Muito além da estética, a obesidade é uma doença crônica que impacta a saúde física, emocional e até a vida profissional de milhões de brasileiros. No Dia Mundial da Obesidade, o Vozes do Advocacy reforça o alerta: falta informação, acesso ao tratamento e, principalmente, respeito.
“Nosso papel é ampliar a compreensão de que a obesidade é uma doença com múltiplas causas e que exige cuidado multidisciplinar. Ainda existe a falsa ideia de que se trata apenas de sedentarismo ou alimentação inadequada, quando, na verdade, estamos falando de uma condição complexa que precisa de diagnóstico precoce e tratamento contínuo”, explica Vanessa Pirolo, presidente da federação.
Atualmente, a fila para cirurgia bariátrica ultrapassa 10 anos em diversas cidades do país e essa demora custa vidas. “Por isso, nossas organizações estão mobilizadas em vários núcleos para conscientizar a população sobre os riscos dessa epidemia e, ao mesmo tempo, atuar junto ao poder público para que projetos de lei avancem e ampliem o acesso ao tratamento no Brasil”.
Panorama é sombrio e preconceito começa dentro de casa
Os números são claros: 24,3% dos adultos brasileiros vivem com obesidade e 37,1% estão com sobrepeso, segundo dados do Vigitel de 2023. Além dos impactos na qualidade de vida, os custos da doença chegam a cerca de R$ 70 bilhões por ano no país.
Além da dificuldade de acesso ao tratamento, quem vive com obesidade enfrenta discriminação diária. “Conviver com a obesidade significa lidar com preconceito todos os dias. Ele aparece nas relações afetivas, no ambiente de trabalho e até em situações simples, como usar o transporte público. No atendimento de saúde, muitas vezes o julgamento vem antes mesmo de qualquer avaliação clínica, como se tudo fosse automaticamente atribuído ao peso. Já ouvi questionamentos sobre a minha capacidade profissional por ser uma advogada com obesidade”, pontua Narjara Araújo, advogada e integrante da Comissão de Saúde da OAB Ceará.
Especialistas reforçam que a obesidade precisa ser encarada como doença crônica, e não como falha individual. “A obesidade é uma doença crônica, complexa e, muitas vezes, reincidente. Por isso, não se trata de ‘força de vontade’ nem de soluções rápidas: o cuidado efetivo exige acompanhamento prolongado, com metas realistas, reavaliações periódicas e estratégias que se sustentem no dia a dia”, explica Daniela Alves, nutricionista.
Como doença crônica, quadro precisa de acompanhamento constante

Sem tratamento contínuo, aumentam as chances de complicações como diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, alguns tipos de câncer, apneia do sono, doença hepática gordurosa, dores articulares e impactos na saúde mental.
O alerta também se estende aos rins: o Brasil tem mais de 172 mil pessoas em diálise, sendo 85% atendidas pelo SUS. Apenas em 2023, foram realizados mais de 17 milhões de procedimentos renais, com repasse de R$ 4,3 bilhões.
A obesidade é um fator de risco majoritário para o desenvolvimento de doenças renais crônicas (DRC), nefropatias e pedras nos rins (nefrolitíase), agindo diretamente através de alterações hemodinâmicas e inflamatórias. Por isso, ao longo de março, o Vozes do Advocacy promove ações de conscientização em 13 cidades brasileiras, com triagens gratuitas, orientação à população e mobilização junto ao Congresso Nacional.
Campanha do Rim reforça alerta sobre complicações
Com o tema “Cuidar de pessoas e proteger o planeta”, a campanha chama a atenção para a necessidade de políticas públicas inclusivas e sustentáveis, além de estimular pessoas com diabetes e obesidade a realizarem exames simples, como creatinina e albuminúria, capazes de identificar alterações renais ainda nas fases iniciais.
Ao longo de todo mês, as organizações vinculadas à Federação promovem atendimentos gratuitos, testes de creatinina, aferição de pressão arterial, e orientações nutricionais. O Vozes também realiza em março o I Fórum de Diabetes, Doenças Cardiovasculares e Renais, em Porto Alegre junto com o Instituto da Criança com Diabetes.
A bateria de eventos visa chamar a atenção do Ministério da Saúde, das Secretarias de Saúde do Estado do Rio Grande do Sul e de Porto Alegre, sobre os problemas do Sistema Público de Saúde com relação a estas condições. “Reconhecer a obesidade como doença, garantir cuidado contínuo e investir em prevenção é caminho decisivo para evitar complicações graves, inclusive a insuficiência renal”, enfatiza Vanessa Pirolo.







