreram violência durante seus deslocamentos. Caminhar a pé e usar ônibus concentram mais relatos de assédio. Os dados evidenciam como os deslocamentos urbanos ainda limitam a liberdade feminina.
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